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O
círculo do tempo
Fabiane de Castro Ribeiro
O tempo passou a ter pouco sentido depois daquela noite. Em
uma sexta-feira chuvosa, Pedro estava na estrada, acabara de
sair de casa e de repente percebeu o vulto de um homem
abanando os braços, querendo chamar a atenção de quem
passasse primeiro. Tentou frear, mas a pista molhada fez o
carro perder o controle e acabou caindo em um perau de quase
oito metros de altura. Quando abriu os olhos, não sabia
quanto tempo havia passado e com muita dificuldade conseguiu
sair do carro - que mais parecia um amontoado de ferros e
cacos de vidro.
A dor em suas pernas estava insuportável, preferiu procurar
ajuda em um vilarejo próximo, que estranhamente descobriu
por perto, ao invés de tentar subir até a pista.
Surpreendeu-se por nunca ter notado aquelas luzes da
estrada, mas seguiu a pé para buscar socorro.
Passou pelo pórtico imenso que lhe dava as boas vindas e
mais intrigado ficou quando se deparou com aquele lugar,
deserto e iluminado por candeeiros pendurados ao longo das
fachadas das casas. Reparou nos valos abertos que se
estendiam dos dois lados da rua e por onde percorriam os
esgotos da vila, apenas um passadiço de madeira unia a porta
de entrada de cada casa a esta rua de argila vermelha
batida. Pensou estar vivendo alguns séculos atrás e resolveu
seguir adiante para descobrir o inexplicável nas próximas
esquinas.
Virando à direita, a rua se transformara. Iluminada à
energia elétrica, mas igualmente deserta, pareceu familiar.
As calçadas revestidas de basalto, separadas por uma longa
via de paralelepípedo, fizeram lembrar dos tempos que
brincava na casa de seus avós. Sentiu o cheiro da goiabeira
em que tantas vezes subira para apanhar frutas para a avó
fazer doce. Esqueceu da dor nas pernas e continuou seu
caminho. Não chovia mais. Notou pela primeira vez que havia
setas indicando um sentido único e era o sentido que seguia.
Mais uma esquina e a revelação de que agora andava sobre sua
própria rua e reconheceu cada casa e chocou-se ao se ver
saindo para viajar, minutos antes de cair naquele barranco.
Perdeu a respiração, escondeu-se atrás de um muro, e mirou
cada gesto se repetindo como antes. O aceno a seus pais. O
esquecimento da carteira que o fez entrar de novo em casa.
De novo outro aceno. Ligou o carro e saiu. Pedro, atordoado,
voltou correndo, tampouco sentia as pernas, fez o mesmo
caminho, agora em sentido contrário ao indicado nas setas.
Pensou ter saído no mesmo lugar, mas não viu o carro, teve
forças para subir os quase oito metros e chegar à estrada
para pedir ajuda. Queria unicamente sair daquele lugar e
esquecer o que viu. Parou na beira da pista e começou a
acenar para o primeiro carro que passasse. A chuva retornou.
Um carro tentou parar, mas caiu os quase oito metros de
altura.
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