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Namorando em Paris
Idalia Martins
Dei uma rápida olhada no espelho para conferir o visual. O
reflexo devolveu-me a imagem elegante de uma balzaquiana
esguia e dourada de sol. Sabia que não era uma mulher
propriamente bonita, dependia, como tantas, de um pouco de
produção. Mas o que realmente fazia a diferença era o meu
estado de espírito. Quando estava bem e me sentia poderosa, eu
me transfigurava e meu rosto mostrava-se radioso.
Tinha escolhido um vestido branco. O alvor do traje realçava o
dourado da pele morena, que sabia raro naquela primavera
parisiense. Eu estava especialmente feliz. Recebia a corte dos
homens e um pouco de inveja das mulheres. O que se
justificava, Robert, o proprietário do Hotel President, onde
nosso grupo se hospedava, um franco-italiano, com cara de
Rossano Brazzi, estava caído por mim. Sentia meu coração
balançar, na verdade, eram os meus joelhos que balançavam
quando via aquele homem que, além de belo, era gentil, bem
humorado e generoso. Robert sempre estava me surpreendendo com
pequenas gentilezas: ele me mandava flores, delicados ramos de
violetas, champagne rosè para o café, chegando mesmo a tirar o
relógio de ouro do próprio pulso, oferecendo-me porque eu o
achara bonito. Na ocasião, dissera-me, mostrando o seu sorriso
de dentes perfeitos, souvenir pour toi, c'est Cartier
Além disso, na noite anterior, um belo espécime germânico,
daqueles que arranca suspiros aos passar, deixou-me um pouco
constrangida diante dos demais hóspedes. Após o jantar, quando
Benjamin tocava ao piano La Vie en Rose, animei-me a soltar a
voz. Pouco depois o alemão se aproximou de mim e, em tom
bastante audível, fez rasgados elogios à minha figura e ao meu
talento musical. Não posso dizer que não gostei. Fiquei
deliciada, embora presa do embaraço natural diante das
circunstâncias.
Desci as escadas e me dirigi ao bar. No caminho recebi alguns
cumprimentos. As mulheres faziam elogios ao traje.
Sentei em um banco alto bem diante do barman. O olhar do rapaz
acompanhou o meu cruzar de pernas. Vendo que eu flagrara sua
indiscrição, enrubesceu. Sabia que seus olhos me acompanhavam
por onde passasse. Seguiam-me onde quer que fosse.
Tenho recado do chefe, disse. Ele pede que Mademoiselle o
espere às 11.30 h, após o fechamento do restaurante do hotel.
Gostaria de levá-la a passear.
D'acord, disse eu, encaminhando-me para o restaurante.
Pela porta entreaberta percebi que ele ainda me olhava. Fui
para o mesmo local onde sempre ficava, a praça de serviço de
Rogério, um empregado de mesa português com o qual, talvez
pela afinidade da língua, gostava de conversar. Rogério me
atendeu com estranha frieza. Pedi-lhe uma salada de abacate,
já maduro, pois não gostava do sabor da fruta ainda verde, que
tanto seduzia os franceses. Quando o garçon voltou, procurei
puxar conversa. Então ele me disse: O patrão não quer que eu
converse com Mademoiselle Pereira. Por quê? Perguntei. Ele foi
lacônico: Patrão é patrão.
Perto da meia-noite Robert veio ao meu encontro. Convidou-me
para dar um passeio na Praça dos Artistas. Na calçada cruzamos
com outras hóspedes brasileiras que regressavam ao President.
Uma delas me disse em português: Então, namorando em Paris...
E de graça! O comentário da mulher não era despropositado.
Muitos clientes do hotel, inclusive mulheres, requisitavam
serviço de acompanhante. As brasileiras não fugiam à regra.
Ainda bem que Robert não entendera a tirada.
Apesar da friagem, a noite estava agradável. Fomos a pé até
Saint Germain d'Après e depois para a praça onde os artistas
expunham sua arte. Robert mandou fazer a nossa caricatura. Ele
estava calado aquela noite. Atribuí ao fato de que eu já
estaria regressando para o Brasil nos próximos dias. Havia
muita gente na praça, apesar de que a temperatura estava
caindo. As noites são frias na primavera parisiense, pelos
menos para quem vem dos trópicos. Pedi a Robert que
voltássemos para o hotel, poderíamos tomar um bom champagne e
ouvir o Bem ao piano. Robert pareceu-me contrariado mas
atendeu o pedido.
Voltamos pela Avenida de Vichy, caminhando de braços dados. A
rua estava erma. Ao longe se ouvia o apito de algum guarda.
Quando passávamos pela encantadora pracinha, que ficava a meio
quarteirão do hotel, Robert disse querer ficar um pouco
sozinho comigo. No hotel faltava privacidade, justificou.
Encaminhamo-nos, para um caramanchão florido, precariamente
iluminado, no centro da praça. Senti um certo receio mas disse
para mim mesma que aquilo era coisa de brasileiros acostumados
à falta de segurança; Paris não era assim. Já não via os
casais de namorados que me tinham chamado a atenção quando
saíramos para passear. O meu corpo tremia um pouco, talvez
pelo frio. Robert falava por monossílabos. Na verdade, a nossa
comunicação era precária. Falávamos um misto de italiano e
francês, já que Robert nada entendia da minha língua materna.
Às vezes, as palavras faltavam. Meu namorado estava nervoso,
tentava me dizer alguma coisa que eu não compreendia
De repente o homem tirou a própria gravata e a colocou no meu
pescoço. Assustei-me. Ele tentava ajustar o nó. Eu tentava
impedi-lo. Não, Robert, não. Enquanto procurava me
desvencilhar, os últimos acontecimentos passaram velozmente
pela minha cabeça. Que imprudência. Eu pouco conhecia o homem
e estava ali com ele depois da meia-noite em uma praça escura
de Paris. Ele era ciumento, percebia-se. Possessivo. Proibira
o Rogério de falar comigo. Meu Deus, eu não conseguia tirar o
laço da gravata. Um grito começou a se formar na minha
garganta e Robert segurou firmemente a minha cabeça fazendo
com que ela pendesse para trás. Depositou um beijo ensandecido
na minha boca e me silenciou. Aos poucos foi diminuindo a
pressão das mãos, a boca migrou para o meu pescoço, depois
para o meu ouvido e murmurou: je t'aime, je t'aime, beaucoup.
Apontou para a gravata ajustada ao meu pescoço: SOUVENIR!
C'est Pierre Cardin.
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