A volta

Carina Luft



“Hoje vou te dar um beijo”.

“Tá louco?”

“Estou. Tô doidinho pra te beijar.”

“Pára com isso, Edu. Somos casados.”

“E daí que somos casados! É só um beijo.”

“Então vai beijar a tua mulher, ora.”

“Ah! Beijar minha mulher não tem graça. Tu sabes quanto tempo estou casado?”

“Uns dez anos.”

“Quatorze! São quatorze anos comendo a mesma carne, o mesmo prato todo o dia.” “Credo, Edu! Que coisa mais chula falar assim da tua mulher.”

“Fazer o quê! É a mais pura verdade. E além do mais, que mal há num beijo. É só um beijo. Não vou te comer aqui, dentro do carro, em plena luz do dia, no horário de trabalho. Também não sou nenhum animal que não consiga controlar seus impulsos.”

“Cai fora, Edu! Sou casada e ponto final.”

“Ah, tá bom! Agora vai dizer que não sente vontade de beijar outro homem, outra boca só porque é casada. Que coisa mais puritana. Uma santa! Esquece isso, guria, não existe coisa melhor do que beijar. ”

“Não? Existe, sim. Olha que existe!”

“Eu quis dizer que o beijo é uma das melhores coisas da vida. Uma das, viu?”

“Tá bom! Agora se concentra e cuida do trânsito. Tu olhas mais pra mim do que pra frente. Daqui a pouco batemos o carro da empresa, que explicação vamos dar?”

“Que eu estava tentando te beijar.”

“Ai! Ai! Que cara mais chato. Desiste, Edu, desiste. Já te disse que sou casada e não vou te beijar.”

“Quanto tempo tu estás casada?”

“Não te interessa.”

“Ui! Grosseira.”

“Há cinco anos.”

“Duvido que em cinco anos tu não tiveste a vontade de beijar, sair ou até dar pra outro homem. Du – vi – do! Por melhor que seja o casamento, a gente sente vontade de provar coisas diferentes, a rotina leva a isso.”

“Tá bom, Edu! Tive vontade, sim, mas não quero te beijar.”

“Por quê?”

“Porque não. Não quero. Não tô a fim.”

“Por acaso estou com bafo de tigre doido?”

“Não é isso. Simplesmente não quero te beijar. Não existe nada que me atraia em você, entendeu?”

“Então tu afirmas que já sentiu vontade de beijar alguém diferente que não seja o teu marido.”

“Às vezes, não é sempre.”

“Viu, eu disse! Ninguém consegue ficar muito tempo comendo o mesmo prato. Enjoa. Perde a graça, pra não dizer o tesão, senão tu vais me chamar de chulo novamente... Vocês estão bem?”

“Quem?”

“Ora quem, Marina! De quem estamos falando?”

“Eu e o Alberto? Estamos...”

“Xiii. Não senti firmeza nesta resposta.”

“Não vamos falar disso, certo?”

“Certo. Vamos falar de quê, então?

“Quem sabe não ficamos quietos. Já estou com dor de cabeça e estamos a serviço, daqui a pouco chegaremos no cliente e estarei um trapo humano.”

“Tu sabes quanto tempo esperei por este dia?”

“Pra visitar este cliente?”

“Não, Marina! Ficar sozinho contigo, viajar, sair de dentro daquela droga de empresa. Tem sempre um turbilhão de gente em volta. Todo mundo te olhando, querendo te comer.

“A gente bem que podia sair de vez em quando, fazer um happy hour, jantar, dançar.

Sei que tu curtes Pink Floyd, eu também. Sei que tu gostas de um fondue, eu também. Então, pensei, a gente podia ir na tua casa, assistir a um DVD do David Gilmour, relaxar um pouco.”

“Pirou? E o meu marido? O que faço com ele?

“Outro dia ouvi tu dizendo que ele viaja muito. Fica fora uns quinze dias. Babaca este teu marido, não? Deixar um mulherão desses sozinha por muito tempo é o mesmo que pedir por um atestado de corno.”

“Chega, Edu! Não quero que tu fales assim dele!”

“Tá bom. Não precisa ficar toda elétrica, irritadiça, nem falei em beijo. Falei num

jantarzinho e um DVD, só isso.”

“Tá bom! Agora tu queres me convencer de que não vai tentar nada comigo.”

“Não. Talvez só um beijo.”

“Chega, Edu, cansei deste papo.”

“Tudo bem, vamos mudar de assunto... Mas a tua cintura...

“Como ia dizendo, a tua cintura é algo que me deixa louco. Claro que ela sozinha não tem muito efeito. O que eu gosto mesmo é de mulher com cintura fina e bundão, assim como o teu.”

“Edu, me respeita!”

“Mas não estou te desrespeitando, só estou te elogiando. Vai me dizer que não gosta de ser elogiada.”

“Gosto, é claro que gosto, mas de uma forma mais educada, menos vulgar. Por que tu não falas da minha inteligência, ora bolas, da minha postura, da minha elegância.”

“Porque não tô nem aí pra isso. Nem percebi se tu és inteligente ou elegante. Desde que tu entraste lá na empresa só enxerguei tua bunda. Fazer o quê? Sou homem, minha cara. Mulher inteligente e educada eu quero pra casar, pra ser a mãe dos meus filhos e isso eu já tenho em casa. Aliás, minha mulher é fantástica, não a trocaria por nada neste mundo, eu a valorizo muito por tudo o que ela é.”

“Não acredito! Se tu tens uma mulher maravilhosa e está satisfeito com ela, por que fica no meu pé desse jeito? Só falta me dizer que me quer pra amante.”

“Acertou! Jamais vou deixar da minha mulher, sou sincero, só quero te comer. Acho que tu não deves deixar do teu marido também. A gente só vai se divertir de vez em quando.”

“Pôxa! Ainda bem que tu não és tão canalha assim.”

“Então, depois de perceber que não sou tão canalha assim, tá a fim de... sei lá, sair qualquer dia desses, fazer qualquer coisa?”

“Não, Edu! Deixa de ser chato. Tu não és o meu número. Esquece.”

“Então existe alguém lá na empresa que tu gostarias de sair ou beijar?”

“Pára! Não tem, não! Cuidado aí com a entrada, temos que virar à esquerda, estamos chegando. Graças a Deus!”

“É, tu tens razão, estamos chegando. Mas tem a volta, se esqueceu disso?”