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Totem
de ipê-amarelo, pimenteira de abril
Christian
Simões
A porta estava aberta, ele entrou e viu a mulher sobre o
tapete. Viu a mulher sobre o tapete de couro cru. A porta
estava aberta como sempre e ele entrou e sentou no sofá.
Estava ajoelhada e perguntou se queria beber alguma coisa. Ele
bebeu e disse que as paredes estavam suadas de tanto calor.
Esse calor de março, ela disse, e ele sentou no sofá de
frente pra ela e perguntou sobre o incêndio. Ela perguntou se
queria água e se ajoelhou sobre o tapete. Flor de pimenteira,
tronco de ipê-roxo, ela disse, foi tudo que sobrou. Ele pegou
o copo e bebeu de cacto. Ela tocou no couro suarento do sofá
e disse que tudo na vida tem semente. Eu não tenho pressa,
planta de novo, cresce e dá. Ele levantou e sentiu a bexiga
arder quando entrou no banheiro. Ela levantou e foi apagar o
fogão. Tronco de laranjeira, ele disse. Ela trouxe a água e
ele disse que um calor insuportável em março. A porta estava
aberta e ele entrou como sempre pela mesma porta. Viu a mulher
sem roupa sobre o tapete e o cacto de couro cru. Estava
ajoelhada e perguntou se queria beber alguma coisa. Disse que
sim e foi ao banheiro.
Ele sentou de frente para ela e disse que sim. Sobrou a
laranjeira, ele disse. Ela foi à cozinha e despejou a pimenta
no óleo quente. Trouxe o guaraná, ele bebeu com garganta de
couro cru. Forte, ela disse, e apontou o tronco entornado no
corredor. Ele sentiu a falta da macieira pela casa mas não
disse nada. Então ela se virou no tapete e ele viu. Estava
ajoelhada e disse que tudo na vida tinha uma flor, e se
ajoelhou de pimenta sobre ele. Tocou no sofá e sentiu a
bexiga arder quando cresceu. Tirou a roupa de espinho e sentou
no tapete de couro cru. O óleo espalhou pela sala o tumor de
uva crescida. Ela deu e gozou na parede um calor de semana. A
parede suou e o sangue escorreu em couro cru. A urina escorreu
e ele gozou de novo. Então ela se levantou e ele foi apagar o
fogão. Bebeu uma semana de água e viu as paredes suarentas
da laranja sobre a pia. O incêndio, ele quis saber, ela
aninhou no seu canto e disse que o amor. Então como sempre:
perguntou se queria beijar, se queria comer, se queria beber
alguma coisa. Tudo na vida tem um grão, ele: eu também o
amor. Tudo na vida não tem pressa. Levantou e foi ao
banheiro. Não viu o cacto, voltou e perguntou sobre ele. A
porta estava aberta, voltou e viu a mulher no tapete. Quase
nada, ela, quase nada, e tirou a roupa de couro frio.
Ajoelhada, sugeriu begônias pra começar.
Esperar a primavera. Ela sugeriu begônias. Ele sugeriu que
esperasse a primavera. Ela girou o botão e ele arriscou o
dedo no ferro quente. Ele viu a roupa da mulher sobre o tapete
e suou de óleo. Ela disse que tudo que é cinza, que tudo que
sangra é o que se ama. Ele disse que muito, que tudo o que se
perde é o que se dá. Deitada de couro vivo não resistiu. Se
ajoelhou e se debruçou sobre ela. Ela se abriu de novo, ele
entornou a pele em macieira dura. Ela deitou no sofá e ele
sentiu a bexiga cortar até o conforto, sangrar em flor e
arame. Totem de ipê-amarelo, ela disse, pimenteira de abril.
Deram de amor a noite toda. A porta estava aberta e ele foi
embora. Acendeu o fogão. A porta estava aberta e ele entrou e
viu a mulher sobre o tapete. Viu a mulher sobre o tapete de
couro cru. A porta estava aberta como sempre e ele entrou e
sentou no sofá. Esse calor insuportável de março.
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