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Honra
dos que não têm
Hilda Pedrollo
O cara me empurrava contra o muro a golpes ritmados, esfolando
meus ombros, e foi então que eu vi. Primeiro era só um
vulto, um bicho na sombra, parecia um nada, mas não: era o
Jaieverson. Eu vi ele parado me olhando, e fiquei olhando pra
ele. Foi rápido, porque ele tava fugindo, mas pareceu um tempão.
Aconteceu assim: a gente tava dançando lá no galpão, eu e o
Jaieverson e mais todo mundo, quando chegou esse cara com o
pessoal dele dando tiro pra cima e gritando que tinha chegado
pra tomar conta do pedaço e queria saber quem era o otário
que mandava ali pra ele apagar. Daí todo mundo foi se
chegando pros cantos e olhando assim meio de rabo de olho e de
cabeça baixa pro meu amorzinho, todo mundo esperando que ele
botasse esse traste pra correr. Mas sabe o que ele fez? Ele
fez foi nada, só baixou os olhos e ficou quieto como se nem
fosse com ele. Daí eu não me agüentei e joguei pra ele a
arma que tava comigo, e sabe o que mais? Ele fez que nem era
com ele.
Então eu vi que a coisa ia ficando feia e agarrei o tal do
cara e puxei ele pra dançar. Pois não é que o sujeito
simpatizou com a minha pessoa, ficou fissuradão mesmo, e daí
todo mundo começou a dançar de novo. E enquanto o cara esse
me agarrava e me levava lá pra trás do ginásio, eu vi,
assim com o rabo do olho, que o meu Jaieverson tava saindo de
fininho pela porta do lado. Mas como é que pode, eu pensei,
um homem macho como o meu me fazer um papelão desses. E a
idiota aqui que gostava tanto dele. Ele me tratava bem, não
era como os outros, só me batia quando eu merecia mesmo, e
depois como a gente se afeiçoa a esses homens, né? Era o
cara mais macho da vila, ninguém se metia com ele, e de
repente me aparece esse tal desafiando e ele se caga de medo e
a besta aqui ainda vai lá distrair o outro pra dar tempo dele
fugir.
Porque eu gostava dele de verdade. E ele ficou ali na sombra
me olhando, mais com medo que eu denunciasse ele do que outra
coisa qualquer, e sumiu de novo no escuro. Não fez nada. Viu
o outro ali me comendo e foi embora sem fazer nada. Foi ali
naquela hora que me dei conta da coisa que eu sou, passando
assim de mão em mão. Se eu fosse, sei lá, uma pistola ou
uma jaqueta ou um par de tênis ele tinha metido um tiro bem
no meio das costas do cara, mas não: só olhou e desapareceu
no escuro feito uma barata.
isso de ficar passando de mão em mão eu nem sinto mais a
gente acaba pegando o jeito que é fácil fingir só que a
gente finge e finge tanto que acaba não sabendo mais quando
é fingimento nem pra gente mesmo quando tá sozinha aí é
bem ruim e quando meu pai me botou pra rua ele dizia que eu
tava era desonrada a gente só serve pra eles se servirem da
gente tamos abaixo do cachorro honra que eles dizem é servir
só um sempre o mesmo o pai queria que eu servisse só ele
honra só é bom quando enche a barriga da gente quem não
depende dos outros pra comer que se dê ao luxo.
Quando o cara me largou, reclamei que as minhas costas tavam
sangrando. Ele deu uma gargalhada e disse desde quando puta
tem costa e continuou rindo e abotoando as calças. Toda
pessoa tem seu limite. Ele então sentou no meio-fio e tava
fechando um.
Foi daí que eu peguei a gilete que eu carrego sempre e ele
chegou a se virar pra ver o que era mas não deu nem tempo
jorrou sangue do pescoço dele e ele fazia um barulho
esquisito blu blu blu me olhando com aqueles olhos que parecia
que iam saltar pra fora da cara e tentando tapar com a mão o
talho que eu fiz mas não deu e ele ficou ali caído na calçada
com a cabeça dentro duma poça a honra quem perdeu agora foi
ele. |