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Você vale mais do que
qualquer tesouro
Andréia de
Vargas Souza
No chão, o corpo
estendido. Da janela podia-se ver o sangue escorrer em volta
dele.
...
Se pudesse fugir
para qualquer lugar, faria. Mesmo que os riscos fossem
grandes, que a coragem dobrasse a curva e não voltasse mais.
Coloriu o desenho com traços firmes, cores fortes: a árvore
roxa, o céu amarelo.
- Tá lindo,
mamãe!
Foi então que
percebeu o que fazia, que não sentia o que estava pintando,
que os comentários de Lilian se tornavam distantes.
- Termina,
filha. Mamãe está com dor de cabeça.
A menina não
sabia o que era essa dor de que sua mãe se queixava tanto. Dia
sim outro também ela parava com as brincadeiras, com os
serviços, com o sorriso para dizer que sentia dor de cabeça.
Nunca nenhum médico veio fazer exame, poucas vezes a viu
tomando remédios. O desenho tinha ficado lindo. Árvore
diferente. Faltava o cachorro, ia pintá-lo de laranja.
Isadora
estirou-se na cama. Entre correr e ficar se deixava naufragar
ali, em meio a inundação que tornara-se sua vida. Decidiu não
preparar o jantar, não estava com fome. Lilian poderia comer
biscoitos se quisesse.
Com o correr do
tempo Lílian passou a se tornar constantemente preocupada com
a mãe. Não
supervisionava mais seus banhos, não conferia seus temas.
Deixou de jogar, pintar, cantar. Não gostava mais de brincar
com ela. Também havia parado de cozinhar, mandando-a comer
seguidamente na casa da Vera. Ela tentava entender, devia ser
dor de cabeça. E seu pai que foi viajar e não voltava mais, e
não ligava, ela queria poder dizer para ele vir, cuidar delas.
As aulas estavam se tornando chatas, as amigas já não tinham
mais graça, nada fazia com que ela ficasse alegre. Quando
chegava em casa procurava fingir que estava tudo bem, não
queria mostrar para a mãe que se sentia triste. Então corria,
gritava mais que o normal, ria até ficar cansada. Ia dormir
sem escovar os dentes mesmo, ninguém mais cobrava isto dela.
No guarda-roupa
Isadora fazia estoque de bebidas. Começou com uísque, passou
para a vodca e logo o gim. Em seguida a mistura de todos.
Depois de 14 anos, voltou a fumar. Enquanto bebia e fumava
muito chorava suas dores sozinha trancada no quarto e esquecia
da filha... Pensava que ela tinha seus brinquedos, seu mundo
próprio, as alegrias da infância, por certo não sentiria falta
da mãe, nem do pai pois já não perguntava dele, melhor assim,
pelo menos não precisava dar explicações imprecisas e nem
inventar histórias para disfarçar a verdade. Pela madrugada
sentia-se cansada, mas o sono não a contagiava. Então apelava
para os tranqüilizantes. De manhã dormia até tarde. Acordava
com a agitação de Lilian que estava a cada dia mais
hiper-ativa.
- Cala a boca
Lílian. Não viu que eu tava dormindo? – gritou agarrando a
filha pelo braço.
A menina ficou
com os olhos vidrados. O medo de estar diante do desconhecido
se tornava assustador. A urina escorreu perna abaixo, mas as
lágrimas permaneceram contidas. Isadora sentiu arrependimento,
pena da filha, vontade de abraçá-la, de fazer um carinho,
pedir desculpas. Só que estava irritada demais, revoltada
consigo mesma para qualquer gesto de afeição.
- Vá para o
banheiro tomar banho. E que isto nunca mais se repita.
Pela tarde,
enquanto a filha estava na escola, ela ficava em frente a
televisão comendo, trocando de canal, vendo tudo sem prestar
atenção a nada. Consultava freneticamente o calendário, suas
férias, as licenças-prévias, seu afastamento por tratamento de
saúde, sua liberdade estavam terminando e não queria pensar na
hipótese de voltar ao trabalho. Ter que aturar os filhos dos
outros, ensinar, explicar, manter a paciência. Não agüentava
nem lembrar. Deixava o telefone tocar. Só atendia a campainha
no horário da chegada de Lílian. Não desejava ouvir ninguém,
muito menos a Vera que já vinha com cobranças, querendo
explicações pela mudança de seu comportamento. Vizinhos se
tornavam cansativos com o tempo.
...
Neste dia
começou a beber mais cedo, pela tarde. Quando Lílian chegou já
havia bebido mais de meia garrafa de Jhonny Walker. A menina
veio para lhe dar um abraço e ela repeliu-a com medo que esta
sentisse o cheiro da mistura de álcool e cigarro.
- Vou tomar
banho.
Lilian
aproveitou para terminar de enfeitar o cartaz que não tinha
conseguido acabar em aula. Era sobre o dia do amigo e ela quis
fazer a homenagem para a mãe. Ia colocá-lo em frente da sua
cama , para que na hora que fosse deitar pudesse vê-lo. A
janela do quarto estava aberta, ventava. Não quis fechá-la
porque ultimamente a mãe dizia que o apartamento precisava
ficar ventilado. Abriu as gavetas em busca de uma fita para
fixar o cartaz, tinha pressa, queria fazer surpresa. Colocou
tudo em cima da cama: as caixas de remédios, as carteiras de
cigarro, não achou. Abriu as portas do guarda- roupa,
encontrou Band- Aid e resolveu colar assim mesmo. Puxou um
banco e colocou-o em frente à janela. Abriu os adesivos, pegou
a cartolina. Subiu no banco. Queria grudar no vidro.
Isadora saiu do
banheiro e ao entrar no quarto se assustou com a invasão de
Lilian. Os cigarros, os remédios, as portas abertas com as
bebidas à mostra. Ela não podia ter feito isso. Correu até a
filha no instinto de tirá-la daquele ambiente, de protegê-la,
de não se deixar desvendar. Lilian viu novamente o
desconhecido em sua frente, a mãe transtornada, o medo. Foi
descer do banco, fugir. Desequilibrou. Isadora tentou segurar
a filha, não tinha força, firmeza. Tropeçou. Viu a sua menina
caindo para o lado de fora da janela. Não conseguiu nem
gritar. Apenas silenciosamente dizia:
- Filha. Minha
filha.
No chão do
quarto, o cartaz escrito em vermelho:
Mamãe
Você vale mais do que
qualquer tesouro.
Adornado com
corações vermelhos, com boquinhas vermelhas, florzinhas
coloridas.
Oito
andares abaixo, no chão frio, estava o corpo ao abandono. Da
janela podia-se ver o sangue escorrer em volta dele.
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