A Semana, Gênesis 1

Aline Isaia Splettstösser

Cheiro de queimado vindo do fogão. Não há tempo para se chorar o leite derramado, mas a culpa pelo descuido vem da Mãe que contorce o pano encharcado do líquido precioso. 5:15 da manhã, segunda-feira. Corre a improvisar um mingau. Farinha e água. O princípio é a fome.
Segunda-feira é um dia que nasce condenado pelo assassinato do final de semana. É o dia dos deslizes, das lamentações, do corpo arrastando-se obediente à rotina. Ônibus, cartão-ponto, discussão no refeitório. Sempre os mesmos assuntos. Não me espanta que, na prática, Ela abominasse os intervalos. Tempo não era dinheiro, era oportunidade. Se a sirene soasse em horários alternados, a briga para a condução talvez fosse menos desumana.
Quem sabe não conseguisse um banco para sentar-se? Um banco e uma janela, como antídoto para escapar do baile involuntário das bundas e bolsas no corredor.
Maldita chuva. Não perdoou as roupas estendidas no varal. O cansaço não a impede de detectar tosses e olhos vermelhos. ‘Meninos, vocês brincaram na chuva outra vez?” Seguia-se a mão nas testas na tentativa de identificar com precisão a febre. A mão materna que dispensa termômetros. A mão que necessita, heroicamente, substituir os remédios caros, há muito privados daquele cenário. Os meninos são três: seis, sete e nove anos. Deus sabe o quanto lhe dói deixá-los sozinhos.
Na terça-feira, entre as panelas, Ela chama os filhos com a mesma recomendação. “Já sabemos”, diz o mais velho, “distribuir nos pratinhos e dividir para o almoço e a janta”. Terça-feira era dia de noite extra. Ao bater o cartão às 18:00 horas, a Mãe corria para a casa de Dona Aurora.
Disposta a cumprir o seu compromisso de passadeira, ia até a meia-noite achatando lençóis, engomando colarinhos e contornando curvas de vestidos finos. A dona, generosa, permitia que a mãe dormisse por lá. E, mais do que pagar bem pelo serviço, havia uma dívida moral que acompanhava o fardo repetitivo. Aurora tinha sido a responsável pela doação das telhas que cobriram o barraco após o último vendaval. Não tarda a retornar o frio.
A mesma determinação subserviente desperta na quarta-feira. O ritmo e o destino compassados confirmam o milagre da analfabeta ganhando dois salários mínimos em tempos de crise. Fé, companheira silenciosa da sina. A cada turno, Ela alterna à manipulação dos teares o sinal da cruz. “É para garantir, melhor prevenir do que remediar”. O corpo sonolento foge por instantes da rotina, traçando um caminho de sonhos nas cores dos fios de algodão. Não são projeções do futuro – incerto e traiçoeiro - são previsões baseadas na esperança.
O perigo se faz presente. Tivesse pego o ônibus um minuto mais tarde e não entraria em casa no retorno da quarta-feira. Dia institucionalizado do toque de recolher. Há de se aprender a disciplinar-se diante de uma comunidade com regras bem estabelecidas. Expor as estratégias da batalha para direcionar seus três soldados diante das brechas tênues do sistema. Naquela noite, os pequenos contam à Mãe sobre a invasão da polícia e do juizado de menores na escola. Da constatação do tráfico, dos amigos empurrados à suspeita, e da dor da separação. À Mãe, faltavam argumentos. A ignorância nos verbos, entretanto, contrastava com a sabedoria dos gestos. Dormiram sufocados num abraço seguro sobre o leito do amor sacrificado. Era Sua arma secreta para mantê-los próximos do sonho colorido dos teares.
Às 6:00 horas de quinta-feira, o rádio já cuspia as baixas da noite passada.
Ela aproveitou a companhia das ondas sonoras para terminar de assar os pães que costumava vender na porta da fábrica. Desde que o marido a abandonara não houvera tempo para o choro. Ora, se Ela ia dar-se ao desfrute de gemer pela dor: agia desafiando a realidade despida e mal-passada. Os olhos demoraram-se alguns segundos a mais na despedida pelos filhos. O ônibus de quinta-feira exalava solidão. Há rumores de que neste ano não sairá o 13º. É isto, ou demissões. E, se é isto, é greve. Mas, o medo comprometido a acompanhava. E se o milagre estivesse perto de desmoronar?
O sono ralo e as mãos trêmulas já faziam parte da tábua das marés. A demissão, no entanto, incentivaria a chegada de ondas gigantescas. Mas, para quem vive em estado de calamidade, não me espanta que Ela enfrentasse com clareza um maremoto. Seria apenas mais uma tarefa da gincana imprópria da vida. Havia atitudes gratuitas, entretanto, difíceis de serem compreendidas.
Perder o emprego sem razões disciplinares ou de pura incompetência soava inexplicável. Mudar o rumo pelo que os colegas do sindicato chamavam de “conjuntura econômica” era como ter de compreender um filme de ficção científica.
A economia por Ela reconhecida era aquela que se sentava, cômoda e irônica, no fundo dos potes de arroz e feijão. Perto do final do mês, então, ela gargalhava emitindo sons para que os grãos dançassem livres nas panelas.
Sorte ser sexta-feira, dia de ressuscitar a sopa das sobras. E respirar um pouco mais fundo, e permitir-se desacelerar o passo. Como se o organismo fosse se preparando para o inesperado.
Há tanto tempo não fazia um programa diferente! Não era falta de convite do mais velho, jogador oficial do time de futebol do ginásio do bairro. Sempre havia um torneio por perto. Assim como o preconceito, insistindo em ultrapassar os becos da estupidez. As lembranças dos rumores da arquibancada do último jogo ainda zuniam em seus ouvidos: “Tinha de ser preto para perder um gol daqueles”. E era o seu preto, dedicado nos treinos, vibrante com as últimas conquistas. Tropeçando como qualquer outra criança que cai como trunfo de aprendizado. Cai para esfolar os joelhos, educar o corpo a curvar-se, resistir ao tombo como passagem. Cai para levantar-se de cabeça erguida. Mas, afinal, os craques dos nossos campos não eram, em sua grande maioria, negros? Quem determina em que degrau da escada os tons das raças começam a fundir-se?
Antes da sirene tocar, o aviso: sábado haverá trabalho. Veio o ônibus, o cartão-ponto, as caras amarradas contrastando com os trançados da produtividade. Mas, sábado, a jornada era mais curta. Agradeciam os móveis empoeirados da casa, os armários dos meninos que, mesmo com poucas roupas e quase nenhum brinquedo, apelavam em prol de organização.
E, por fim, veio o domingo, o Dia do Senhor. Ele, que fez surgir das trevas à luz e, em seguida, o céu e a terra. Que, no terceiro dia, disseminou sementes, e no quarto, trouxe as estrelas. Que fez surgir os animais na quinta passagem e, na sexta, criou o homem. No sétimo dia, exausto, o Senhor permitiu-se ao descanso.
Ela, que era sua imagem e semelhança, acordou religiosamente às 5:00 da manhã. Foi lavar as toalhas, passar pano no chão irregular, varrer o quintal, limpar o banheiro. Verificar os mantimentos da cozinha e, incapaz de decifrar qualquer operação matemática , multiplicou-os reprogramando o cardápio viável da semana. Orou estendendo ao varal seus braços fortes, ajoelhou-se para adorar as suas três criaturas e deu graças por sua capacidade nata de cumprir a jornada tripla, desafiando Deus com o suor de seu trabalho.