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A história da Lujanera
Doralina Tomazzoni
Confesso que não me sinto à vontade para contar certos fatos da minha vida. Para criar coragem, vou falar um pouco sobre meus heróis. O primeiro em importância, nos tempos de mulher de vida fácil, foi o Rosendo Juarez. Imbatível nas lutas de faca, ele era o ídolo da rapaziada na região. Todos queriam imitar seus feitos, gestos, roupas e adereços. Na condição de sua mulher, eu me sentia segura. Com ele nada me faltava, nem na mesa, nem na cama.
Nunca fiquei sabendo o que aconteceu naquela noite. Francisco Real, um forasteiro, chegou na bailanta da Julia e começou a beber. Ao se deparar com Rosendo Juarez, falou que procurava um tal Batedor, que queria provar-lhe a valentia. Gritou, botou banca, cuspiu no chão e Rosendo se acovardou. Tentei ajudar meu homem, tirei a faca da bainha e lhe coloquei na mão. Mas ele a jogou pela janela e continuou na mesma posição, imóvel. Depois, foi saindo de mansinho, indiferente às provocações do forasteiro. Enojada, enlacei-me no pescoço de Francisco Real e fomos dançar. Nunca mais vi nem quis saber de Rosendo Juarez.
Francisco Real, mesmo embriagado, me agarrava com firmeza na dança. E o cheiro forte de macho, vindo daquele homem alto, robusto e guapo, me deixou louca de paixão e desejo. Rodopiamos numas milongas e ele me carregou para fora do salão. No meio do campo, deitamos nas macegas. A gente se revirava no chão, quando alguém surgiu sorrateiro e falou baixinho: "Homem do Norte, te prepara para morrer. Te deixo pegar a arma, que não sou covarde para matar um desarmado." Reconheci a voz do Mario Sanchez e fiquei quieta, queria ver no que dava. Francisco Real levantou-se, desembainhou a faca e deu um passo à frente. Mas o outro foi mais rápido, furou-lhe o peito e desapareceu na escuridão. Francisco Real conseguiu ficar de pé, apertou o corte com a mão esquerda e com a direita se apoiou em mim. Levei-o até o meio do salão, onde caiu e morreu. Lá estava Mario Sanchez, tranqüilo, conversando e bebendo como se nada tivesse acontecido. Eu disse a toda aquela gente curiosa que não tinha reconhecido o homem que esfaqueou Francisco Real. Deixei o morto a cargo deles e fui direto ao rancho do Mario para esperá-lo.
Mario Sanchez pertencia ao grupo que admirava Rosendo Juarez e era o rapaz mais bonito na bailanta da Julia. Fazia tempos que ele me lançava uns olhos de cobiça. E eu, mesmo bem servida, ficava encantada com aquele interesse. Naquela noite dos desafios, tive uma grande surpresa ao ver Mario Sanchez dar um murro em Francisco Real. Descobri que ele, além de bonito, era corajoso.
Fiquei morando com Mario Sanchez. Mudamos para outro lugar e passei a viver como mulher direita. Durante um ano agüentei o tirão. Depois, não deu mais, cansei. Não da vida decente, pois me sentia feliz por ser respeitada. A coisa ruim foi o ciúme de Mario. No começo, até gostei. Alimentava um certo orgulho, pensando que me amava e me queria só para ele. Mas, com o tempo, o ciúme foi crescendo, crescendo, e minha vida virou um inferno. Se alguém se aproximava do rancho, eu não podia sequer botar a cabeça para fora da porta ou da janela. Uma vez, me esbofeteou porque respondi a pergunta de um passante querendo saber caminho. Fui ficando desiludida, meus sentimentos mudaram. A admiração e o amor que sentia por ele foram trocados por ódio. Escapei várias vezes. Mario sempre me achava e eu, acuada, voltava. Na penúltima, recusei-me a segui-lo. Ele me encontrou no fim de um dia cinzento e frio. Continuei caminhando noite adentro, com aquele traste a meu lado, tentando me convencer. Ao ver que eu relutava em voltar, começou a me esmurrar. Lutei quase de igual para igual, mas fui vencida e soqueada a ponto de desfalecer. Mario pensou que eu tinha morrido, deixou meu corpo atirado no matagal e foi embora. Mais tarde, eu soube, ele espalhou que eu morri, peleando com outra mulher que também o queria.
Assim que recobrei os sentidos, me vi deitada de costas, toda dolorida e sangrando, na cabeça, no rosto, nos braços. O céu era um pretume só, não se enxergava nada; no chão, um tapete de gravatás espinhava as mãos, pés e pernas. Tapei a ferida maior com o lenço da cabeça e fui tateando ao redor. O cheiro das folhas amassadas me chegava ao nariz, quebrado pelos socos. Os únicos sons que atingiam meus ouvidos, meio tapados, eram o piar das corujas e o ruflar das asas dos dorminhocos.
Sofri naquele lugar umas boas horas. Mas Deus deve ter olhado para baixo. De repente, encontrei um pouco de ânimo, me arrastei e fui seguindo o capim amassado. Ao encontrar pedregulhos, concluí que estava na estrada por onde tinha transitado antes. Esperava que, num milagre, alguém me encontrasse. Nesse meio tempo, escutei um barulho conhecido, como o rangido de rodas. Em seguida, senti a vibração do caminhar compassado dos bois. Gritei, conforme minhas forças, que me doía muito o peito. Os carreteiros pararam os animais antes de chegar onde eu estava. Então, com a voz rouca, consegui pedir ajuda. Dois homens me colocaram na carreta e continuaram a caminhada.
Acordei num rancho, com três pessoas cuidando de mim. Lembrei de tudo, pensei em Mario Sanchez e fiz um pedido aos carreteiros:
- Me façam outro favor. Cravem uma cruz no lugar onde me encontraram. O homem que me feriu precisa pensar que estou morta.
No dia em que me senti firme, sentei os pés na estrada e peguei o caminho da encosta onde fui criada. No trajeto, fiquei sabendo que o pai havia falecido e meu irmão mais velho era quem tomava conta das terras. Em casa, todos me receberam com carinho e minha mãe abraçou a filha perdida. Fiquei poucas luas por lá, porque meu calvário de fugas continuou. Quando, finalmente, as coisas se resolveram, me escondi no Estado Oriental. De lá vim para o Rio Grande e encontrei meu filho. O carinho e os cuidados dele, da nora e dos netos recompensam os reveses do passado.
* * *
Tudo começou numa época de guerra. Eu tinha treze anos, fazia umas duas semanas que as primeiras regras haviam descido. Era a única mulher e a mais velha de cinco irmãos. Nosso rancho ficava escondido numa clareira, no meio do mato, mas o latido dos cachorros levou quatro bandidos até lá. A madrugada de inverno estava gelada e os galos recém tinham começado a cantar. Nós ainda dormíamos, menos minha mãe. Ela ouviu o trote dos cavalos e acendeu a lamparina. Os homens derrubaram a porta com pontapés e entraram, ostentando as espadas que haviam roubado dos soldados mortos. Eles gritaram para meu pai, que tinha feito menção de levantar: "Não te mexe, senão a gente te degola". E ele não se mexeu. Mesmo assim, um deles ficou de vigia junto à cama. Meus irmãos começaram a chorar e foram calados com tapas na boca. Enquanto um segundo homem vasculhava o baú velho e remexia os bolsos do paletó pendurado na parede, os outros se ocuparam de mim e de minha mãe. Fui tirada do catre, onde dormia com dois meninos, e colocada no chão, sobre um pelego. O que estava em cima de mim dizia para aquele que aguardava a sua vez: "Carninha fresca tá aqui, hein! Coisa gostosa!" O último perguntou ao que procurava dinheiro se não ia se servir. Ele respondeu: "No. Hoy no quiero mujer, quiero plata". Tudo aconteceu na peça que servia de dormitório, na frente do pai e dos guris. Satisfeitos, os canalhas entraram na cozinha e saíram ligeiro, levando só o charque, os outros poucos víveres não lhes interessaram. Em seguida se ouviu barulho no galpãozinho. De lá, pegaram o cavalo e os arreios.
Na época, pensei que meu pai poderia ter atirado nos bandidos pelas costas e matado todos eles. A espingarda carregada ficou lá, escondida atrás dele, sem ser vista nem tocada. O infeliz deixou os malvados sumirem na picada, dando gargalhadas e gritando.
Dois meses depois, tive os primeiros enjôos. Fiquei assustada, nem sabia o que estava se passando. Minha mãe me perguntou pelas regras. Respondi que não tinham vindo mais e ela me disse que eu ia ter neném. Entramos em desespero, sem saber o que fazer. Eu nem dormia direito de noite e de dia vomitava. A mãe fazia uns chás, às escondidas, com esperança que não fosse aquilo. Quando meu pai soube, ficou meio desvairado e passou a me tratar mal, repetindo toda hora:
- Tu estás perdida, filha! Homem nenhum vai querer casar contigo. Ainda vão é falar mal de mim e da tua mãe. Pobre como a gente é, quem acredita em nós?
Antes que a barriga começasse a crescer, tomei uma decisão: ir para bem longe, sem destino. Saí às escondidas, na hora em que meus pais estavam na sesta, e fui parar num bolicho, tarde da noite. Um homem que estava bebendo me colocou na garupa e me levou para um bordel, na vila. Ali me alojei e tive um menino. Com apenas quinze dias, eu dei a criança a um freguês sem filhos.
Naquela região de Buenos Aires, todos me chamavam de Lujanera. Fiquei muito conhecida por lá, não tanto por boniteza, mas pela ousadia com que enfrentava as situações. Eu era boa na briga de braço, quase sempre vencia quem se atrevesse a me desafiar. As mulheres me respeitavam e muitos barbados também. Como era nova e tinha sido bem treinada para agradar os fregueses, me tornei a china preferida nos bordéis. Com essa vantagem, escolhia o homem do meu agrado. E tinha queda pelos mais arrojados, mais valentes. Quando me cansava de um ou a valentia dele fracassava, partia para outro.
* * *
Pois é, dona Dora, agora lhe conto o resto da minha história. Olhe esta cicatriz aqui no ombro, entremeio às rugas. Está vendo? Foi da última vez que encontrei Mario Sanchez. Ele me descobriu e veio com a tal conversa fiada - estava arrependido, tinha me procurado por tudo que era canto e pediu que voltasse com ele. E eu retruquei, num tom bem arrogante:
- Só se tu me levares morta, porque viva não vou.
O homem se enfureceu e partiu para a briga. Começamos nos socos, mas, a certa altura, ele sacou a adaga e tentou me acertar a veia do pescoço, gritando:
- Se é isso que tu queres, mulher, eu te levo morta.
Por sorte, consegui desviar o braço dele e a adaga lhe caiu da mão. Na lei da sobrevivência, era ele ou eu.
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