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Um
solteiro e duas garrafas de vinho tinto
Adolfo Gomes
Manhã fria, cama quente, sono pesado e o tocar constante de um
despertador rádio-relógio. Essa era a rotina dominical de
Dantas. Se a música que o acordasse fosse agradável lembrava
da última mulher que acalentou na semana, espreguiçando-se com
um sorriso satisfeito no rosto; caso contrário, acordava de
solavanco, com o intuito de desligar aquela música horrível e
começar logo o dia.Uma xícara de café bem quente com duas
pedras de açúcar mascavo eram o suficiente para finalizar o
seu despertar.Para completar sua rotina, escovava os dentes
sempre no tempo de uma única música; independente se fosse uma
longa ópera ou uma rápida propaganda. Tomava uma ducha morna e
finalmente chegava a parte de que mais gostava,a previsão do
seu dia:para isso,de dentro do box do chuveiro, ainda com a
água escorrendo pela nuca, fazia mira com sua extremidade
medial do corpo na patente que encontrava-se a uma respeitável
distância, respirava fundo e disparava um potente jato de
urina que tinha como único objetivo atingir o centro da
latrina. Se errasse, significava mau presságio. Depois de
jogar rapidamente detergente em boa parte do chão do banheiro,
foi encontrar-se com o amigo Rui num bar.
-Estou naquela fase de desespero; nem um cachorro abandonado
olha pra mim!
-Tens é que casar Rui! Meu avô já me dizia que uma aliança no
dedo tem dois poderes bem distintos: o primeiro é unir duas
almas de Deus; e o outro é mostrar o caminho da luz para as
mais endiabradas.
-Na verdade Dantas, estou pensando em abrir aquela garrafa de
vinho safra 1994...
-Vais terminar com a Karen, Rui? Uma amante de tanto tempo?
-É, meus dentes já não agüentam mais!Acho que está na hora de
providenciar uma dentista...mas e você? cuidando bem da sua
garrafa?
-E como. Está bem acondicionada em minha adega climatizada.A
única angústia é que desconheço o dia em que ela será
apresentada ao meu saca-rolha; sabe como é, quanto mais velho
o vinho, melhor.
-Tu não tens jeito mesmo Dantas...dez anos namorando a Matilde
e mais cinco de noivado!
Todos os amigos têm determinados hábitos, tradições ou
manias.Não fugindo à regra, Dantas e seus amigos tinham a sua:
No começo de um namoro,comprava-se uma garrafa de vinho, tinto
se fosse no inverno,branco se fosse no verão, e essa era
candidamente guardada em lugar seguro, somente podendo ser
aberta em duas ocasiões: Na primeira,se o namoro terminasse.
Nesse caso, o vinho seria consumido pelos membros do clã como
uma forma de culto.Festejos e línguas-de-sogra faziam parte,
caso fosse o amigo o responsável pelo rompimento; do
contrário, o vinho era consumido em silêncio e em grandes
goles, para o álcool e seu torpor amenizarem a angústia do
ente querido.
No segundo caso, quase que extraordinário, a garrafa era
somente aberta se o membro do grupo casasse. Assim, a
apreciação do vinho era inédita, onde cada nota e aroma
ganhavam um sentido todo especial, sendo o liquido sacro
sorvido com total emoção.
Os dois terminaram o último copo de chope e despediram-se. No
caminho de casa, Dantas foi imaginando como era apegado àquela
garrafa, e como seria o dia de abri-la.Chegando em casa,
dirigiu-se impulsivamente para a adega, pegando no fundo falso
a tão querida garrafa, mas assim que o fez, colocou-a de lado,
junto com salames e um pedaço de queijo. Lá no cantinho da
adega, empoeirada e com algumas teias, encontrava-se uma
diminuta e secreta garrafa de vinho, um pouco carcomida pelo
tempo, e talvez a culpada por ainda não ter se casado. Só de
olhá-la, sentia um calafrio pelo corpo. Aquela pequena garrafa
de vinho tinto licoroso representava sua única angústia
recolhida, seus maiores temores e dúvidas.No seu casco tinha
um nome de mulher escrito a batom, que o tempo fazia questão
de não apagar; e o mais engraçado era que Dantas, embora fosse
muito determinado, nunca teve o que fazer com essa questão:
Encontrara uma única vez a mulher no enterro do seu vizinho;
depois das lágrimas da dor, conhecera na mesma noite as
advindas da loucura da paixão, confabularam a mais forte das
cumplicidades, e na manhã seguinte simplesmente desapareceu.
Debaixo do travesseiro, restou apenas aquela garrafinha, com
um nome escrito: tua sempre Romilda.
O telefone toca intermitente, e depois da quinta batida Dantas
o atende.
-Oi Dan, é o Rui! Estou ligando só para avisar que o Paulino
abrirá uma garrafa de vinho branco!
-E quando ele comprou essa garrafa? Digo, quando conheceu a
moça?
-É esse o motivo da minha agitação! Ele a conheceu ontem!
-E já vai terminar?
-Não, a loucura é maior, vai casar!
-Meu Deus! Nos encontramos na casa dele em meia hora.
Cinco horas e meia depois Dantas retorna. Seus olhos exprimem
apenas o vazio de um diário pessoal que teve uma única página
preenchida, e seus lábios trazem o gosto amargo do vinho
branco que insiste em atormentá-lo, como se fosse um tipo
distinto de veneno, encontrado uma única vez na boca de uma
mulher. Sua mão trêmula e débil ainda tem forças para abrir a
adega e agarrar sua garrafa secreta, e a cada novo golpe da
boca investida ao encontro do gargalo, faz com que o veneno se
dissipe e a vida ganhe graça.
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