O boto cor-de-rosa
Idalia Martins

A pequena embarcação singrava rapidamente o Rio Negro, em direção à foz. Alguns passageiros, que iam para portos mais distantes, tinham armado suas redes e assegurado o lugar para passar a noite. Homens, mulheres e crianças dividiam espaço no convés com galinhas e porcos engaiolados, cestos de peixe, paneiros de farinha, cachos de banana e um outro tanto de frutas das mais variadas espécies. Do seu canto na proa, sentada na mala de madeira revestida de couro, Mariinha acompanhava o movimento no interior do barco. Pensou em também pendurar sua rede, pois ainda havia lugar, mas achou que não valia o trabalho. Em oito ou nove horas chegaria ao seu destino, lá pelo meio da tarde. Não tinha sono, embora tivesse acordado às quatro da madrugada para pegar o barco das seis. Estava acostumada a acordar cedo e a deitar com as galinhas. Sentia também um pouco de enjôo pelo movimento do barco e pelo cheiro forte de peixe que exalava de uma caixa nas proximidades. Não, não lhe apetecia o balanço da rede. Recostou-se então, na parede, usando a rede como almofada.

Mariinha acordou sobressaltada de um breve cochilo. O barco sacudia fortemente. A moça olhou por cima da amurada e percebeu que estavam perto do encontro das águas, local onde o Rio Negro e o Amazonas se encontram. Já passara por ali muitas vezes mas esse era um fenômeno que sempre a emocionava. Correu para a amurada onde se debruçou. Respingos d’água batiam-lhe no rosto. Respirou fundo como se sorvesse a vida e desfrutou do espetáculo De um lado as águas cor de âmbar do Rio Negro, atirando-se, intrépido, sobre o Amazonas, de outro, as águas barrentas oferecendo resistência à invasão. Lembrou-se da Dona Gracinha, sua professora na Missão, que tinha uma teoria própria quanto à cor escura daquele afluente do Amazonas. Dizia ela que era em virtude das jazidas de manganês nas margens e no fundo do rio. Os americanos da Missão falavam que aquilo era lenda mas andavam sempre a cavar buracos nos igarapés, sem revelar o motivo.

Indiferente aos botos que acompanhavam, a certa distância, o navio e, que faziam a alegria da garotada com suas cabriolas, Mariinha voltou ao seu lugar na proa, cerrou os olhos e ficou a pensar na vida:

Era só no mundo. A mãe, descendente dos índios do Alto Rio Negro, morrera quando tinha três anos. Do pai, sabia apenas que era um homem branco, um estrangeiro que vivia à cata de ouro e que, mal a criança nascera, fora para Serra Pelada. Corria a notícia de que tinha morrido em uma briga. Sem parentes próximos, fora recolhida por missionários americanos que a levaram para uma Missão Protestante, nos arredores de Pindorama, uma vila distante alguns quilômetros de Parintins. A infância tinha sido boa, brincava com as outras crianças e era tratada carinhosamente pelos missionários, entretanto, sabia que não se incluía em nenhum dos grupos. Os americanos a consideravam como índia e para os índios e caboclos era branca. Na escola, as crianças costumavam dar apelido a todas as pessoas. Ao pastor chamavam de Pirarucu por causa da semelhança com o maior peixe da Amazônia, grande e vermelho. Por causa dos cabelos muito louros da Miss Alexander, a enfermeira, a batizaram de Cabelo de Milho. Mr. Taylor era tão vermelho quanto o pastor mas era magro e tinha no meio da testa um grande sinal cinzento, meio arredondado, e recebera das crianças a alcunha de Cocô de Urubu. Mariinha, embora tivesse os cabelos escuros, cor de piaçava e quase da mesma textura daquele cipó, tinha a pele muito clara, o que lhe valeu, desde pequena, o apelido de Macaxeira Descascada. Mas não reclamava da sorte, sabia que para uma órfã nascida na beira de um barranco do Rio Negro, até que era afortunada. Estudara só até a oitava série mas fora nomeada professora estadual. Difícil acesso foi a justificativa. E era mesmo. A escola ficava longe, o que obrigou a moça a se mudar para um lugar mais próximo, de onde, ainda, tinha que ir remando até o outro lado do rio, uns duzentos metros acima.

O barco seguia agora com maior estabilidade, já havia deixado para trás o encontro das águas e a zona de turbulência. Tinha feito uma parada em Itacoatiara onde a maior parte dos passageiros desceu e, felizmente para a professorinha, entre eles, o proprietário da caixa de peixes. As pessoas que embarcaram nessa cidade traziam apenas bagagem pessoal e algum ou outro artesanato.

Passado o mal-estar, Mariinha sentiu fome. Lembrou-se que na sacola, em que trouxera a rede, havia uma marmita de alumínio com a merenda. Puxou a sacola e dela retirou uma pequena trouxa. Desmanchou o nó formado pelas pontas do pano que prendiam a tampa da marmita. Na vasilha, em pedaços de folha de bananeira, vinham delicados beijus de tapioca embebidos em leite de coco e cobertos por coco fresco, ralado. Com cuidado, a moça separou um dos beijus e o enrolou na folha de bananeira como se fosse um guardanapo e, lentamente, saboreou cada bocado daquela iguaria. Gentileza da cozinheira da pensão dos missionários, em Manaus. Depois pegou uma garrafa térmica e usando a tampa como copo, serviu-se do guaraná que ela própria ali colocara para que se mantivesse gelado. Nesse momento sorriu ao lembrar-se da Dona Ticuna, em cuja casa morava, em Flechais. Ela com certeza diria: - Pra que isso? O pote de barro não tem serventia? A garrafa, adquirida na capital, seria novidade naquele pedaço de selva

A Ticuna não aprovara a viagem.. – Pra que médico? Dizia enrolando o cabelo no dedo e ajeitando na cabeça. E logo em Manaus que é tão longe! Olha que o pai se zanga e vira o barco, dizia entre ameaçadora e apreensiva. Dona Ticuna se referia ao Boto. Estava absolutamente certa de que a sua hóspede trazia na barriga um filhote do “encantado”. Desde criança Mariinha ouvia falar nessa lenda e sabia de moças solteiras que engravidavam e juravam diante da cruz que o pai era o Boto.

Naquela manhã, Mariinha acordara cedo, como de costume, pegou a cuia, o sabonete e a toalha de algodão grosso e se dirigiu para o rio. Entrou no cubículo sobre o trapiche .. Não gostava de tomar banho no rio como as outras caboclas. A roupa molhada, colada ao corpo a constrangia. Preferia ali, no banheiro, sobre as águas. No assoalho havia um buraco de tamanho suficiente para passar a cuia com a qual a água era recolhida. A jovem tomou seu banho, lavou os cabelos e se enxugou com alguma displicência. Gostava de sentir a umidade na pele. Ao sair do banheiro deu de cara com o Acari, o neto da Ticuna que tinha esse apelido por ter a aparência do peixe com o mesmo nome, escuro e de boca rasgada. Acari, um caboclo forte, baixo e atarracado, era prestativo mas a moça ficava agoniada quando ele andava por perto com aqueles olhos pequenos e oblíquos, parecendo onça que espreita a presa.

-Licença, menina! Mariinha arredou do seu canto para deixar passar uma mulher ainda jovem com uma criança pela mão. Reparou que a intrusa deveria estar grávida de uns cinco meses. Dois mais do que ela. Ao pensar nisso, estremeceu. Já agora tinha a certeza. O médico, em Manaus, confirmara a gravidez. A danada da Ticuna estava certa. Pelo menos quando dizia que ela estava embuchada. Quanto ao pai… nem a própria Mariinha sabia.

Todos os anos havia uma festa em Pindorama, perto da Missão. O povo todo participava de um grande arraial com muita comida, pescarias, jogos e até um baile. A renda reverteria para as obras sociais do padre católico e para a enfermaria da Missão, que era a única coisa parecida com hospital nas imediações. Mariinha estava excitada com a festa, afinal não havia muitas oportunidades para uma moça se divertir naqueles confins de mato. No Natal ganhara um vestido vermelho da Miss Alexander com um gorro de Papai Noel. Pensava em usar esse vestido, sem o gorro, naturalmente.

Depois que saiu do banho passou por Acari em direção à casa . Na grande cozinha que ocupava a metade da habitação, estava a velha Ticuna. “E aí, Dona Ticuna!. Está fazendo licor de genipapo?” Indagou a moça. - “Que genipapo que nada, menina. O único jenipapo que eu achei hoje foi a minha cara no espelho.” Disse a velha rindo, mostrando as gengivas sem dentes. Mariinha também riu e não podia deixar de concordar. Realmente, o rosto da Ticuna, moreno e encarquilhado parecia um grande, redondo e maduro genipapo . Ainda perguntou: -“Não vai se arrumar pra festa, Dona Ticuna?” -“Vou não, bichinho. Tô velha . Isso é coisa pra gente nova.” Respondeu a senhora e acrescentou: “ O Acari não gosta de festa, é ‘bicho do mato’, mas eu mando ele te levar.”- “Precisa não, Dona Ticuna. Eu vou remando, estou acostumada.” Redargüiu Mariinha. -“Mas a festa termina de noite, menina. Como é que você vai voltar sozinha por esse rio no meio da escuridão ? Num tem medo de bicho, de visagem?” – “Tenho não, Dona Ticuna. Eu levo a minha lanterna que é pra ver o caminho e cegar jacaré. Tem perigo não.” – “Você que sabe…” Disse a velha, meneando a cabeça.

Mariinha entrou no quarto onde dormia, pegou o vestido vermelho e foi botar no varal para arejar. Dona Ticuna, quando viu aquilo, veio lá de dentro toda nervosa, exclamando:- “Menina, você não tá pretendendo ir com esse vestido encarnado pra festa. Tá? Isso é provocação pros encantados. Como é que você vai rio acima com esse vestido? Não provoca o Boto!...” A jovem saiu rindo das crendices da índia velha. Pouco depois foi se arrumar. Prendeu o cabelo, botou o vestido, passou batom nos lábios, água de cheiro nas orelhas, pegou as sandálias brancas e as levou penduradas nos dedos, junto com uma bolsinha . Só ia calçar os sapatos quando chegasse ao seu destino que era pra não embarrar. Dona Ticuna veio correndo com umas pupunhas cozidas para a festa e mais uma vez recomendou que não dançasse com moço de chapéu. Moço de chapéu, na certa, seria o Boto tentando esconder a marca do esguicho na testa.

O sol das três da tarde começou a bater no lugar onde Mariinha se acomodara. A mulher ao lado tentava puxar conversa mas, alegando que o sol estava queimando a sua pele, a moça pediu licença e foi para o outro lado da embarcação. Não faltava muito para chegar na cidade onde pegaria um outro barco que a levaria a Flechais. Conseguiu sentar em uma das poucas cadeiras que existiam no convés, reclinou o encosto e fez que dormia. As emoções dos últimos dias em Manaus a deixavam agitada.

-“Quando as regras vieram pela última vez?” Perguntou o médico. – “Mais de três meses.” Ela respondeu. - “Tomava algum anticoncepcional?”- “Nunca tomei.”O médico, depois de mandá-la descer da mesa de exames, sentenciou: - “Não há dúvida. Está de fato grávida.”- “Mas, doutor, eu nunca deitei com homem.” Disse Mariinha num fio de voz. – “Que história é essa menina? Não vai me dizer que foi o Boto?” E o médico deu uma gargalhada. Mariinha também riu, apesar do nervosismo. – “Pois a Dona Ticuna diz que foi. Mas não vá pensar que eu acredito nessas leseiras. Eu não sei quem foi mas acho que sei quando foi. Vou contar a história, doutor, se o senhor tem tempo pra me ouvir.” O médico assentiu com a cabeça. E Mariinha iniciou sua história.

“Eu moro no interior, no meio da mata. Um dia fui à uma festa em Pindorama, um vilarejo próximo à Missão Protestante onde fui criada. Fui sozinha porque não tinha ninguém para ir comigo. Sou só no mundo, mesmo. Peguei a minha canoa, fui remando. Chegando em Pindorama, atraquei em um igarapé perto de onde estava armado o arraial. Puxei a canoa para fora da água e amarrei numa árvore, que era para ela não ser arrastada se subisse a maré. Peguei as coisas que trouxera e segui por uma picada no mato. Quando cheguei ao local vi que já tinha muita gente. Conhecia quase todos. E os que eu não conhecia eram parentes dos conhecidos. Não tinha sequer quem usasse chapéu, que era o medo da Dona Ticuna.” A moça falou rindo “Brinquei como todo mundo brincou e no final da tarde começou a dança. Eu nem queria dançar. Sentia o corpo um pouco quente, até pensei que ia ficar constipada. Mas aí, o Cocô de Urubu… Ah!, desculpe, doutor. Cocô de Urubu é como o povo chama, por apelido, o Mr. Taylor, um americano lá da Missão, pesquisador de ervas medicinais. É por causa do sinal que ele tem na testa que até parece a obra do urubu. Pois como eu estava dizendo, o Mr. Taylor veio me tirar na hora da quadrilha. Eu não podia fazer desfeita. Ele é sempre muito atencioso comigo. E foi só com quem dancei. Logo depois da quadrilha, a festa não tinha terminado, ainda, eu peguei minhas coisas e fui em busca da canoa que eu tinha deixado no igarapé. Tomei o rumo da picada. Devia ser umas seis e meia da tarde, mas ali no meio das árvores já estava escuro. Acendi a minha lanterna e alumiei o caminho. Tinha nada para me botar medo, mas eu ia vexada, parecia que ali no meio do mato tinha um milhão de olhos me olhando. Um bicho que nem cheguei a ver direito passou raspando no meu rosto. Apressei o passo. Estava louca pra pegar a canoa e entrar em rio aberto. Esse sentimento ruim devia ser da escuridão na mata. Quando cheguei no igarapé me senti aliviada. A canoa estava no mesmo lugar e a água não tinha subido até ela. Tive que arrastar aquela piroga até a água. Aí me dei conta que ela estava amarrada na árvore. Voltei lá pra desamarrar. Quando me abaixei para desatar o nó, senti uma dor na cabeça e ficou tudo escuro. Quando acordei não sabia quanto tempo tinha se passado nem o que tinha sucedido. Era noite alta mas havia luar. Tentei levantar, senti o corpo doído e a parte de trás da cabeça latejando. Os mosquitos me infernizavam. Levei a mão à nuca e percebi que sangrava. Talvez um pedaço de árvore tivesse caído na minha cabeça, ou um coco, quem sabe…. Ao me mexer percebi a umidade nas minhas pernas. Pensei que tinha me urinado, de dor ou de susto. Com dificuldade e com o auxílio da lanterna terminei de soltar a canoa e consegui me arrastar pra dentro dela. Fui remando para casa com a força que Deus dá. Chegando lá, faltando uns cem metros para o trapiche onde tremulava uma lamparina, vi uma canoa que se aproximava no escuro, era o Acari. –“Tudo bem, professora?” Disse ele. – “Agora sim, Acari.” Respondi. Remei até a frente da casa com Acari ao lado, na outra canoa. Dona Ticuna, preocupada, foi logo me indagando do motivo de tanta demora. – “Em casa conto.” E nos dirigimos as duas para casa enquanto o Acari amarrava as canoas. Quando fui trocar a roupa embarrada é que vi os vestígios de sangue nas minhas coxas, e uma goma lambuzada que estava ficando parecida com clara de ovo seca. Suspeitei do peor.”

O médico tinha ouvido o relato sem interromper. Ao final disse: -“Olhe, moça, se o que você me contou é verdade, você foi vítima de um estupro, a menos que você esteja inventando tudo isso pra livrar a cara de algum sujeito safado e casado. Se você tivesse ido imediatamente a uma delegacia, eles iriam investigar e talvez achassem o bandido Você poderia fazer um aborto em hospital da rede pública, que nesses casos a lei não pune quem faz.”- “Mas… doutor..” Interrompeu Mariinha. – “Espere aí, menina.” Cortou impaciente o médico. “ Eu acho você deve dar queixa na delegacia e depois volta aqui no hospital. Tenho certeza que alguém vai ajudá-la.. Eu não faço essas coisas mas tem quem faça. Afinal, no seu caso, o aborto é até uma caridade. Seria mais uma criança para passar necessidade e o pior é que você nem sabe quem é o pai!” .À medida que o médico falava, a jovem ia ficando rubra : - “Pois é doutor”, disse ela levantando-se, “eu não sei quem é o pai dessa criança mas sei muito bem quem é a mãe e essa não vai deixar ela passar necessidade, não. Nem que fosse o filho do Boto como diz a velha Ticuna, que já quis me dar até erva aborteira, porque acredita que o que eu tenho na barriga é bicho. Que fosse! Se é meu, também é gente.” – “Acalme-se, filha” Disse o médico com suavidade, embora surpreso pela reação da moça. – “ Ninguém vai lhe obrigar a fazer nada.”.

O solavanco do barco ao atracar no pequeno porto tirou Mariinha de suas recordações. Era o local do transbordo. A jovem pegou sua bagagem e se dirigiu para a ponte de desembarque. Cruzou com a mulher que ficara no seu lugar e esta lhe disse: - Puxa! O sol queimou mesmo. Sua cara está encarnada. Mariinha nada respondeu e apressou-se a desembarcar.

Eram poucos os passageiros na “chata” que ia para Flechais. Mariinha não teve dificuldade de encontrar assento e lugar para a bagagem. Ao passarem ao largo pela vila, os telhados de zinco pareciam espelhos a refletir o sol. Algumas crianças dentro d’água acenavam para os viajantes. Pouco depois atracavam no trapiche em frente à casa de pau-a-pique coberta de palha e que ficava uns cinqüenta metros da margem do rio, barranco a cima. Alertada pelo barulho do motor do barco, Dona Ticuna esperava junto à escada. Acari correu para ajudar com a bagagem.

Na cozinha, junto ao fogão de barro, Mariinha comia fruta-pão que acompanhava uma grande tigela de mingau de tapioca com banana verde ralada.. Entre uma colherada e outra a moça foi pondo a índia a par dos acontecimentos da viagem e da visita ao médico.

- “Eu não dizia? Não dizia que você estava embuchada? Nem precisava viajar tanto pra saber disso.” Dizia a velha e, mais: - “O doutor tinha razão quando disse pra você se livrar dessa criatura. Não que eu ache que é por necessidade, isso não. Aqui tem tudo que alguém pode precisar. Tem o rio cheio de peixe, árvore com fruta pra tudo que é lado e até pão, a fruta-pão. Mas eu tenho é medo de quem tá aí. Credo em cruz, te esconjuro. E a índia fazia um sinal da cruz na testa como os católicos e estalava os dedos como os batuqueiros. – “Basta, Dona Ticuna! Nunca mais quero ouvir essas besteiras. Disse Mariinha. Do contrário eu me mudo daqui, nem que eu mesma tenha que levantar minha choupana ou ir de vez para a Missão.” Balançando a cabeça, a velha murmurou: - “Falo mais, não. Mas deixa eu te fazer uma benzedura que é pra afastar tudo que houver de ruim.” Condescendente , Mariinha concordou.

A professorinha continuou dando suas aulas, Dona Ticuna na lida da casa e colhendo suas ervas, Acari pescando e caçando. A vida seguia, enquanto a barriga de Mariinha ia ficando cada vez maior. Um dia, quando a gestação chegava lá pelo oitavo mês, Mariinha acordou sobressaltada. Tivera um sonho estranho. Via Mr. Taylor dando cabriolas no rio e espanejando uma longa cauda de peixe. Na margem, com a cara de peixe que sempre teve, Acari batia palmas. Na hora do café contou o sonho para a Ticuna, mas esta evitou cuidadosamente falar dos seus receios e disse que devia ser por causa da mudança de lua.- “Mulher buchuda fica muito arrenegada quando a lua muda e se já tá de tempo o bacuri nasce.” Arrematou a índia.

Mariinha não se sentia mesmo bem. Tinha muita dor nas costas e um grande peso no baixo-ventre como se a criança estivesse empurrando para sair. Dona Ticuna mandou Acari ir até a vila avisar que a professora não ia mais dar aula, que mandassem a substituta. Ali pelas seis da tarde as dores começaram a ficar sistemáticas e a jovem mulher percebeu que a hora se aproximava. Lamentou que fosse tarde para ir a qualquer hospital ou mesmo à enfermaria da Missão. Mas lembrou-se que as índias e mesmo as caboclas não precisavam de ajuda para parir os filhos. Acocoravam-se para facilitar a expulsão, cortavam o cordão umbilical com os dentes e assim que expeliam a placenta, tomavam a criança nos braços e se dirigiam para o rio onde a banhavam e se livravam das secreções do parto. Afinal, mesmo sendo descascada, era macaxeira, era filha da terra, era filha de sua mãe.

Dona Ticuna se aproximou. Perguntou de quanto em quanto tempo eram as dores. “Uma em cima da outra”, ela murmurou. – “É, melhor deitar, filha”. – “Deito, não. Vou parir acocorada”. – “Num seja besta. Essa criatura é grande demais e vai te rasgar toda. Deita.” Disse Dona Ticuna com firmeza. Mariinha obedeceu, mais vencida pela dor que pelo argumento. Dona Ticuna encheu a mão com banha de tartaruga e começou a massagear a barriga da parturiente. Depois mandou que ela segurasse nas barras da cabeceira da cama e fizesse força pra ajudar a saída. Na terceira tentativa Mariinha quase desfaleceu. A Ticuna gritava: coroou, coroou. Era a cabeça que aparecia no nascedouro. Em segundos, o corpo da criança já estava seguro entre as mãos da velha índia que com os olhos esbugalhados, balbuciava: - “Credo em cruz, credo em cruz. É mesmo o filho do Boto Cor-de-rosa. Nunca vi criatura nascida de gente tão encarnada. Olha só o sinal na testa meio arredondado.” Mariinha ouviu o que dizia a velha e sentou-se na cama. Olhou para o pequeno ser que saíra das suas entranhas e que chorava agitando braços e pernas. Percebeu na pequena testa o sinal acinzentado que se destacava na pele cor-de-rosa. Respirou fundo, encheu-se de coragem e, vencendo a dor e o cansaço, arrebatou o filho das mãos da índia, tomou-o nos braços e caminhando com esforço, foi em direção à porta, desceu as escadas e se encaminhou para o rio.

Quinta do Anjo 26.08.2004