A classe dominante vai ao paraíso

Hilda Pedrollo

Ai, meu Deus. Ai, meu Deus, o que é que eu estou fazendo. Devo estar ficando maluca. Ele tem idade pra ser meu filho. Certo, mas não é. Não é. Respira fundo e repete comigo: devemos aproveitar o que a vida nos oferece. Droga, essa garagem não era tão apertada. Tudo bem. Calma. Tem tempo. Tem tempo até pra desistir. Eu posso desistir. Ah! Consegui.

- A senhora acha que tá ficando bom? Se não gostar, eu faço de novo. É só dizer. Se a senhora precisar de qualquer coisa, meu nome é Marcelo. 

Há quantos meses eu fujo daquela criatura linda, há quantos meses evito ficar sozinha com ele no mesmo espaço. Mas como negar que os meus olhos procuram por ele sem querer, que o meu dia fica melhor quando ele me sorri aquele sorriso de dentes perfeitos. Como é possível ter aqueles dentes? Como não sentir aqueles olhos azuis me seguindo quando eu passo? Como não bendizer esse calor horroroso que o faz trabalhar sem camisa?

Certo. Toda a atenção para o trânsito. As sinaleiras fecham, os lotações param. Os idiotas cortam a nossa frente. Não vamos fazer nenhuma bobagem. Quer dizer, não vamos fazer mais uma bobagem, uma bobagem extra, absolutamente dispensável, que me atrasaria e o deixaria lá parado me esperando sem saber o que aconteceu. Calma. Está tudo sob controle.

Entre lajotas e blocos cerâmicos, dou com aquele olhar que me faz esquecer as frustrações, as cobranças. Até a lista do súper e o material de baixa qualidade que eu não mandei comprar. As aberturas que estão mal localizadas. O sistema de ventilação que precisa ser modificado. Mas o lugar vai ficar ótimo. A cor das paredes e o revestimento do piso darão o toque final. 

Por que não? Ele não serve pra mim? Então me diga quem serve. Tá, eu sou muito legal. Eu sei. Mas e daí? O que é que eu ganho com isso? Ele também é legal. Eu acho. Além do mais, ninguém precisa ficar sabendo. A menos que ele diga. E se ele disser? Azar. Sempre gostei de pensar que não tinha preconceitos. E se alguém souber? 

- Essa parede vai ficar bonita, bonita que nem a senhora. Quero que a senhora fique satisfeita com o meu trabalho. Gosto quando a senhora vem aqui. Sabe, eu não vou trabalhar sempre nisso. Sou ambicioso. Vou voltar a estudar e quero fazer um curso de modelo. Não gosto de me gavar, mas sou muito vaidoso. 
Retirei um fiapo invisível da minha manga. Gabar! Gabar! Sorri. Certo, não sejamos elitistas.

- A senhora se incomoda se eu lhe disser uma coisa? Posso lhe chamar de tu? Eu te acho muito bonita. Gosto muito quando tu vem falar comigo, sei lá, é uma coisa especial. A senhora me desculpa, mas eu tinha que dizer isso. Faz um tempão que eu te olho, mas não tinha coragem de falar. Tu podia não gostar, e eu ia perder o emprego. Eu preciso dele agora. 

Qual é o problema em sair com alguém de, digamos, outro mundo. Certo, não posso discutir os rumos da política nacional com ele, mas quem quer discutir política. Que merda, também. A vida é minha, e eu não devo explicação pra ninguém. Ó, paradoxo. Tudo continua tão confuso, tão enrolado quanto antes, e o que é pior: estou mais velha. Bem mais velha. Pensei que aos 40 tudo passasse. Ledo engano. Tudo passa quando ele me olha. Queria ser a mulher que eu vejo nos olhos dele. 

- Vou ser sincero contigo: eu sou, assim, enrolado. Mas nem uso aliança. A gente não escolhe o que vai sentir, né? Eu não escolhi sentir o que sinto por ti. O meu anjo disse que eu ia conhecer uma mulher mais velha, que ia me apoiar. 
No local combinado, ele me espera. Agora não tem mais como desistir. Eu não quero mais desistir. E de repente cá está essa magnífica obra da natureza ajoelhada aos meus pés, sem camisa, as mãos subindo pelas minhas coxas e erguendo a minha saia. Ai, meu Deus. Ai, meu Deus.