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Lázaro
Gilberto de Oliveira Kloeckner
Peçam-me para apontar alguém azarado neste mundo e eu não
vacilo: Lázaro. Jamais ganhou alguma coisa em sua vida. Um
rosário de perdas. Os pais, aos dois anos. A tia, que o criara
até os quinze anos, desapareceu. De uma hora para a outra. Sem
notícias. A partir daí, ficou sozinho no mundo. Estudo? De que
jeito? Precisava trabalhar. Amigos? Os poucos que surgiram,
não soube manter. Jamais perdeu um único amor em sua vida.
Porque nunca os teve.
Morava longe, numa vila popular. Na volta para casa, tarde da
noite, após cumprir seu turno de vigia em uma fábrica, o
ônibus normalmente quebrava. Se isso não acontecia, era
assaltado dentro do coletivo. Perdera a conta. Foram tantas as
vezes que os ladrões não o incomodavam mais. Passavam por ele.
Resmungavam qualquer coisa. Sabiam que não tinha um tostão.
Iam aos outros passageiros. Os motoristas e cobradores
desconfiaram. Acusaram-no de cúmplice. Ficou preso dois meses.
Perdeu o emprego. Respondeu processo por três anos.
Certa noite, voltando para casa, foi abordado por um homem.
Vestia uma capa surrada e botas velhas. Sua barba e cabelos
eram longos. Tinha aspecto de sujo. Seu cheiro, longe de ser
agradável. " Lázaro", falou o desconhecido com voz grave e
calma. "Sei que você não tem tido sorte na vida". Lázaro
fitou-o com seu olhar tímido e balbuciou algo parecido com um
sim. "Estou disposto a lhe conceder um momento de sorte, muita
sorte", prosseguiu. "Mas, para que isso possa acontecer, você
terá que amargar os piores azares pelo resto de sua
existência. Se aceitares, siga-me". Dizendo isso, virou-se e
saiu caminhando vagarosamente.
Lázaro não entendeu qual o poder daquele homem, mas algo em
sua voz, seu olhar, fizeram-no acreditar. Valeria a pena
tentar? Poderia sua vida ficar pior do que era? Sorte? Afinal,
o que era sorte? Que gosto teria? Lázaro ficou por alguns
momentos perdido em seus pensamentos. Quando se deu conta, o
homem já estava um pouco distante. Instintivamente saiu em seu
encalço. Apressou o passo. O desconhecido entrou em uma viela
escura. Lázaro seguiu-o. Em meio à escuridão conseguia
vislumbrar sua silhueta alguns metros adiante. Ouvia seus pés
pisando em poças de água.
Pararam em frente a um bar. Entraram. Apesar de mal iluminado,
era possível ver um balcão à direita e três mesas à esquerda,
cobertas por toalhas que há muito não eram lavadas. Nenhum
cliente. O homem caminhou ao fundo do bar detendo-se em frente
a uma porta. Voltou-se e fitou Lázaro. " Você tem mesmo
certeza que deseja experimentar um momento de sorte? Após, sua
vida será somente uma seqüência de azares. Uma vez aceita a
troca, não poderá ser desfeita." Lázaro conteve o sorriso e
concordou, inclinando levemente a cabeça. Mal sabia aquele
homem que sua vida sempre fora um conjunto de perdas.
O desconhecido abriu a porta e entregou-lhe uma ficha. Lázaro
entrou sozinho na sala. A porta fechou-se. Ao fundo, em um
canto, uma mulher, ao lado de uma máquina caça-níquel, lhe
sorria. Caminhou até a máquina e introduziu a ficha. Puxou a
alavanca. Os tambores giravam. Seu coração disparou. Suava
frio. A máquina pára. Três pepitas de ouro aparecem no visor.
É o grande prêmio. A mulher entrega-lhe uma pasta de couro e
retira-se da sala. Lázaro abre a valise e perde a respiração
com o que vê. Um milhão. Um título do governo, no valor de um
milhão, intransferível, com vencimento em cem anos. Não
acredita. Só poderia trocá-lo por dinheiro daqui a um século.
Era esse, então, o seu momento de sorte?
Volta lentamente para casa. Aturdido. Percorre a última parte
do trajeto na chuva. O ônibus havia quebrado. Entra em seu
quarto e atira a pasta sobre a cama. Continua sem acreditar no
que acontecera. Abre a valise e retira o título. Um revólver!
Havia um revólver sob o título. Lázaro não tinha se dado conta
disso no bar. Apanha a arma. Numa rápida inspeção, detecta uma
única bala no tambor. Gira-o e aponta a arma contra a sua
cabeça. Se o homem falara a verdade, o revólver não
dispararia. Afinal, uma vida de azares lhe aguardava. Nada que
já não conhecesse. Teria que suportá-la. Resignado. Era esse o
acordo. Faz pressão no gatilho, mas não o suficiente para
disparar. Pensa. Fecha os olhos, prende a respiração e,
finalmente, aumenta a pressão.
Uma semana depois os vizinhos chamaram a polícia. Não
suportavam o cheiro que vinha do casebre. Encontraram Lázaro
em decomposição. Sua cabeça em meio a uma poça de sangue
ressequida. Em uma das mãos a arma. Na outra, o título de um
milhão. Tirara a sorte grande na roleta.
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