Noturno nº 1

Andreas Müller


Ana dorme ao meu lado com boca de despreocupação. Eu leio o livro à luz amarelenta do abajur. Relógio digital marca 2:58. Manuel Bandeira diz que o calor da noite é úmido e tempestuoso. Céu lá fora, pesado, quer desabar. 

3:17: sono vence.

Levanto. Espectro noturno de Porto Alegre invade o quarto. Caminho até a estante e guardo o livro. Quarto está cheio de livros.

Falta luz.

Pretume insondável toma conta. Estou desorientado. Pior é que preciso ir ao banheiro (queria ter ido antes, mas a leitura me deteve). E está escuro. Tenho pavor de escuro, e de espelhos. Demônio sai dos espelhos quando está escuro, dizem. Há um imenso espelho na parede do banheiro.

Tateio o armário, procuro a parede e a porta. Esbarro em algo. Livro. Olhos arregalados, avanço devagar. Passos. Encontro a porta e sigo pelo corredor. Balanço as mãos para não bater em nada. Encontro o banheiro. Entro. 

Rugido forte inicia lá fora. Chuva.

Procuro a pia. Espelho está à esquerda, evito olhar praquele lado. Encontro a torneira e molho nuca e rosto. Água. Clarão ilumina de súbito o apartamento e desenha sombras na parede. Sombras saem do espelho? Trovão. Resolvo mijar. Mijo.

Estou sendo observado.

Volto ao quarto às cegas, correndo. Braços são olhos. Tranco a porta. Trinco. Chego à cama e adivinho Ana dormindo. Respiração. Deito ao seu lado. Molas. Espero chuva e medo passar. Olho pela janela. Como é possível que toda a cidade esteja assim, tão preta? Não há mísero brilho, tampouco a mais tênue das luzes. Goteira.

Tempo passa e sono quase vence de novo. Sinto arrepio repentino. Abro os olhos. Não há dúvidas, tem alguém no apartamento, dentro. Pode ser que esteja ao lado da porta do quarto. Talvez seja o demônio do espelho. Ou ladrão, assassino, mas quem quer me matar, Deus? Sou homem bom, poucos amigos, aliás, não tenho quase amigos, sou eu e Ana, coitada, ela trabalha e eu fumo maconha e minto e digo que procurei emprego. Vento. Meus pais não falam, meu avô, eu amava meu avô, mas ele morreu, poderia ser ele agora e eu não sentiria medo, ou sentiria sim, não sei como são fantasmas em noites de chuva. Trovão. Vai ver é mesmo ladrão, assassino atrás da porta, demônio. Lembro que Manuel Bandeira escreveu sobre a morte que entra pela porta no quarto do homem, mas no poema a morte era uma moça bonita com “o olhar inefável de quem tudo viu, tudo perdoou”. Que bobagem, é bom ficar calmo. Talvez seja só imaginação, é melhor dormir, ou então permanecer alerta, escutando. Vento? Chuva?

Passos.