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Circo de Espelhos
Helena Sant’Anna
Supunha facilidade. Na verdade era tudo muito simples e de uma rapidez impressionante. E era exatamente disso que precisava agora: acertar e não recorrer ao erro. A cada passo que dava, ensurdecia com as vozes e o girar das roletas. No entanto, com a mesma intensidade era absorvido por eles. Era outra pessoa. Parecia ter deixado na entrada principal a imagem desgraçada de um fracassado. Permitia-se ser lá dentro o que não podia. Acreditava no risco, porque tinha em mente que, para aqueles abençoados pela sorte ou mesmo iludidos por ela, sempre haveria uma chance. E talvez fosse essa a sua derradeira.
Uma dose, duas, ou quantas mais: já não havia pressa. O copo cheio desse líquido sem gosto - pensou - por vários momentos fez lembrar seu pai e um tempo que não fazia mais parte de sua vida. Uma imagem de novo lhe veio à mente.
- Que bobagem você anda dizendo por aí, menino? Não duvide nunca da sorte e do
bem que ela pode fazer para alguém. Não espere nada dos outros. Arrisque-se.
Seus olhos fitando-o diziam mais do que aquelas malditas palavras. Malditas porque o aprisionaram desde o dia em que se viu homem, que se viu dono de si. E sua mão, então, caminhando nervosa sobre a mesa, bulindo o seu velho lenço xadrez. Sinal de intolerância e impaciência.
Besteira, por que lembrar disso agora? De nada adiantaria.
- Mais uma dose, por favor.
Sentia-se forte agora ao lado da bebida. Entorpecido por ela, num movimento quase cilíndrico, percorreu o ambiente com uma avidez desesperada. Seus olhos já não o acompanhavam mais. Não lembrava há quanto tempo estava naquele lugar. Eram quase sempre os mesmos rostos, as mesmas vidas, os mesmos desesperos e vícios que os prendiam ali. Perdera a conta de quantas vezes voltara. E sua cabeça pendeu. Sabia que já não era o mesmo de anos atrás. Os seus traços senis denunciavam a invalidez de sua vida. Os sulcos presentes em seu rosto desmentiam a vitalidade e o tempo vindouro. Num ato involuntário, rendeu-se à roleta à sua frente.
- US$ 50, no 24.
Coincidência: não era apenas a roleta que girava em busca de um destino certo. Sua vida, também, havia muito tempo fora lançada à sorte. Em vão. Dissimulou um sorriso enquanto a esfera, agora quase sem força, escolhia caminhos inversos aos dele. Não havia sido a primeira vez.
Seu pai outra vez lhe veio à mente, como um roteiro de um mesmo velho filme inacabado. Lançou os olhos ao seu redor, como que à espera de um milagre. Não que acreditasse nele. Pelo contrário, os seus dogmas religiosos se dissiparam na infância com a morte da mãe. Alguém ao seu lado arriscou um palpite ao croupier. Lembrou-se das inúmeras vezes que, inerte, esperava que alguém recolhesse a sua sorte e as suas fichas espalhadas e inúteis sobre a mesa.
Demorou a perceber que agora os caminhos eram outros. Havia chegado aonde nenhum homem merecia estar. No fim. As luzes e os rumores daquele lugar lhe causavam sensações contraditórias: ora o fascínio, pela possibilidade de ter de volta o que lhe pertencia; ora a culpa, como um juiz impiedoso que o condenava, sempre, por ter seguido os mesmos passos do pai. Este que lhe mostrou desde cedo o retrato da miséria.
Por quanto tempo a imagem daquela mão aflita e nervosa sobre o lenço ficaria em sua mente? Por que sempre esse tormento? Por que não lembrar da mãe, pobre criatura à espera de uma mão firme que lhe guiasse os passos até o fim da vida? Não. Era a imagem do pai que lhe perseguia.
Decidiu mais uma vez tentar. Talvez a sorte lhe devesse algo. Esperou por mais uma dose daquela bebida torpe. Ao senti-la dentro de si, num ímpeto, arriscou vencer seu medo.
- Preto, 16. E com as mãos ainda trêmulas empurrou para o centro da mesa todas as fichas que lhe restavam. O suor denunciava o seu temor. Era como se todos ali soubessem de todas as suas dívidas. O girar da roleta agora lhe causava náusea. A mesma que sentira ao lembrar o pai, velho, teimoso e falido na mesa de um bar. A roleta parecia mais lenta agora, sem pressa de denunciar o seu fracasso. O suor descia, frio e impiedoso; era como se a todos dissesse: - Olhem para este homem, fez um nada de sua vida.
Silêncio. A roleta enfim decidiu parar. Novamente o silêncio. Disfarçou o olhar incrédulo para o círculo à sua frente. A esfera teimava por lhe mostrar que vencera. Uma – e tão esperada - vitória. Palavra esta que já não lhe pertencia. Talvez a única de uma vida toda. E não havia mais importância. Um murmúrio ao seu lado. De fato, ganhara! Seria isso? Ainda custava a crer.
Seu pai teimava em lhe tornar à mente, com um gargalhar desmedido e sórdido. Como que a dizer: - Tarde demais. É o fim da linha, rapaz!
Embriagado, levantou-se trôpego, colocou no bolso o cheque, e deixou o seu corpo afinal lhe dar o destino. Tomou o caminho da rua. Sua mente confusa pelo turbilhão de pensamentos merecia um descanso. Sua mão inquieta dentro do casaco lembrou de novo seu pai. Estranho como o compreendia agora. Mesmo que o sentimento fosse de permanente repulsa.
Suas pernas já não lhe pertenciam. Percorrendo os mesmos caminhos, por tanto tempo, emanciparam-se do corpo. Sua alma, nesse momento mais leve, não aceitava o que estava por vir. Até mesmo as luzes das casas por onde passava pareciam inquietar-lhe. Embora andasse com o corpo esguio à altiva, sem as sombras da vergonha e da derrota, ainda não conseguia fugir do rosto impiedoso do pai: esta sombra lhe pertencia para sempre.
Subiu os degraus da velha escadaria como se fosse uma lenta e última peregrinação. Ao entrar no aposento, tudo lhe pareceu como antes: exceto pelo valor em seu bolso. Este era a denúncia de quão tola havia sido sua vida. Ao desviar os olhos de seus pensamentos, encontrou-se no espelho. Viu nele, novamente, os traços do pai. Percebeu o quanto estava impregnado dele. E a repulsa desesperada lhe invadiu, de tal forma que lembrou da arma. Ironicamente a única herança deixada pelo pai.
Silêncio. A roleta decidiu enfim parar. Novamente o silêncio. O olhar gélido para o nada à sua frente. A esfera teimava por lhe mostrar que vencera. Vitória. Palavra esta que já não lhe pertencia. Talvez a única de uma vida toda. E não havia mais importância.
Agora a mão fria e já sem movimento, agarrada ao bolso, - como nunca - parecia lembrar a do pai.
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