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Vagas
limitadas
Daniel Mendelski Ribeiro
A fiscal de trânsito caminhava silenciosamente, o solado de plástico ordinário dos sapatos de trabalho fervendo sob o sol do meio-dia. Havia trocado de turno há cerca de meia hora e agora conferia os tíquetes do parquímetro no painel dos carros, o bloco de multas cruzado sobre o peito como uma colegial, o náilon preto combinando com a cor da pele já brilhosa de suor.
Aproximou-se da camioneta prateada e começou a retirar a caneta da presilha do bloco; a validade já estava ultrapassada em quase vinte minutos. Ela ouviu, então, o tique-toque-taque de relógio descompassado, às costas dela, produzido por uma bengala de cego manejada por um homem baixo, usando óculos escuros de aro redondo, camisa pólo esbranquiçada e uma pasta azul a tiracolo, que saía do prédio defronte.
O homem dirigiu-se num ângulo reto para a beira da calçada, sempre batendo a bengala, firme na mão direita. Quando a fiscal abriu a boca para avisar da camioneta à frente dele, a bengala mudou de tac-toc para o tuc-tuc da reverberação do metal. O homem estendeu a mão esquerda para o teto do veículo, apalpou o vinco entre a porta e a carroçaria e deslizou a mão pela coluna do pára-brisa até o retrovisor externo esquerdo. Tateando, reconheceu o pequeno espelho de manobra e seguiu a borracha inferior da janela do motorista até a fechadura. Ambidestro, como todos os cegos, sacou do bolso um chaveiro e acionou o interruptor do alarme. As luzes piscaram e ele introduziu a chave, abrindo a porta do carro.
- O senhor podia avisar o dono desse carro que o tempo do parquímetro já esgotou? Isso dá multa...
O homem sobressaltou-se e virou o rosto na direção donde partira a voz da fiscal.
- Olha, é que eu não sei mexer muito bem na "maquininha" essa de estacionar...
Ele estendeu a mão esquerda na direção genérica da fiscal, com movimentos circulares, até tocar no braço esquerdo dela; subiu, tateando delicadamente até o ombro, tocando com o polegar a galona da camisa azul e depois a faixa reflexiva de náilon preto e verde, ali traspassada.
- A senhora me desculpe, mas é que quando eu estacionei aqui pedi para uma moça que passava para tirar o tíquete, eu não sei muito bem como funcionam essas máquinas, mas disse para ela que ia ficar mais de hora... Acho que ela se enganou, estava com pressa, sabe como é...
A mulher tocou o próprio ombro, como se o toque dele tivesse amarrotado o uniforme azul, enquanto estreitava o cenho.
- O senhor veio aqui dirigindo?
- Sim, foi aqui que eu estacionei, por quê?
Ela estendeu a mão e abanou-a perto dos olhos dele, que permaneceu impassível, fitando algum ponto indeterminado no espaço. Exatamente como um cego, ela pensou.
- É que o senhor não pode dirigir, sabe, porque... Por causa do seu ... estado, não é?
- Como assim, estado? Pode dizer que sou cego! Só porque sou deficiente não quer dizer que eu não possa levar uma vida normal, ter meus afazeres, meus lazeres, a senhora sabe? Aliás, acho muito triste que a senhora, sendo autoridade, tenha essa atitude. Ora, hoje em dia muitos deficientes são até valorizados em certas atividades, tem deficiente auditivo trabalhando em locais com muito barulho, paraplégicos digitadores, um monte de coisas.
- Mas é que ...
- A senhora não me leve a mal, é que eu luto muito contra esses preconceitos, sou da associação, a gente vê preconceito contra nós, contra os índios, contra os negros, e são todos pessoas humanas com seus direitos...
A fiscal interrompeu-o, tocando na mão dele, que se apoiava na porta entreaberta do carro, como uma barreira entre ambos.
- Não é isso, estou tendo todo o respeito com o senhor, só quero cumprir a lei. O senhor não pode dirigir sem carteira.
- Mas se é por isso, olha só!
O homem meteu a mão no bolso lateral da pasta que carregava, remexeu e retirou um pequeno invólucro de plástico transparente.
- Olha só a minha carteira, ainda está válida. Não está de cabeça para baixo, está? – Enquanto a fiscal olhava a data de vencimento (faltava ainda dois anos) o homem inclinou-se para perto de onde ela estava, falando num tom confidencial – Olha, pra te dizer a verdade, eu perdi a visão por causa da diabetes, há quase três anos, então já dirigia antes, sabe, e sigo dirigindo. Não é proibido! Inclusive, eu era representante de vendas, dirigia pelo estado todo, o pessoal da firma até me ajudou, hoje trabalho no tele-marketing deles. Vim aí nessa livraria pra comprar uns livros em braile sobre marketing, pra trabalhar melhor, sabe... Só aqui que tem, venho seguido...
Ela ergueu os olhos e tentou passar um tom de compreensão na voz:
- Eu acho muito legal esse seu esforço, sou da comunidade afro e também enfrentei muita barra, mas é que sem exame de vista o senhor não podia estar dirigindo – também mudou o tom, falando baixinho - Olha, vamos fazer assim, eu não te multo, mas tu chamas alguém pra vir buscar o carro e te levar, tá?
O homem franziu o cenho.
- Não, muito obrigado, mas eu cheguei dirigindo e vou sair dirigindo! Não vou incomodar ninguém! A minha mulher está trabalhando, os colegas também, aliás disse que ia me atrasar comprando esses tais livros, que não chegaram, e não vou pagar mico pra eles, até porque não preciso! Desculpe, mas agora até quero que tu me multes, mas vou voltar dirigindo, confio no meu taco.
- Olha, eu não posso deixar o senhor fazer isso! E se causar algum acidente? Eu nem sei como conseguiu chegar aqui.
- Muito simples, eu arranco daqui, conto até 20, viro a esquina, conto até 40, viro à esquerda, pego a avenida, sigo reto... Eu tenho até um relógio do Sílvio Santos no porta-luvas, pra me dizer a hora! – ele sorriu com um certo desdém.
- Não, não, isso não vai dar certo. Eu chamo então um colega para te levar, é de graça...
- Vamos fazer assim, eu não vou fugir, tá? Eu vou te mostrar que eu tiro esse carro da vaga, aí tu vais ver que posso dirigir, certo? Senão a gente chama um táxi, tu me levas, ou qualquer coisa assim, viu?
Ela tenta esboçar uma reação, mas o homem entra no carro, tateando até acomodar a pasta no banco do passageiro. Então desce, falando alto para a fiscal ouvir – Olha só, que molezinha – tateia pela carroçaria do carro até a traseira e mede, com a bengala, a distância entre o pára-choques da picape e o carro atrás. Vai tateando até a dianteira e repete os gestos. Vira-se na direção genérica da moça de uniforme azul – Tu vais ver, eu sou "braço"!
Ele entra no carro e liga o motor; gira a direção para a direita e manobra delicadamente o veículo para frente; gira o volante, desta vez no sentido contrário, engatando marcha-à-ré. Coloca a bengala para fora e cutuca o meio fio; o carro está apontado para direita, num ângulo livre, pronto para adentrar a rua.
Viu só? – Ele desliga o motor e abre a janela corrediça do vidro de trás, quase colocando a cabeça para fora. O movimento de carros passando diminui, até que o semáforo na transversal fecha. A rua fica audivelmente deserta. Ele berra para fiscal:
Agora é só arrancar, tá liberado – depois, num tom mais baixo – Posso ir agora, concordas?
A fiscal balança a cabeça afirmativamente, incrédula. Como ele não se move, ela lembra da cegueira e diz um "tá bom, vai". A camioneta arranca, entra na rua e dobra a esquina, a carroçaria levemente inclinada para fora do ângulo da curva.
O bloco preto das multas agora pende ao longo do corpo dela, seguro pela mão esquerda, a caneta fechada em garra na direita, acompanhando a picape se deslocar, sumindo de vista na esquina. Espera ouvir o som de freios, buzina e metal contra metal, mas somente os ruídos normais de vozes nos prédios próximos e outros veículos passando na rua vêm aos ouvidos dela.
Recomeça a caminhada, ainda não acreditando no que vivenciara, pensando em como vai contar essa história para os colegas, ou se vai ficar quieta – Um cego dirigindo, Cristiane? Tá me tirando?
Ela pára e se volta para o lugar em que estava estacionada a camioneta do cego – Como ele soube que o alarme desligou, se só os faróis piscaram?
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