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A
echarpe vermelha
Por Doralina Tomazzoni
Difícil acreditar que a garoa fina e persistente era fruto de
trovões e relâmpagos aterradores, espocados ao longo da manhã.
Nesse clima, eu andei pela cidade atrás de uma encomenda.
Mania que as pessoas têm. Quando sabem que se vai viajar,
começam os pedidos: Me traz isso, me traz aquilo. E a gente
que se vire, procurando loja.
Embarquei no trem à uma hora da tarde, reclinei-me no banco e
peguei no sono. Acordei com o condutor batendo em meu ombro
para saber se eu ia jantar. O horário se esgotava. Dirigi-me
ao vagão-restaurante e sentei no primeiro lugar disponível.
Na mesa da frente, uma mulher loira, na faixa dos trinta anos,
falava e fazia mil gestos. O homem que a acompanhava, de
costas para mim, mantinha-se estático. Fiquei sem entender em
que língua se comunicavam, porque o italiano a meu lado não
parava de contar coisas que vivenciara em sua viagem ao
Brasil. E eu estava interessado em ouvir balelas
sobre meu país?
Minha curiosidade se deteve na loira, que, para o meu gosto, não
tinha beleza nem sensualidade. Mesmo assim, havia nela algo
enigmático que me atraía. Trajava um terninho branco, tendo
uma echarpe vermelha-sangue-vivo enrolada sobre o pescoço
fino e longo. Seus lábios grossos reviravam-se ao falar,
coisa que eu nunca vira antes. Os olhos, enormes, brilhavam e
se movimentavam arregalados, ameaçando saltar das órbitas.
As pálpebras sustentavam cílios enormes e negros,
denunciadores da falsa loirice. Os cabelos ondulados tinham a
cor do trigo amadurando e se escoravam nos ombros. Gestos de
negativas ou afirmativas jogavam as madeixas para os lados,
para baixo e para cima. Não bastasse isso, as unhas, pintadas
de roxo, dominavam os dedos, conduzindo-os ora ao nariz meio
adunco, tentando endireitá-lo, ora ao queixo, empurrando-o
para dentro. Esses atos aguçaram em mim uma vontade louca de
saber do que tratavam.
O casal saiu antes do maldito italiano. Pude ver a cara do
homem – tipo ariano, sobrancelhas cerradas, bigode,
costeletas longas, cenho fechado. A sobremesa nem me pareceu
doce, tal a minha ansiedade. Deixei o companheiro de mesa a
degustar seu vinho tinto e saí. Passei do meu lugar, fui até
o fim do último vagão. Ali, no canto, junto à porta, havia
duas poltronas vazias e ninguém circulando no corredor. Na
volta, eu caminhava na ponta dos pés, queria escutar todo e
qualquer som, qualquer ruído. Alcancei minha poltrona e
sentei com cuidado. Os demais passageiros dormiam. Ouvia
apenas o
ressonar pesado de uma pessoa atrás de mim e o atrito das
rodas sobre as emendas dos trilhos. Abri a janela. O luar
nublado permitia que se vislumbrasse uma região desabitada,
de campo aberto, exibindo um que outro arbusto aperreado, sem
oferecer alternativas diferentes para agradar a vista. Um
bicho semelhante a lebre corria aos pulos, fugindo à
proximidade do monstro que a despertara.
Olhava para fora, mas meus pensamentos emaranhavam-se nas
lembranças da loira. Quem seria? O que tanto falava? E seu
acompanhante, com aquela cara de insatisfeito? Onde teriam se
enfiado? Eu tentava decifrar esse quebra-cabeças, quando algo
passou voando pela janela, quase rente a meu rosto. Deveria
ser uma peça de roupa, comprida. Alguém a colocara para fora
e o vento encarregou-se de empurrar para longe, deduzi. Aquilo
me intrigou, embora conjeturasse que, no vagão da frente, um
insone como eu também bebia o ar campestre noturno. Enquanto
isso, a lagarta de aço, ignorando os movimentos de seu
ventre, desafiava a noite em alta velocidade.
Não sei precisar o tempo em que permaneci na mesma posição.
Cansei. Recolhi a cabeça e a coloquei no encosto da poltrona.
Assim que fechei os olhos, um som diferente me fez abri-los.
Vinha da porta. Um vulto de homem passava ligeiro pelo
corredor. Seus passos leves não desejavam acordar ninguém.
Segundos depois, levantei de mansinho e segui na mesma direção.
No último vagão, as poltronas que eu vira vazias agora
acomodavam um homem que
Parecia dormir. Não pude ver seu rosto, mas seu porte me era
familiar. A imagem da loira me veio à memória, relembrei sua
inquietude e a aparente calma do acompanhante. Para disfarçar,
entrei no banheiro. Ao sair, percebi que o passageiro
misterioso virara-se para o canto. Voltei ao meu lugar com os
ouvidos atentos. Apanhei um livro na valise, abri na página
marcada e me esforcei para ler. Adormeci.
Os ruídos do trem cessaram. Senti o solavanco da parada,
despertei. Outras pessoas também acordaram, assustadas, e
algumas se apressavam para descer.
Nesse instante, apareceu o condutor, perguntando se tinham
visto uma senhora loira, cabelos longos, magra, estatura média.
Ela pediu para avisar quando chegassem naquela estação,
desejava ficar ali.
Então falei: "Eu não a vi, mas penso que sei de uma
pessoa que lhe pode dar informações." Fomos ao vagão
de trás. Para minha surpresa, aqueles lugares estavam vagos.
"Já devem ter saído", comentou o homem. "É
...", eu disse, sem muita convicção.
Quando desembarquei, tive a intuição de olhar embaixo do
trem. Presa nas engrenagens, uma tira de pano, enegrecida de
graxa, conservava um pedaço com a cor original - vermelha. |