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Hoje
Andréia de Vargas Souza
- Hoje! Hoje! É hoje!
Abriu os olhos e fechou-os com rapidez. Novamente espiou ao seu redor. Mais uma vez que acordava assim, por uma voz que gritava em seus ouvidos. Virou para o lado tentando recuperar o sono. Mas o suor gélido que lhe percorria o corpo trazia uma sensação desconfortável. Tinha certeza que conhecia aquela pessoa: onde estava, o queria?
Estendeu o braço e apanhou o cigarro. Lascou o último palito de fósforos e tragou. Deixou a fumaça presa em seus pulmões até sufocar. Repetiu o ato. Na terceira tragada tinha ânsias, tentou mais uma vez, mas não agüentou, lançou o toco longe.
Levantou e procurou ocupar seus pensamentos. O eco das palavras não o deixava divagar. Uma espécie de prisão. A pior de todas as prisões. Andou pelo pequeno apartamento com passos rápidos, ia do quarto para a cozinha, incessantemente. Abriu o congelador e retirou alguns cubos de gelo, passou-os pela nuca e testa, depois os mastigou vorazmente.
Olhou para o relógio em cima do fogão: quatro horas e poucos minutos.
Sentou no sofá da sala e no silêncio anônimo da madrugada ficou a perceber, a analisar. As luzes da casa ligadas, os pés descalços, o ridículo pijama de bolinhas. Um pavor que o torturava. Estava feito uma criança assustada. Observou os dedos dos pés. No meio da pequena sala se sentiu sozinho em um mundo apático. Começou a ter pena de si mesmo. Um sentimento de covardia, de autopunição. Pela primeira vez, após muitos anos, compreendeu como fazia falta alguém para conversar nas noites sem sono. Não lembrava de ter tido em outro momento tanta vontade de chorar, de engolir todos os comprimidos, de beber todos os destilados, de submergir na banheira para não voltar mais.
Pensou em retornar para a cama. Não conseguiu, sentia medo. Parecia que em algum canto do quarto estava a dona daquela voz lhe provocando, profetizando desgraças. Não adormeceu, ficou sentado no sofá sentindo os músculos das costas se contraírem, percebendo as pálpebras pesarem, o cansaço invadir o corpo.
Durante todo o dia, no trabalho, ficou atônito em frente ao computador. A cada pessoa que se aproximava ele sentia-se enfraquecer. Quem sabia? A voz que gritara em seus ouvidos devia ter vindo para avisar que alguém sabia. Se assim fosse logo a notícia ia se espalhar, ganhar outras proporções, arruinar com tudo. Não teria mais coragem de encarar ninguém, seria visto por todos de forma diferente e serviria para muitos de chacota. Abriu o e-mail e encaminhou a mensagem:
- Querido Antônio! Creio que a verdade está vindo à tona. Estou alarmado. Peço que não me procures mais até a situação acalmar. Meu consolo é que encontro paz quando estou contigo. Carinho, Daniel.
Em seguida uma resposta:
- OK. Não te procurarei por algum tempo. Te cuida. Saudade
Falou tantas vezes para o Antônio ter mais cuidado. Não visitá-lo no trabalho com tanta freqüência, não mandar tantos recados, não enviar tantos presentinhos.
Tomou um café forte. Pegou o telefone e ligou:
- Marília! Como vai você? E o Lucas, recebeu notícia?
- Saiu de Nápoles. Vai se instalar em Barcelona. Disse que não pretende voltar para o Brasil. Não perguntou por ti. Eu queria saber o que ocorreu entre vocês dois.
Tentando não mostrar desinteresse pelo assunto relacionado ao filho, fez uma pausa para após falar:
- O que pode estar acontecendo quando você é acordado por uma voz?
- A consciência pesada falando alto.
- É sério.
- Que é? Vai procurar outra terapeuta. Acha que vou estar tratando ex-marido, agora?
Saiu para caminhar, decidiu procurar Antônio. Precisava encontrá-lo, acalmar aquela inquietação. Talvez sair daquele trabalho resolvesse, podia montar um outro negócio distante dali. Onde ninguém o conhecesse. Mudaria de casa também, quem sabe assim não ouviria mais a voz. A maldita voz. Foi ela que avisou:
- Seu filho vai saber, seu filho vai saber.
Lucas soube dias depois. Encontrou fotos e bilhetes de Antônio. Repudiou o pai, sentiu ódio. Tempos mais tarde a voz reapareceu:
- Sua mãe, sua mãe. Sua mãe.
A mãe morreu de um infarto fulminante quando o flagrou bolinando Antônio.
Acendeu um cigarro. Lembrou que Antônio fumava somente quando estava com ele. O que, hoje, queria dizer? Hoje! Podia ser tanta coisa. Apressou o passo. Quando se aproximou da casa do Antônio viu que ele entrava no carro de uma mulher. A mulher era Marília. E Antônio abraçou a mulher. Marília ria e mexia no cabelo. Antônio falou no ouvido dela. A mulher beijou Antônio. Antônio beijou Marília. De repente tudo a sua volta começou a revolver-se. Amassou o toco de cigarro ainda aceso em suas mãos. O carro arrancou e ele ficou ali sentado na calçada, para ver, depois de quatro horas, Marília deixar Antônio no mesmo lugar.
Daniel acordou com o despertador a berrar. Rolou na cama e desligou-o. Dez horas da manhã e a sensação era de sono. A voz nunca mais surgiu e ele desejava por tudo que ela aparecesse. Dormia a maior parte do tempo que podia. Tinha esperança que ela viesse para avisar:
- O veado do Antônio vai ser corneado pela puta da Marília. |