O Centauro 

Angela Pinto

De longe era o vulto do centauro. Aos poucos, o galope trazia à vista um homem de pernas decepadas sobre o cavalo.

- Heia, heia, bicho mole! Te fresqueia e te meto o relho no cu!

Falava curto, a voz grave na garganta. Jacinto Teixeira Gomes virou Seu Toco por vir ao mundo só tronco. Dona Tonica montara numa égua manca durante a gravidez. E dizem que cria de mulher prenha que anda em animal estrupiado nasce torta. Vai discutir com a vontade de Deus?

Aos quatro anos de idade, o menino Toco ganhou um presente. O pai carregava a cena na memória. Disse:

- Toco, hoje tu vai começar a ser inteiro.

Botou o filho nas costas e levou-o para a cocheira. O guri farejava o ar branco do inverno, o corpo atento, pesado de pressentimentos. De repente o ouvido captou o relinchar de um animalzito recém-chegado. Na sua frente, um graúdo mouro, já encilhado, torcia o pescoço, caborteiro.

- Daqui pra frente, estas são tuas pernas.

Os olhos do menino berravam de alegria, os braços, estendidos, queriam agarrar o que o mundo lhe dera. Fitaram-se, duas espécies, pedindo-se mutuamente. O pai deu uma ordem e o cavalo ajoelhou-se. Colocou o filho no chão:

- Toco, agora te vira.

Do intestino bagunçado explodiu um gás grosso.

- Ô!, porco. Te peidando de faceirice?

Ele escalou o bicho como se sorvesse mate.

- Agora, piá, trata de botar nome na criatura.

Toco apertou os olhos, vasculhando na mente as coisas de que mais gostava. Estalou:

- Vô Índio!

- O quê? Mas é tinhoso. E a gente pode chamar um animal de vô?

O corpinho contraiu-se, envergonhado, o queixo tocando o peito:

- E Índio, só Índio, sem vô, pode?

- Meio esquisito…se teu vô não entender como ofensa, então pode.

- Índio, só Índio, vamo embora! Saíram os dois, atropelando o pasto gelado. 
Daí pra diante, se Toco aparecia era com o Índio por debaixo.

Findo os estudos de campanha, Toco estreiou na lida. Percorria estâncias, anunciando enterros, casamentos, batizados, bailantas, levando correspondências. Nas ancas de Índio, um amontoado de mercadorias do bolicho do Juca: querosene, sal, arroz, feijão, cortes de fazenda, tamancos, panelas. Era bem vindo em todos os pagos, conhecedor profundo das tragédias e alegrias de cada vivente. Vivia bem: ao amanhecer o chimarrão; à tardinha, a prosa regada à cachaça; e quando Deus permitia, Tia Gerusa.

Tia Gerusa era uma puta velha, dona de um estabelecimento da zona. Uma mulher gorda, o sorriso escancarado mostrando as teclas douradas. Exalava um odor forte, mistura de fumo, suor e pó-de-arroz. Seu Toco sonhava morrer com o rosto mergulhado nos seios fartos da potranca. Ah! As coxilhas do amor. Quando chegava à porta da casa, caprichosamente ladeada por roseiras, ele gritava:

- Cadê minha china velha?

Tia Gerusa aparecia correndo, balançando sua flacidez, trazendo na face redonda a euforia da infância.

- Ô, Toco! Onde é que tu te meteu, seu bagaceiro?

Então, como a um filho, ela o acolhia nos braços. Suas figuras fundiam-se num abraço sôfrego. Ele tirava lascas suculentas dos lábios da prenda. Quando o chinaredo via o par entrando no quarto, sabia que era coisa de amanhecer o dia.

Ao som longe da gaita do Maneco, homem e mulher dançavam. Ela dividia o cotidiano do puteiro : o novo cliente, a eletrola, que mandara vir da capital, a fuga de Joana com um capataz, a prenhez de Anita. Seu Toco tragava a bagana, enquanto os dedos àsperos brincavam nos mamilos da fêmea. Falava de coisas mundanas, fofocas, causos, e os dois riam frouxo, esguichando vinho pelas narinas.

- Tu é que nem jóia no esterco, minha china velha, que nem jóia, resmungava, tascando-lhe um beijo na testa enrugada.

- Consumiam-se tal fogo devorando lenha: a avidez penetrava a caverna úmida e experimentada. Como se amavam! Adormeciam exaustos, como anjos aninhados sobre o colchão nu. Os lençóis abatido no combate, restavam molhados no assoalho.

Ao cantar do galo o homem estaria pronto para a costumeira jornada. Tia Gerusa servia-lhe leite e café, morsilha frita, queijo, broa de milho.

Numa destas tardes amajentadas, Gerusa esperou-o com gestos opacos. Seu Toco estranhou-lhe a expressão de quem ia chover . Foi logo atropelando.

- Toco, tu nunca pensou em ter cria?

- Que conversa é esta, minha chinoca?

Ela insistiu, séria:

- Nunca pensou?

Seu Toco sentiu a prosa meio atravessada. Tia Gerusa já tinha passado do tempo de fazer guri. Teimou:

- Pois me chama aqui pra perguntar bobagem? O que é que tu quer, mulher? Cospe de uma vez!

E a dama gasta, com as sobrancelhas retocadas de crayon, falou:

- Só queria que tu soubesse… Se eu pudesse ter cria, que fosse tua.

Seu Toco encarou o Índio, peleando com a doçura: “Essa velha tem cada uma…” Imaginou-se segurando um tantinho de vida, uma estátua de presépio, um menino Jesus, deixando as porteiras abertas para um sentimento que não saberia traduzir como sagrado. E vigiando o desamparo da companheira, acariciou seus cabelos espessos de laquê. Tia Gerusa respondeu afagando os calos de suas mãos, antes de voltar a ser a de sempre:

- Preciso entrar. Nem apeia que é dia de faxina. Te manda, homem, que hoje a noite é espichada.

Seu Toco enveredou para o rumo do sol, repetindo as palavras de Gerusa: “que fosse tua.” E ralhando com suas emoções, falou num tom de deboche:

- Esse já nascia condenado a virar causo: filho de uma puta e de um aleijado.

Índio relinchou.

- Tu fica quieto que eu não te pedi opinião, pangaré!

E o cavalo, vivendo sobrenatural, já com mais de meio século, acataria paciente o ranço carinhoso do dono.

- Heia! Vamo, bicho passarinheiro! Tu é velho mas não é morto.

Aos poucos o galope diluiria os contornos de um pouco menos ou um pouco mais que um homem. No horizonte dos pampas, restaria o vulto do centauro.


*Angela Pinto é natural de Porto Alegre, tem 28 anos, é formada em Publicidade e Propaganda e trabalha com design gráfico