Na Granja

Claudio de Oliveira Koehler

Amanhecia.

Angico, o galo, trinava alegre. A granja ia acordando. Rebuliço, roncos, chiados, mugidos, baixos e lentos, indicavam que um dia de calor intenso se prenunciava.

Canela, o gato, acomodado na janela da casa-sede, providenciava seu banho matinal em linguadas rítmicas, observado por Pereira, o cão sem pedigree, que com uma certa ponta de inveja pela flexibilidade e bela pelagem do felino, lhe lançava farpas.

- Ô, sujão, nojento, guarda essa língua comprida, ao invés de passá-la nesse pêlo sujo.

E Canela, nem aí. Sua arma era a indiferença constante que irritava ainda mais Pereira.

Miosótis, a vaca, se lamuriava.

- Mais um dia de sofrimento. Não sei por que a mulher não me apoja. Lá vem aquele desgraçado me bolinar, me apertar as tetas. Creio que se masturba. Fico toda doída. Será que pensa que apertando desse jeito tira mais leite? A dona é que sabe das coisas. Seu toque é leve, suave, macio, e o leite sai da mesma maneira. Lástima que o cretino não fique atrás de minhas patas para levar um belo coice nos cornos.

Oliveira, o porco, do alto de sua sabedoria: 

- Miosótis, teta é para isso mesmo, relaxa. Dás-lhe um coice e serás punida com algumas chicotadas. Sofre um pouco, é apenas uma vez ao dia.

- Isso porque não é contigo, redargüiu Miosótis.

Nogueira, o papagaio velho e de penas já sem brilho, um eternal intrometido.

- Sofre, sofre, sofre...

- Cala a boca, asqueroso, puxa-saco, xingavam Miosótis e Oliveira.

– Puxa-saco, puxa-saco, puxa-saco...

Em uma granja pobre, de granjeiros já meio idosos, os animais também não eram novos e por vezes, uma galinha era sacrificada, quando não mais punha ovos. E nesse dia foi a vez da Violeta, galinha triste, que não era mais procurada pelo Angico. Este vivia arrastando asas para as mais novas. Embora eles soubessem do destino de cada um –a panela-, a tristeza dominava o sítio toda vez que isso acontecia.

- É... É o nosso destino, à exceção do Pinheiro, filosofou Oliveira.

Pinheiro, o cavalo, jactava-se: 

- Eu sou mais eu. Aqui, eu sou o importante. Faço tudo e ainda levo o patrão para todo o lado.

E Oliveira: 

- Sim, mas tua sina é triste. És o único escravo por aqui. Trabalhas de sol a sol em serviços pesados e ainda por cima serves de montaria. Que indignidade. Puxas a carroça, lavras a terra e ainda levas relhaços para andar mais depressa, quando te montam. Que indignidade. Escapas da panela, porque tua carne não serve para nada. Melhor vida tem o Canela, nada faz e tem carinho da dona. O Pereira, embora se esforce, de vez em quando leva um pontapé.

- Pontapé, pontapé, pontapé ...

- Cala a boca, imundo! Reclamavam vários.

E o dia passava, quente e vagaroso. Ao fim da tarde, os pássaros, que de manhãzinha, lá pelas 6 horas, arribaram a outras paragens, como todo o dia, vinham voltando para se anidarem com seus arrulhos, na grande árvore que ensombrava a granja.

Meia hora de buscas pelos melhores galhos e o silêncio se fez.

Anoiteceu.