O Frio do Metal

Claudia Lopes

Robson entra em um corredor comprido, cheio de poças d’água no chão. Caminha e ouve o som de seus passos, sentindo uma leveza estranha a cada poça pisada pelo solado grosso dos coturnos. À sua frente, caminha um homem de branco, que o conduz. Atravessam uma sala enorme, aparentemente de espera, com poucos móveis, paredes nuas, e somente algumas cadeiras de plástico fazem o contorno irregular da peça. Algumas pessoas estão ali, sentadas, e neste momento viram-se para ele. O homem de branco segue pela sala, abre uma porta que dá para outro corredor, desta vez, seco. Abre a primeira porta à esquerda, uma porta de madeira, com uma janela de vidro e uma persiana branca. Adentram em uma saleta. Ali está Sandra, numa cadeira em frente a uma mulher loira, muito séria, sentada detrás de uma mesa, que parece ser a doutora. Sandra tem os olhos tristes, provavelmente chorou muito. As olheiras e os cabelos cortados em desalinho emolduram o retrato de um desespero agudo, sem ter nada a ver com a doçura que o encantou quando se conheceram.

A doutora fez sinal para que Robson sentasse. Pôs as mãos com os dedos entrelaçados sobre a mesa, a indicar que iniciaria uma explicação. Começou a falar, perguntando há quanto tempo ele e Sandra se conheciam. Robson achou estranha a pergunta, afinal por que uma médica teria que saber disso? Mas a doutora não deu tempo para que Robson respondesse. Levantou-se da cadeira, contornou a mesa e, aproximando-se de Sandra, começou a falar sobre o funcionamento do cérebro. O assunto iniciou-se de um modo tão sem sentido que fez logo com que Robson voltasse os olhos e a atenção para sua mulher, que permanecia sentada de frente para ele, sem esboçar nenhuma alteração na expressão vaga e triste. Robson entende que Sandra está doente, que está internada e a médica coloca toda uma explanação científica para dizer que sua mulher está louca e que provavelmente a culpa é dele. Robson procura interromper o discurso da doutora, mas ela parece não ouvi-lo. Sandra veste uma camisola branca, igual a que usa em casa, só que sem as fitas mimosas na gola. Os pés estão descalços. Robson sente estranheza e pena, porque percebe que ama e desconhece completamente sua mulher. Nunca imaginou que os cada vez mais freqüentes ataques de ciúme e choro eram sinais de uma patologia cujos sintomas agora uma especialista descrevia minuciosamente à sua frente. Sandra começa a chorar, com as mãos presas sob as coxas, olhando para o chão, mirando um ponto qualquer debaixo da mesa da médica. Robson está aflito, e sem querer, sente que encosta em algo metálico e gelado atrás de si. O homem de branco está à sua direita, toca em seu ombro, e diz: “cuidado aí atrás”.
Robson vira-se na cama para a esquerda, e desencosta do colchão o peito molhado de suor. Numa fração de segundo, dá-se conta que está em casa. O coração está aos pulos, pelo sobressalto do pesadelo. Mas percebe que ainda sente o frio do metal a roçar suas costas. Vira rápido a cabeça e vê Sandra ajoelhada ao seu lado na cama, soluçando aos prantos e o acariciando suavemente com uma faca de cozinha.