O enigma de Alice
Cleonice Bourscheid
Estávamos reunidos na sala após o jantar, quando escutamos
batidas à porta. A campainha não funcionava há muito tempo e
poucas pessoas andavam à rua por aquelas horas.
Achei estranho chegar uma visita, pois não era algo habitual
em nossa casa. Vivíamos entre tios, tias, primos e primas,
raramente pessoas da vizinhança se aproximavam de nós.
O casarão era grande, rodeado por um jardim, onde cresciam
em harmonia, jasmins, primaveras, glicínias e buganvílias.
No fundo havia uma amoreira que ficava coberta de amoras no
verão. Era o lugar preferido de Alice. Sentava-se à sombra,
conversando com a amiga imaginária ou simplesmente repetindo
palavras que não entendíamos.
Tio Giovani, o mais velho dos irmãos de meu pai, marido de
tia Luiza e pai de Alice, levantou-se e dirigiu-se até a
porta.
Um homem vestindo sobretudo, chapéu e luvas brancas,
aguardava na soleira da porta.
- Tenho uma encomenda para o senhor, falou em voz
sussurrada.
- Pois não, respondeu tio Giovani. Quem me mandaria uma
encomenda a uma hora dessas? perguntou intrigado.
- Senhor, venho de muito longe e estou cansado, disse o
homem, remexendo no bolso do sobretudo.
Tirou vagarosamente um pequeno livro manuscrito e entregou-o
ao meu tio.
- Tome e guarde-o bem. Está com minha família há muitos
anos.
Tio Giovani, agarrado ao livro, parecia ter visto alguma
assombração. Levou alguns minutos para retornar à sala, onde
o esperávamos curiosos.
- Vejam o que o desconhecido me entregou, um livro
manuscrito com o retrato de Alice!
- Como, assim, o retrato de Alice? De que estás falando,
homem? indagou tia Luiza.
- O desconhecido- balbuciava- falava uma língua estranha, me
entregou o livro e desapareceu na rua escura. Tentei
segui-lo, mas logo o perdi de vista. O livro estava aberto
na página ilustrada pelo retrato. Como poderia o retrato de
minha filha estar ali naquele livro que parecia tão antigo?
- Deixa-me ver, insistiu tia Luiza, puxando o livro das mãos
de tio Giovani. Jesus, gritou, agarrando-se ao móvel mais
próximo. Mas é a Alice!
Todos correram para olhar o retrato. Estupefatos e
assustados recuavam ao identificar a imagem de Alice, num
velho livro empoeirado. Numa caligrafia perfeita podia-se
ler Bia Medici, filha ilegítima de Cosimo I., pintado por
Agnolo Bronzini.
Mestre Brozino, vim aprender mais tarde, folheando os livros
da biblioteca da escola, foi um pintor renascentista que
retratara toda família de Cosimo I de Medici. Bia falecera
aos 5 anos, por volta de 1542, pouco depois de pousar para o
retrato. O quadro encontra-se em um museu na cidade italiana
de Florença, juntamente com os demais membros da família de
Cosimo I. O que me causou perplexidade é que a menina
retratada era exatamente igual à minha prima Alice- os
mesmos olhos castanhos, cabelos escuros e lisos repartidos
ao meio, a pele clara e delicada e a uma idêntica expressão
de fragilidade no olhar.
Alice era a mais nova de todos e, quando apareceu lá em
casa, nos braços do tio Giovani, não tinha mais do que
alguns meses de vida. Nunca entendemos muito bem de onde
tinha vindo, só lembro que tia Luiza ficara muito esquisita
desde que Alice aparecera.
Ninguém falava muito sobre isto em casa e acabamos por
aceitar a pequena Alice como um presente que Deus mandara
para tio Giovani e tia Luiza, uma vez que só tinham filhos
homens.
Quando Alice ficou doente, todos nós sentimos uma pontinha
de remorso, pois caçoávamos de suas esquisitices, sempre
falando sozinha, contando as pedrinhas no chão ou
balbuciando sons estranhos.
- Pão de meio-quilo, meio-quilo, pão de meio-quilo,
cantarolava pelo caminho até o armazém do Seu Manoel.
Enquanto colecionávamos figurinhas e carrinhos, Alice
colecionava palavras, parecia que guardava-as para depois
repeti-las sozinha.
- Cuidado, Alice, vai direto pra casa. Não se distraia no
caminho, porque sua mãe vai ficar preocupada, insistia seu
Manoel.
Lá ia Alice de volta, sem dar atenção a seu Manoel. Fixava o
olhar no desenho das pedrinhas da calçada. Pedras brancas,
rosas e azuis que formavam um lindo mosaico e, nos dias de
chuva fina de inverno cintilavam como estrelas. Desviava das
brancas para só pisar nas azuis e rosas.
- Se pisar nas brancas, sua vovozinha vai morrer, repetia.
Alice não parecia sentir o frio, a chuva, como as outras
crianças. O que ela via, dizia ou pensava era um mistério
para nós, pois na maior parte do tempo agia como quem
falasse com outra pessoa.
Beto, Jorge, Pedro, Alex e eu arremedávamos seu jeito de
andar sobre as pedras e muitas vezes a vimos correr para
debaixo da ameixeira e ali ficar chorando baixinho, magoada
com nossas peraltices. Depois se recompunha, pegava as
amoras caídas no chão e oferecia-as a alguém que não víamos.
Desde que começou a caminhar, Alice sempre fora diferente
das outras crianças. Nos reuníamos para brincar de
esconde-esconde, de amarelinha ou simplesmente ficar atrás
do muro para jogar coquinho nas pessoas que passavam e Alice
desenhava figuras humanas na areia, para logo em seguida
apagar e começar tudo de novo. Inventava personagens,
dava-lhes nomes e, sempre me dava a impressão de estar muito
distante dali.
No dia em que o desconhecido deixou lá em casa o livro com o
retrato de Bia, completava um ano desde que Alice nos
deixara. Quando o homem se foi, corri para o quarto de Alice
que tia Luiza deixara intacto. Revirei seus brinquedos, suas
coisas, pensando quem teria sido aquela criança que viveu
tão pouco tempo em nossa família e que só nos deixara
mistérios. No fundo do baú encontrei um desenho infantil,
onde apareciam 2 meninas idênticas.
Sob o desenho, os dizeres: Bia e Alice – 1542- 2002. |
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