O segundo retorno

Doralina Tomazzoni

Tomou aquele caminho para evitar o encontro com pessoas conhecidas, mas a subida lhe pareceu tão íngreme e extensa como se a desconhecesse. Há quanto tempo não passava por ali? Um ano e meio, talvez dois, nem era muito. Algo sufocava dentro do peito, ardia, impedindo-o de impulsionar o movimento das pernas. Na maleta pendurada no ombro, a camisa e a calça que trocara antes de chegar em casa. Verificou o solado das botas, limpo. A adaga, na cintura, sempre o acompanhou. Ergueu o chapéu de feltro para aliviar a cabeça que o pressionava ao chão. De onde vinha o peso que atrapalhava suas passadas? Será que havia envelhecido de repente? Esfregou os olhos com as pontas dos dedos, o reflexo do sol nos pedregulhos embaralhava a visão.Tinha urgência em subir a ladeira. Queria sair dali sem ser visto. Ficaria como um fantasma, apareceu e desapareceu, ninguém viu, ninguém ouviu.
Sentiu sede. Água só depois da coxilha, quando chegasse na sanga. Perguntou-se: Em que diacho de batalha estava, afinal? Partilhou lutas de carne e sangue, bastava alguém ver seu peito nu, as cicatrizes serviriam de prova. Ele próprio, nos movimentos da caminhada, sentia o repuxo da pele, que não o deixava esquecer os sofrimentos. E a mulher que lhe servira de enfermeira, como estaria? Todos os dias ela ia ao rancho abandonado para trocar os panos das feridas, colocar os emplastros. Sempre calada, séria, entrava e saía sem fazer ruídos. Havia também o velho que lhe fazia os mingaus. A recuperação foi difícil, o estômago se negava a aceitar qualquer alimento, devolvia até a água. Era o efeito da febre, dizia o velho. E precisou de tempo para ficar em seu estado normal. Maldita guerra! - resmungou. Se não demorasse tanto a voltar, as coisas poderiam ter sido diferentes. 
O silêncio da tarde se quebrou com os latidos de um cão, perseguindo uma lebre. O animal acossado atravessou o caminho rente aos pés do homem. O cachorro, cego pelo faro, também passou de raspão. Outra lembrança: as caçadas de domingo, a penca de lebres às costas. O cunhado reclamava: "O que me adianta ter bons lebreiros se a minha pontaria é péssima!" Dentro de poucas horas, todos estariam em casa, reunidos com a família. E ele com boa pontaria e sem rumo.
As conjeturas mexeram com seu ânimo, acelerou o passo e olhou para cima. O céu era de um azul límpido. As nuvens que ameaçavam tempestade na vinda tinham desaparecido. O sol, ainda refestelado, corria para se esconder no horizonte. E aproveitava os últimos momentos para abrasar os enfraquecidos. Outro corpo nem sentiria tanto calor, mas o dele queimava por dentro. Tirou o chapéu, passou a mão nos cabelos encharcados de suor. A testa escaldava-lhe os dedos. Talvez a água aliviasse um pouco o queimor do peito e da cabeça. Assim que descambasse a coxilha, poderia andar depressa, logo, logo estaria lá embaixo. Depois de saciar a sede, era chegar à estrada grande. A sombra da noite e o chão liso deixariam seus passos mais leves. 
Na sanga, abaixou-se para beber água, lavar o rosto e os braços. Bem que seria bom molhar as pernas, mas as botas se negariam a calçar os pés úmidos. Melhor deixar assim. Enquanto se molhava, lembrou da castelhana. Ela havia insistido para que ficasse, tomasse conta da bodega. Não. Ele precisava retornar, tinha mulher e duas filhas que o esperavam. Será que a castelhana estava adivinhando o que tinha acontecido? Por que não o avisou? Diabólicas! Mulheres diabólicas! - praguejou. A brasileira pelo que fez e a castelhana por ter omitido o que previu. De novo a lembrança do neném chorando. "Ué, é da mamãe!" - dissera uma das meninas, com naturalidade. Por que Amália fez aquilo? Por quê? Alguém teria dito que ele morrera? Talvez estivesse morto mesmo, quem ousaria duvidar? Na ruminação desses pensamentos, embaralhava a água com as mãos, provocando um barulho estridente.
Num impulso, parou de remexer a água e ouviu barulho de trote e vozes. Ergueu-se ligeiro e, por cima da capoeira, enxergou vultos se aproximando. Pegou a maleta, correu para os juncos, agachou-se e ali ficou, escondido. Dois cavaleiros pararam na sanga e, enquanto os cavalos tomavam água, eles continuaram a conversa. Um falou: "Agora não posso ficar muito tempo nas vendas, tenho mais encargos. A Amália com neném me ajuda pouco." O outro comentou: "É que tu já tá com uma família grande, não é?" "É verdade. Mas as duas meninas até dão uma mãozinha nos cuidados com o pequeno. E, digo no bom sentido, a Amália é uma mula pra todo serviço. É só mais uns meses e ela tá na lida de novo." 
Então era ele. Reconheceu-lhe a voz. Agora sabia quem tomara seu lugar. Esperou que se fossem até não ouvir mais suas vozes nem o trotear dos cavalos e se levantou para voltar ao passo. O suor recomeçou a escorrer de sua testa quente. A ardência no peito voltou com força. Na esperança de alívio, retirou da garganta um pigarro teimoso. Mas a voz do cavaleiro ressoava em seus ouvidos: "... a Amália é uma mula pra todo serviço." E como ele haveria de esquecer os anos de prazer que Amália lhe proporcionou? Que mulher! De dia ela fazia o serviço da casa, cuidava das crianças, ajudava nas roças. De noite, tomava as rédeas da cama. Que noites! Nenhuma antes nem depois dela, deu-lhe tanta satisfação.
Tinha que reconhecer, também era culpado. Quis mostrar que era homem, macho. Poderia ter ficado em seu canto, mas foi se apresentar aos recrutadores. Tentou desviar os pensamentos, olhou de novo para o alto, o céu continuava azul. O sol começava a descer, resvalava às disparadas. Ele precisava sair dali, deixar a estradinha irregular antes de escurecer. 
O homem mergulhou o rosto na água e bebeu mais um pouco. Sacudiu a cabeça, ajeitou os cabelos com os dedos e colocou o chapéu. Mais aliviado, respirou fundo, pegou a maleta e retomou o caminho. Uma pomba arrulhava no mato costeiro. Era um lamento contínuo, deveria estar chamando a companheira. E a noite estava próxima, assim como a estrada que o levaria para longe.