Confirmação

Guido Kopittke

Éramos quinze confirmandos perfilados nos primeiros bancos da igreja. Eu suava frio, beirando o desespero.

Dei uma olhada de canto de olho para trás e vi a igreja lotada. Uma turba de sádicos, de olhos arregalados e sorriso cruel, tal qual multidão babando em execução pública.

No banco atrás do meu estava sentada Carolina. Pude vislumbrar, num décimo de segundo, sua carinha de anjo, séria. Estava linda no seu vestido branco.

- Quarto mandamento. - O pastor lançou seus olhos frios por sobre a turma.

Metade levantou as mãos. Eu não.

- Carolina, por favor.

Virei-me para trás e olhei-a com toda a força da minha paixão.

- Honre o seu pai e a sua mãe. Que significa isto? Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não desprezar nem irritar nossos pais e as pessoas que têm autoridade sobre nós; mas devemos honrá-los, servir e obedecer-lhes, amar e querê-los bem.

Ela recitou tudo sem nenhuma falseada, em voz alta, cristalina, segura. Me perguntei se ela acreditava mesmo naquela decoreba, se era inteligência ou se estudava muito. Imaginei-me ao seu lado, lendo o catecismo, cheirando seus cabelos, olhando suas pernas, espiando seu decote...

- Oitavo mandamento.

Deveria levantar a mão agora, mas meu braço não obedecia. Depois viria o Credo Apostólico com sua ladainha comprida e eu me ralaria, com certeza. Sempre abominara decorar coisas, mais ainda quando era obrigado. As aulas de catecismo foram um suplício. Acabei granjeando a antipatia do pastor, por causa da bagunça e do desprezo com que tratava as coisas sagradas.

- Terceiro mandamento.

Meu coração disparou. Não deveria ficar tão nervoso. Ninguém iria rodar se não conseguisse falar aquelas coisas. Depois do exame viria a celebração da confirmação e o ritual da santa ceia de qualquer maneira. O único problema seria errar, gaguejar, passar vergonha na frente de todo mundo. Ainda mais ali, na frente da Carolina.

- Primeiro mandamento.

Levantei o dedo depressa. O pastor não me chamou. Claro, deixou o facilzinho para o Armando que sempre foi puxa-saco e bem comportado.

- Vamos passar para o Credo Apostólico. Quem pode nos explicar o primeiro artigo? - Só um dedo. O pastor não escondia seu sorriso sádico. - Por favor, Elton. 

- O primeiro artigo é o da criação...

Por que eu não tinha me comportado direitinho, como os outros? Por que eu tinha de fazer bagunça e matar as aulas de catecismo para jogar botão? Por que eu não conseguia me concentrar e decorar as ladainhas? Agora viria a vingança.

- Terceiro artigo do Credo? Nenhum voluntário? - Ele inclinou a cabeça de lado, me olhou com um sorriso piedoso e executou sem clemência: - Germano, por favor?

Levantei sentindo o sangue transformar minha cara num tomate. Ainda se fez de bonzinho, o hipócrita.

- O terceiro artigo é o da salvação. Não, é o da santificação. Creio no Espírito Santo, na santa igreja cristã...

Fiquei uns quatrocentos minutos tossindo, gaguejando e corrigindo. No fim, desabei no banco. Fiquei com vontade de sentar debaixo dele e morrer ali.

Terminados os rituais todos, na saída da igreja, tive de aturar a cara feia dos meus pais e a indiferença de Carolina. Meu padrinho me consolou:

- Parabéns, Germano. Sabias que quando eu fiz o exame para a confirmação me deu um branco e eu não consegui dizer nada? Até que te saíste muito bem. - Aninhei-me debaixo do abraço acolhedor dele e fomos para a festa.

Foi em casa. Assamos galeto e comemos numa mesa grande de tábuas no pátio. Meus padrinhos, tios e primos compareceram. Ganhei presentes, dinheiro, me senti importante.

- Com essa grana eu finalmente vou poder comprar um time de botão, novinho; todo de galalite; defesa de três camadas e ataque de duas. Meus cacos velhos vão pro banco de reservas.

- Eu escutei tua mãe falar que já era hora de tu pensares no futuro e que seria bom comprar um faqueiro de inox de setenta e duas peças.

- O quê? A velha está é ficando louca. A grana é minha e eu vou comprar o meu time de botão.

No dia seguinte, cheguei da escola e me deparei com a confirmação: minha mãe me olhando com um sorriso piedoso e um faqueiro de setenta e duas peças todo arrumadinho na mesa da sala.