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Um milhão de dólares
Haroldo Azambuja
Gilbert Pellini, cabelos grisalhos, aparentava cinqüenta anos. Tive oportunidade de conhecê-lo no jogo de roleta do Cassino que freqüentávamos assiduamente nestes dois últimos anos. A propósito, eu me chamo Raymond Warren.
Talvez a nossa condição de estrangeiros, ele americano e eu inglês, residentes neste pequeno país, levasse a nos aproximarmos, mas não a ponto de uma maior intimidade .
Gilbert morava em uma pequena casa alugada em um bairro tranqüilo e eu em um pequeno hotel , bastante confortável e próximo do cassino, onde ele morara antes de alugar a casa. No hotel tive uma primeira informação sobre ele. Tratava-se de um matemático aposentado, cujos recursos lhe permitiriam viver tranqüilamente neste país.
Tendo alguma curiosidade sobre ele, consultei um Who’s Who de anos anteriores, tendo encontrado:
Gilbert Pellini – Matemático brilhante, que se notabilizou pela sua memória prodigiosa, tendo trabalhado no ”Massachussets Institute of Tecnology” (MIT) e posteriormente no Departamento de Informação do Exército Americano. Colaborou na solução do famoso Último Teorema de Fermat, participou do grupo de desenvolvimento da Ciência de Informação Quântica com a utilização dos bits quânticos, ou qubits ( em português pronunciamos quiubits). Estava se dedicando ao estudo da Teoria das Probabilidades, não clássica, que ele intitulava “Resultados de processos aleatórios, com prognósticos favoráveis de clusters numéricos escolhidos, dentro de um conjunto finito de números.” Sobre este trabalho não apresentou resultados.
Esta referência aguçou minha curiosidade, e passei a observar este meu novo “amigo”, principalmente quando em ação na roleta.A publicação de uma pequena notícia em jornal, da apresentação de possível solução do último Teorema de Fermat, permitiu perguntar-lhe sobre o mesmo. Sua resposta foi um lacônico comentário:
- Quando ainda trabalhava em matemática no MIT fiz pequenas contribuições para um colega que estava empenhado na demonstração do mesmo. Apesar da polpuda quantia, que foi instituída como prêmio, esta meta nunca me atraiu. Uma primeira conclusão a que cheguei, foi a de um jogador profissional, metódico capaz de interromper o jogo quando os resultados não lhe eram favoráveis. Jogava sem a ansiedade e o brilho no olhar , de um jogador compulsivo. Algumas vezes, não participava de uma ou mais rodadas, mas ficava atento aos resultados e a disposição das fichas na mesa. Numa dessas ocasiões, procurei testar sua memória referida como prodigiosa, perguntando-lhe:
- Saiu hoje o número 13, Gilbert?
- Desde que eu estou aqui, já saiu na 19ª e na 31ª . Na realidade Raymond, tenho que te confessar, não para me vangloriar, mas também não tenho por que esconder um dom natural e não explicável de possuir uma memória numérica e fotográfica. Na realidade além de todos os resultados numéricos, ainda guardo as cores e a disposição das diferentes fichas na mesa.
Nesta mesma ocasião, tive a impressão de ter ouvido dele, em voz baixa, como se estivesse falando consigo mesmo - “layout of clusters !”. Continuei acompanhando, seu desempenho, enquanto ambos jogávamos. Distribuía as fichas de forma ordenada, com decisão e calma, como se tivesse um esquema já pronto em cada rodada. No final de cada noitada, quase sempre apresentava um resultado a seu favor. A partir de uma determinada noite, sempre crescente. Era visível a preocupação da banca. Na quinta feira passada, estava eu já no cassino, quando entrou Gilbert. Nesta noite apresentava uma fisionomia ansiosa e um estranho brilho no olhar. Comprou fichas e dirigiu-se à roleta. A cada nova rodada, distribuía as fichas na mesa, de forma sistemática como se obedecesse a um desenho de agrupamentos das suas fichas vermelhas (Layout of clusters?) recebendo sempre uma quantia bem maior do que a apostada. Muitos jogadores pararam de jogar e tentavam imitá-lo, numa tarefa quase impossível, tal a decisão e rapidez com que fazia a distribuição das fichas, a poucos instantes do:
“Jogo feito Senhores”
Foi uma noite histórica. Depois de 23 rodadas a Banca deu o jogo por encerrado, declarando-se incapaz de honrar os pagamentos. O maior deles já importava em um milhão de dólares.
Gilbert, tranqüilamente, trocou as fichas por documento de crédito , a ser feito em sua conta bancária, e despediu-se de mim : - Adeus, caro Raymond !
Na Sexta Feira, quando abri o jornal, a manchete me deixou atônito.
O Americano Gilbert Pellini é encontrado morto
em sua residência. Suicídio ou assassinato?
Houve inquérito policial. Muitas pessoas, inclusive eu, prestaram depoimento. Com as minuciosas investigações que se seguiram nenhum indício foi encontrado que pudesse levar a hipótese de assassinato.
No seu escritório, da casa em que morava, destacavam-se: um computador de última geração, um número apreciável livros de matemática, um volume muito grande de papéis picotados na máquina e muitos CDs destruídos.
Numa folha de papel, caída no chão, estava rabiscado pelo próprio Gilbert
“Meta atingida !”
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