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Colisão
Carolina Côrtes
Depois de largar Pedro, Ana entrou na ruazinha para manobrar o carro e estacionar na frente do edifício de sua amiga Ju. Imbicou o Gol cinza em uma garagem, engatou a marcha-ré e começou a soltar o pé da embreagem devagar.
Blam! fez a traseira do carro, e em seguida Ana percebeu que havia batido bem na luz pisca-pisca esquerda da frente de um Escort, daqueles do modelo antigo, bege metálico, pára-choque pintado. Droga, droga, droga, droga! Que imbecil estúpida idiota! E viu que o guardinha magrelo da rua ficou olhando, e uma mulher morena com uma criança parou do lado do carro. Extremamente irritada, Ana terminou a manobra - dessa vez sem bater em qualquer veículo - e estacionou o carro mais à frente. Fechou o vidro, tirou o som, colocou dentro da bolsa e avistou, pelo pára-brisa, que a mulher continuava ao lado do carro. Saiu, fechou a porta, ligou o alarme e foi até a mulher morena.
- É teu esse carro?
-Não, mas acho que é de uma vizinha. Minha menina foi ali tocar no interfone pra chamar ela.
- Ah, que bom.
Droga de filha da puta defensora dos fracos e oprimidos. Tinha que chamar a dona, né? Claro, quem vai se incomodar sou eu. Eu vou ter que dar meu telefone, e esperar a dona do Escort, que é tão relaxada que não tem tempo pra mandar lavar o carro, olha a imundície que está isso, eu, justo eu, vou ter que esperar essa relapsa fazer os orçamentos da lâmpada, e se ela for bem viva - e quem não é bem vivo nesses dias de hoje? - vai colocar no orçamento esse pára-choque velho que eu garanto que já estava arranhado, mas é óbvio que a dona Escort Hobby não vai perder essa oportunidade. Sou eu que vou ter que lidar sabe-se lá quantas vezes no telefone com essazinha, e depois disso desenbolsar um cheque de um dinheiro que eu não tenho e que vai para um orçamento superfaturado dessa senhorita. Filha da mãe, tu vai pagar no purgatório.
- Mãe, ninguém responde no 203.
- Que pena...
- Ela deve estar trabalhando. Ela trabalha ali naquela rua, se tu quiser ir falar com ela, disse a morena, e foi-se afastando pra entrar no edifício.
- Ah, sim...
- É num edifício branco com azul, o nome da empresa é Tríade...Se tu quiser falar com ela... e foi se afastando, como quem acha que está bancando o juiz, mas de súbito se arrepende e resolve não querer mais arbitrar, pensando que quando as dificuldades aparecem pelo caminho, era porque a vida funcionava assim, e que se a dona do Escort não estava em casa na hora que a menina dela foi avisar, de repente era porque deus fazia justiça e a chata do 203 bem que merecia ter que pagar por uma luzinha pisca-pisca de vez em quando, pra aprender a parar de desperdiçar água lavando cachorro, e depois, quanto deveria custar uma luzinha pisca-pisca laranja de um Escort antigo?
Certamente não uma exorbitância, ainda mais se ela fosse naquelas oficinas da Sertório, periga não dar nem vinte pilas...E entrou no edifício, e Ana ficou parada na frente do Escort, pensando se ia até o edifício azul da outra rua, cuidando para ver onde andava o guardinha magrelo, perguntando-se como o seu pai agiria naquele momento. E então, sentindo-se uma mulher pobre, porém honrada, tirou da bolsa seu caderninho de anotações, e começou a escrever:
"Dei ré e sem querer quebrei teu pisca-pisca. Desculpa. Se quiseres acertar, me liga: 3362-5798. Desculpa, Ana"
E colocou no pára-brisa do carro, do lado do motorista, um bilhete honesto e direto, não fosse pelos últimos algarismos do telefone.
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