Deus, meu amigo
imaginário
Bernardo Moraes
Deus colocou a xícara de chá sobre a mesa com toda a calma do
mundo.
– Me conte as novidades – disse ele.
– Eu esperava que você as conhecesse todas.
– Se eu soubesse, não seriam novidades.
Tomei um gole do meu capuccino. O cheiro do bolo quente sobre
a mesa me trouxe lembranças da infância.
– Tudo velho – eu disse, sem vontade de conversar.
Deus levantou-se e foi até a janela. Uma chuva fina caía sobre
a cidade naquela tarde de início de outono.
– Você tem razão – disse ele, um ar triste – Tudo continua
igual.
E ficou quieto por longos minutos. O silêncio profundo de Deus
começou a me incomodar.
– Mais bolo?
– Sim, por favor – disse ele, voltando para a mesa.
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