Medo do escuro

Astrid Kühn

Papai gosta de escutar música à noite. Mamãe também, mas nunca vai dormir antes de beijar nossa testa e nos colocar na cama. Eu tenho medo do escuro, por isso demoro para dormir, mas papai e mamãe não sabem. Acham que sou sonâmbula. Não sei bem o que isso quer dizer. Parece que é alguém que caminha dormindo. Não sou isso não. Caminho acordada. Tudo bem, não me importo que pensem que sou essa tal de sonâmbula. Assim posso caminhar até o quarto do papai e da mamãe e dormir entre eles. Não sabem, mas só assim consigo dormir.

Tive um sonho estranho ontem à noite. Acho que todo mundo teve o mesmo sonho, porque ficam perguntando coisas estranhas. Perguntam se vi alguém no quarto do papai e da mamãe. É claro que eu vi. O monstro do escuro estava lá. Não vou contar pra ninguém. Todos riem de mim quando falo em monstro do escuro. Prometi para a Nani que não vou contar. A Nani cuida da gente quando mamãe precisa sair. Ela já viu o monstro do escuro na janela, mas disse que, enquanto houver luz, ele não poderá entrar. Então deixo a luz do lado da cama ligada para ele saber que não pode entrar.

Ontem esperei o beijo de mamãe. Foi diferente, demorou mais tempo. Os olhos dela estavam brilhando e vermelhos, como os meus, quando choro. Perguntei se ela estava triste. Ela disse para eu não me preocupar, que ia ficar tudo bem. Mamãe é assim mesmo, preocupada. Escutei um dia papai dizer que ela anda com medo até da sombra. Fiquei pensando se na nossa sombra o monstro do escuro poderia chegar.

Ficou daquele jeito me olhando e eu sabia que era hora de fechar os olhos. Devagarinho, pra ela não saber que era de mentira. Mamãe apagou a luz e foi embora. Odeio quando ela faz isso. Preciso contar minhas bonecas na parede, que é mais ou menos o tempo de papai desligar o som e eles deitarem. Aí ligo a luz do lado da cama e vou até o quarto deles para dormir. Ainda não sei contar os números, mas dei um nome para cada boneca, então vou falando baixinho “Julie, Lady, Andy” até chegar na Barbie. A música continuava tocando. Olhei para a janela para ver se o monstro do escuro tinha passado para me vigiar. Não estava lá. E a música não parava para eu ligar a luz.

Contei as bonecas de novo e a música parou. Peguei meu bico, liguei a luz e fui para o quarto do papai e da mamãe. Deitei no meio deles, como gosto de fazer, foi aí que tive o sonho estranho. Primeiro um cheiro forte e ruim. A cama estava molhada, mas eu não tinha feito xixi. Não conseguia ver nada direito naquele escuro, só escutava mamãe fazendo um barulhinho. Era parecido com o que eu fazia quando estava com dor de barriga. Chamei e ela continuou a fazer o barulhinho.

Foi quando vi o monstro do escuro. Todo preto, sem boca, só olhos grandes e assustadores. Estava com o abridor de cartas do papai na mão e veio em minha direção. Aí surgiu a Nani e segurou ele. Disse para eu não fazer barulho que ela ia mandar o monstro do escuro embora. Eu fiquei bem quietinha e o monstro do escuro foi embora. Nani disse que eu estava sonhando, que quando eu acordasse nunca mais veria o monstro do escuro. Para isso não poderia pronunciar seu nome. Se um dia eu falasse nele, nem a Nani poderia me salvar. Eu prometi. 

Acordei com minha irmã mais velha. Ela chorava. Acho que teve o mesmo sonho que eu. Puxou meu corpo e eu quis voltar para a cama. Chamei mamãe e minha irmã puxou minha cabeça não deixando eu ver eles. Nunca mais os vi. Pergunto e ninguém diz nada direito. Acham que eu sou bobinha. Mas eu sei. Foi o monstro do escuro.