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O encontro
Ernesto Lindstaedt
Estava sentado em frente ao criado-mudo, com o rosto voltado para o alto, de olhos fechados. Mr. Yang tinha no seu colo um pequeno baú enrolado em brilhante fita de cetim e atado a esta havia um cartão, onde em letras miúdas lia-se, "do sempre teu, Y.". A tarde já ia pela metade, e a chuva que caía desde o fim da manhã entrava pela janela displicentemente, quando Mr. Yang finalmente baixou o rosto, e fitando o bauzinho com olhos arregalados soletrou um fi-lha-du-ma-pu-ta, como se não conseguisse acreditar em algo muito desagradável que lhe acabara de acontecer.
Subitamente levantou-se, repousando o baú em frente ao espelho do criado-mudo, e com passos curtos mas decididos rumou para o armário, de onde sacou um paletó preto muitíssimo elegante, que deitou em seguida com desvelo sobre a cama. Colocou a mão dentro do bolso esquerdo do paletó, com um cuidado de quem mete a mão numa colméia, tateando suave e lentamente.
Encontrou por fim o que procurava, um pedaço de papel roto e amassado, dobrado umas quantas vezes.
O metrô avança veloz e ruidoso enquanto Mr. Yang, sentado em uma das pontas de um banco vazio, repassa mentalmente suas próximas horas. Planejara tudo meticulosamente, mas sabia que qualquer erro poderia custar caro demais. Sentia assim um grande peso sobre seus ombros, um peso que o fazia curvar-se e mirar o chão sacolejante. Por outro lado sabia que depois de hoje tudo poderia ser diferente.
Um arrepio percorreu todo seu corpo ao ouvir a voz rouca e metálica anunciar a estação Île-Sainte-Hélène. Procurou em vão esvaziar sua mente.
Tinha as duas mãos nos bolsos do casaco, ambas fechadas, e numa delas o pequeno papel dobrado. Seu destino estava próximo, e tremia ao pensar nisto.
Assim de longe este cassino parece um disco voador, observou com sarcasmo, enquanto caminhava com passos largos em meio a uma turba de alegres turistas. Aquela visão lhe causava uma desagradável sensação de repulsa, pois nunca sentira atração por pontos turísticos famosos, muito menos pela jogatina, decadente por certo e irracional acima de tudo. Não é meu mundo - murmurou ao entrar no cassino e deparar-se com um imenso vão central de onde vislumbrava os diversos andares que compunham um redemoinho de luzes e música. Experimentou um sentimento de contraditória familiaridade. Dirigiu-se a um rapaz franzino e de olhar parado que estava em pé ao lado da escadaria:
- A roleta americana, por favor.
- Faça a gentileza de me acompanhar, senhor. Por aqui.
Enquanto subia os degraus, tentando não perder de vista seu guia apressado, se esforçava para com a ponta dos dedos desdobrar lentamente o papel. Já em frente a roleta, examinou-o rapidamente com os olhos e o guardou no bolso, com as mãos trêmulas. Converteu vinte e cinco dólares em fichas e sabia agora o que tinha pela frente.
- Todas no número onze, por favor. Todas as fichas.
- Por aqui, Senhor. Monsieur Resnar irá atendê-lo. Por favor, sente-se, fique a vontade. Aceita alguma bebida? Charutos ?
Mr. Yang não estava habituado a tudo aquilo, e não lhe agradava ser paparicado daquele modo afetado, assim como não estava habituado a ganhar mais de um milhão de dólares em menos de meia hora. Um simpático M. Resnar não lhe roubou mais do que quinze minutos numa conversa que lhe pareceu francamente desnecessária, mas praxe neste tipo de negócio, onde aos gerentes cabe a delicada tarefa de identificar personas non gratas ao meio, por assim dizer.
- Uma tarde de muita sorte, senhor Yang.
- Por certo que foi, senhor Resnar.
- Seria muita indiscrição da minha parte saber o que pretende com toda esta soma?
- Vou a Paris hoje à noite. Pretendo tirar férias e visitar um velho amigo.
Monsieur Resnar lhe deu um largo e afetuoso sorriso e lhe passou um pequeno envelope pardo, com os cumprimentos do cassino de Montreal.
Novamente no metrô, balançando em pé num vagão lotado, vasculhava nervosamente com uma das mãos a parte interna do seu casaco. Onde diabos teria enfiado o bilhete para o vôo ? Tinha certeza de tê-lo posto dentro do casaco. Mas qual, simplesmente não conseguia encontrá-lo. Não queria admitir a hipótese de ter que retornar ao seu apartamento, onde certamente seu bilhete se encontrava, mas parecia não haver outra alternativa. Estava já anoitecendo, e agora seria demasiado arriscado.
A chuva havia parado, mas um calor abafado transformara a cidade numa sauna a céu aberto. Estancara em frente ao prédio onde morava, e da calçada encontrou com o olhar a janela aberta do seu apartamento. Sua face crispou-se com a maldita tarefa que tinha pela frente. Era um retorno que não planejara e que não desejava, do fundo da sua alma. Procurou com raiva as chaves no bolso de sua calça.
Empurrou a porta do apartamento lentamente, como se esperasse encontrar alguém no seu interior. As cortinas tremulavam como duas bandeiras brancas, ao sabor de um vento quente e úmido que entrava pela janela. O ruído da rua, com suas buzinas e sirenes, inundava um apartamento vazio.
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