O jogo da vida

Cláudio Levitan

- Tshípale! chamava-a todos as manhãs de sua janela no alto do 3o. andar. Depois sussurrava para si mesmo: "Tshípale". Gostava de dizer este nome. Ela era uma menina com poucos anos de idade e tinha uma rebeldia que a tornava linda, mais do que na realidade era.

- Tchau! – ela respondia, voltando-se para vê-lo. Isto depois de atravessar o longo jardim que cercava o edifício, em silêncio, como se não tivesse ouvido. Quase ao desaparecer na esquina do prédio, rápida, respondia, virando o rosto e mexendo sua pequena saia plissada do uniforme do colégio, num movimento debochado e atrevido. "Tchau!" E sumia.
No que ela desaparecia, ele retornava aos afazeres matinais com sistemática rotina. Pouca coisa por fazer, aquecia um pouco de água no fogão para tomar o café preto. Sentava-se na mesa próxima a janela para fazer palavras cruzadas de algum jornal velho. Assim passava a manhã, sem pressa. O cassino abria somente no meio da tarde. Ia jogar como quem vai ao trabalho.

Hoje, no entanto, é um dia especial. E tudo será diferente. O calendário sobre o fogão marca em grande círculo vermelho a data: 13 . Sexta-feira. Mês de agosto. Raramente os dias 13 caem numa sexta, ainda mais em agosto. Dia funesto. Fala-se no dia das bruxas, no dia do Azar. Mas era uma data tradicional na sua família, quando se comemorava, ao contrário, o dia da Sorte. Da Grande Sorte. 

Há treze anos atrás tinha morrido sua mãe, 13 anos antes dela seu pai, e treze anos antes dele sua avó. E, em memória a eles, e por causa desta sina da família, ele, hoje, mudaria toda a sua rotina. Depois de gritar pela janela: "Tchípale", não esperou pela resposta. Voltou-se rápido para dentro e iniciou uma seqüência de tarefas num ritmo cadenciado. A casa foi toda arrumada. O quarto, a cama, que sempre ficava com os panos caindo pelo costado, agora estavam impecáveis. Tomou banho, botou sua melhor roupa, o terno negro guardado no baú e cheirando a naftalina. Passou a manhã correndo para que pudesse deixar tudo preparado antes de sair para o cassino. 

Hoje, como fizeram todos eles, jogaria no 13 toda sua economia, resultado de prêmios que foram ganhos por cada um, nesses últimos 39 anos.

Assim foi. Retirou o dinheiro do banco e se dirigiu ao cassino. Jogou tudo num único número: 13. E numa única jogada transformaram-se em U$ 1.000.000,00.

Voltou pra casa. Preparou a janta para a filha que voltaria pontualmente às 18 horas. Diferente de todos os seus parentes, não se enforcou, como a avó, nem deu um tiro na cabeça como o seu pai. Muito menos se atirou da janela como sua mãe. Ele simplesmente se deitou no tapete estendido no chão da cozinha e deixou o gás aberto. Sonolento foi esperando a morte chegar lenta e suavemente. Sem permitir que houvesse qualquer tragédia, advertiu a sua esposa num bilhete fixado na porta para que ela não acendesse fósforos nem a lâmpada, porque poderia explodir o prédio. Que abrisse antes as portas e janelas para que o gás se espalhasse não trazendo maiores problemas. Ele sabia que melhor do que morrer congelado, a morte por asfixia do gás era indolor e limpa. Na volta do cassino, ainda teve tempo de passar no banco e depositar na conta da filha e da mulher, o milhão de dólares para que jogassem, da mesma forma, daqui treze anos no número treze. Assim, a família terá, em poucas gerações, uma grande fortuna.