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O
centenário
Idalia Martins
Escuta, minha guria, hoje não dá. Não tô pra festa, pô! Será
que dá pra entender? Falei entre dentes, tentando evitar que a
dor que me arrebentava a cabeça aumentasse.
A mulher já havia desaparecido em direção à cozinha,
reclamando da incompreensão dos homens. Na televisão, os
comentaristas esportivos davam as notícias da última rodada do
campeonato nacional de futebol. Peguei o controle-remoto com
raiva e fiquei apertando as teclas em busca de um canal que
não falasse do maldito esporte bretão.
A chata da mulher gritou da cozinha: isso, quebra, estraga de
vez o controle e depois põe a culpa nas crianças. E no mesmo
tom estridente continuou: Olha, Roberto, eu não fui pra praia
com a mãe e as crianças porque tu me prometeste que depois do
futebol nós íamos dançar no “Se acaso ...”.
Que merda! Ela não desistia. Pior, era incapaz de entender
quando um homem está com os cornos virados. Olha que eu sou um
sujeito compreensivo. Quando ela está “naqueles dias”, antes e
durante o “bode”, eu procuro ficar o maior tempo fora de casa
que é pra evitar bate-boca. Elogio vestido novo, cabelo
pintado, mesmo que ela pareça a Esther Grossi em época de
campanha eleitoral. Não é que eu não goste de dançar. Mas logo
hoje? Eu sei que eu prometi. A sogra levou as crianças pra dar
um alívio, pra gente poder namorar... essas coisas que quando
as crianças estão por perto ficam complicadas.
Robertoooooooo! Lá está ela gritando no banheiro: Pega a touca
de banho que eu deixei em cima da penteadeira. Levantei da
poltrona bem devagarzinho, evitando sacudir a cabeça pra não
explodir. Não vi a touca no meio da parafernália de cremes,
perfumes e pinturas que estavam espalhados na penteadeira. O
que me chamou a atenção foi um vestido encarnado brilhante
estendido sobre a cama. O sangue me subiu à cabeça. O pano
vermelho foi crescendo na frente dos meus olhos até se tornar
uma grande mancha de sangue que turvava a minha vista. Tateei
sobre a cama e senti a maciez do cetim nas minhas mãos cheias
de calo de tanto trabalhar praquela debochada. Me arrastar pra
festear num dia como este, eu até agüento, mas se fresquear
toda com um vestido dessa cor, é muito desaforo.
Betooooooooo, Betiiiiinho, anda logo que é pra não estragar o
cabelo! A safada continuava aos berros. Amassei a merda do
vestido até sentir as pedrinhas de enfeite beliscando a palma
da minha mão. Antes de chegar na porta do banheiro a dor de
cabeça já tinha passado e o vestido estava em tiras. Empurrei
a porta, joguei os trapos na cabeça dela e me mandei. Peguei
uns trecos no quarto, atirei pra dentro duma mochila e ganhei
a rua.
No outro dia acordei com uma ressaca do cão na casa do
Ernesto. O Ernesto é meu chapa, é amigo de fé e compartilhava
a minha tristeza. Tinha passado a noite comigo bebendo o
morto. Sim, porque aquilo era um velório.
Em pé do lado do sofá da sala, o Ernesto pedia: Volta pra
casa, Roberto, a tua mulher está aflita. Ela passou a noite
ligando pra todo mundo, até pro hospital, necrotério, polícia,
tudo. Quando falou comigo estava rouca de tanto chorar e o
pior é que ela nem sabe o que deu em ti.
Como não sabe? Ela é surda é? É cega? É burra? Por acaso ela
mora em outro planeta? Vive em outra dimensão? Ela não ouviu o
que disse aquele matemático, o Osvaldo? Pois é, ele disse que
o time só tem 0,1 por cento de chance de não cair pra segunda
divisão e logo agora, no ano do centenário. É centenário, pô!
Tá, Roberto, disse o Ernesto, apaziguador, mas a patroa não
tem culpa. A culpa é dos jogadores, dos cartolas, sei lá de
quem mais, mas com certeza não é da tua mulher,
Como não é da minha mulher? Ela pode não ter culpa do time
estar na M mas tem culpa de não respeitar o meu sofrimento. Eu
estou arrasado, o Grêmio deu com os burros n’água e no dia em
que ele está com os dois pés na segunda divisão, ela vai e
compra um vestido encarnado pra ir dançar comigo no “Se acaso
você chegasse.” Isso é desaforo dos grandes.
Até o velho Lupi, que era gremista, deve ter dado cem voltas
no túmulo. E mais, ela fez isso no dia em que o Colorado, com
o time reserva, ganha do São Caetano no final do segundo
tempo.
Olha, Ernesto, eu te agradeço a pousada e o conselho, mas
homem tem que ter dignidade. Se ela tivesse me botado umas
guampas eu até podia perdoar, mas isso não. Não no centenário.
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