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Margarida da casa da vovó embrulhada em papel de pão
Aline Isaia Splettstösser
Leitura em voz alta de personagem do sexo feminino diante do cartão do (ex-?) marido ( em indignado e bom som ):
>>> O que houve para você destruir de uma hora para outra o que conquistamos em anos de convivência? Estou disposto a apagar as pequenas falhas do meu comportamento doméstico. Vamos esquecer nossos erros, reconstruir uma ponte.
Lembra dos encontros furtivos no jardim da casa de sua avó?
Trilha sonora das indagações impressas no cartão: Barulho de liquidificador triturando seis rosas vermelhas. Pausa para acrescentar água. Liga o botão.
Tom de revolta escancarada ( em mais alto, revoltado e perfeito som ):
>>> Não há motivos para nos afastarmos.
Desliga o botão. Mais seis rosas incorporadas à mistura do desprezo. Retorna trilha sonora do aparelho elétrico.
Comentário perplexo ( em som estéreo ):
>>> Sei que ainda NOS AMAMOS.
Desliga definitivamente o botão.
Evolução dramática:
>>> NOS amamos?
Movimento brusco e voluntário. Morte súbita do eletrodoméstico ensurdecedor.
Registro de óbito: arremesso à geladeira.
Palavras despejadas nas lacunas do calendário da cozinha:
Não me surpreende, Rubem, que você não entenda como posso terminar tudo de uma hora para outra. Estivesse você atento e compreenderia que o desgaste não foi instantâneo. O amor foi se diluindo aos poucos, incorporando doses de desatenção num balde de água fria. Como uma substância química que tarda para reagir, mas, quando finaliza o processo, torna a ação irreversível. Um limpa-carpetes. Nos primeiros segundos de aplicação evidencia as manchas da superfície. E corremos para verificar o que diz o modo de uso. Em letras miúdas, lá está a salvação: Aguarde 15 à 30 minutos para que o produto penetre no local desejado. Seco, torna-se alvo.
E hoje é assim que me sinto. Seca. Seca e oca. Em mim, algo deu errado. Não me mantive imaculada, nem tampouco exalo lavanda ou aroma do campo. Antes tivesse incorporado à nossa lista de presentes de casamento um manual de instruções. Seria mais útil do que as bandejas de prata e as taças de cristal. Há quilômetros atrás abandonei a inocência e a doçura juvenis, a crença do "final feliz".
Estar longe, no entanto, não significa apagar as marcas da Rua das Crisálidas, 46. Lembro-me, sim, dos seus galanteios no portão da casa da vovó, todos os domingos, na metade do seu trajeto à padaria. Mais do que isto, lembro-me de como nos portávamos diante das descobertas conjuntas.
Éramos dois naquela época. Dois, revestidos pelo espaço da contemplação.
Medíamos as palavras para não nos machucarmos desnecessariamente. E entre um silêncio e outro - sim, porque no passado distante o silêncio ainda era a ponte para uma interessada observação - o silêncio, vinha acompanhado da oferta de uma singela margarida. O gesto repetido quase todas as semanas culminava com os seus dedos estendidos, oferecendo-me a melhor parte de sua encomenda enfarinhada. Eu agradecia com um sorriso equilibrista, remexendo os lábios ao sustentar a mastigação do miolo que me dedicavas, enquanto, como legítimo cavalheiro, engolias em seco a casca. Para que a margarida não fosse descoberta pela vovó, você rasgava um pedaço do papel do pão e a enrolava com interesse aparente. Durante anos, acreditei ser esta a maior declaração de todos os tempos, de fragrância exclusiva e desprendimento inusitado.
Mas, na convivência enfadonha do lar, você começou a reivindicar pelo miolo nos nossos cafés. Sobrou-me a casca dura do pão amanhecido. Afinal de contas, quem passou a ir à padaria fui eu. E nem sempre era possível conciliar a tarefa todas às sete horas da manhã com a responsabilidade da limpeza da casa, da esposa coadjuvante e o cuidado com nosso filho.
Sobre a mesa, restou-nos a briga pelo pão e o silêncio do abandono.
Fico a me perguntar que sentido tem hoje para você a palavra convivência.
Seria resignar-nos a um cotidiano que nos fugiu do controle num tempo remoto? Suas promessas de mudança cheiram a mofo. A minha preocupação com a toalha molhada sobre o lençol limpo, a sua incapacidade em trocar o rolo de papel higiênico ao seu término ou às manchas do creme de barbear no mármore do nosso banheiro só faziam sentido no primeiro ano de nosso trato diário.
Depois de 20 anos, engana-se se pensa que isto ainda me atinge.
Mataste-nos com a sua ausência. No vinho que você não me ofereceu depois de atear fogo na lareira, no casaco daquela noite fria que você não sobrepôs sobre os meus ombros, na sessão de cinema a que você não me convidou. No milésimo primeiro pedido da pizza de mussarela sem indagar se queríamos experimentar outro sabor no sábado à noite. Nos domingos entre os seus amigos, os seus carros, o seu futebol.
A cada dia que você passava sem me olhar, fui fortalecendo a cicatriz. Tomou forma, alojou-se na minha face envergonhando-me por não ter enxergado o rumo que me permiti deixar levar.
Vem agora você pedindo-me para esquecer os nossos erros. Esquecer, como? Jogando pó de arroz nas feridas? Ou varrendo-os novamente para debaixo do tapete do corredor? Há tanta saliva trancada na minha traquéia, acumulada gota a gota a cada desgosto engolido. Não sei se soluço, me engasgo ou arremesso os sapos num cuspe revolucionário. Uma ação inconcebível para a menina meiga que regava todos os finais de semana o jardim da vovó. Veja no que você me transformou.
E não revide dizendo que não tem nada a ver com isto, que a única culpada é a vida. Pois, a vida que conheço é das oportunidades que abri mão em nome daquilo que você faz questão de grifar quando já está caduco, o "NOSSO AMOR"
. Que amor é este que me restringiu à ações mecânicas? Passando os ternos das reuniões e das viagens, remendando os calções do lar desleixado? A propósito, sabe quantas vezes troquei sozinha o botijão de gás? O forro do sofá da sala, as plantas do jardim? Quantas vezes revirei de madrugada na cama à sua espera? Quantas vezes, muda, tive vontade de lhe mandar calar a boca enquanto você ridicularizava os comentários dos nossos amigos?
Eu cumpria fiel com as minhas obrigações. Cega e subserviente porque acreditava ser este o meu papel. Eu lhe pertencia, ossos e carne, sangue, vida e sonhos. Foram 20 anos de atrasos e desculpas esfarrapadas. Quiçá traições. Embrulha-me o estômago quando penso nisto. Antes um beijo pelas gargantilhas de ouro encomendadas à secretária para expor à família o seu desvelo pela esposa na noite ímpar de Natal. Daqueles colares, a única coisa que me interessava era sentir o seu toque na minha nuca ao atarraxar o fecho dos cordões. Eu não queria o brilho frio e amarelado, faltava-me o vermelho do calor de um abraço.
Reconheço, no entanto, não foram faltas suas somente. Deveria ter insistido mais vezes em passar as mãos pelos seus cabelos, ao invés de preocupar-me em dobrar a colcha no vinco e distribuir os travesseiros. Tinha medo. Os tecidos aceitavam as minhas mãos sem questionar-me: Para que isto, agora?
Mas, há um dia em que se consegue resgatar a coragem. Pelo menos, enquanto resta-nos um pingo de lucidez. Dane-se a vizinha com seus olhos esbugalhados gritando estupefata no muro: "Separaram-se, como? Vocês formavam o par perfeito!" Doía demais. Resolvi aceitar o desafio do espelho. Ele assombra-me somando minhas rugas, impulsiona-me a recuperar traços delicados e sorrisos espontâneos. Estou disposta a respirar fundo para voltar a oxigenar as células que se degeneram cada vez mais rápido.
Estou renegando a representação do par perfeito. Não dá mais para insistir em aterrar o buraco que há entre nós. Não, Rubem, não há nenhuma possibilidade de reconstruirmos uma ponte. Na primeira oportunidade estaria você lá, cobrando pedágio. Recalculando fronteiras e sugerindo uma repavimentação.
Só não venha jogar para cima de mim a culpa pela proposta do divórcio. Eu apenas estou tentando sacramentar o decreto de nossas incompatibilidades.
Foi você quem se empenhou em protagonizar a guerra do cotidiano.
Pelo menos uma vez na vida, deixe-me dar meia volta e volver. Fortalecer-me para o grito da liberdade. É inútil mandar-me dúzias de rosas vermelhas atadas com fitas de cetim. Antes você tivesse resgatado a margarida da casa da vovó embrulhada em papel de pão.
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