Audiência

Gecy Belmonte

Não agüentaria. Tinha certeza disso. Há noites vinha imaginando como seria o encontro na frente do juiz. Quando teria que responder, primeiro sozinha, depois frente à frente com Paulo, se de fato queria se separar. Não, não queria. Esta era a questão. Já fazia oito meses que o casamento tinha acabado. Mas não a esperança de que as coisas um dia se ajeitassem. De que ele finalmente descobrisse que a paixão pela outra era efêmera e voltasse para casa.

Desde o domingo em que o ex-marido partira, tinha conduzido sua vida como um freqüentador dos Alcoólatras Anônimos. Cada dia era um dia vencido. Acordar, reunir forças para levantar, arrumar os filhos, arrumar a si própria, dirigir até a escola e depois à editora, onde fazia a revisão da prova dos livros que dormiam na fila à espera da publicação. Pegar as crianças ao meio-dia na escola, almoçar, deixar no inglês e rumar ao trabalho novamente. A noite retornar para casa, enfiar a chave na porta, acender a luz, ligar a televisão - o som de vozes diminui a solidão – ajudar os filhos nas tarefas escolares, dar o jantar, preparar o lanche para a manhã seguinte, engolir qualquer coisa, tomar o remédio para dormir e ver mais um dia avançar.

Mas esse pequeno ritual de sobrevivência não espantava o terror do juiz. Quanto mais se aproximava a data da audiência mais nervosa ficava. As mãos tremiam, a boca secava e o estômago doía só de pensar. E havia ainda a pressão do ex-marido para formalizar a separação rapidamente. Nem lhe dera tempo pra digerir o pânico e a perda depois de tantos anos juntos. “Age como quem quer se livrar de uma praga ruim”, constatava sua irmã Teresa.. A audiência simbolizada, sabia, a concretização da ruptura de algo que já estava roto há muito tempo. Mas mesmo assim, havia um querer se agarrar naquilo que nem ela entendia direito porquê. Ou até entendia, era perder uma certa valia que cerca as mulheres casadas, a segurança, por mais pseuda que fosse.

- Você aguentará, tenha certeza, dizia Ana, a melhor amiga. Nós estaremos lá, junto com você, esperando do lado de fora da porta. E esse canalha não achará o caminho da saída.

As palavras da amiga, no entanto, traziam pouco conforto. Para falar a verdade, nenhum. No momento nada servia de remédio. Qualquer sensatez era substituída pelo ódio, um ódio que lhe fazia desejar todos os males do mundo para Paulo e para a outra que havia ocupado seu lugar. “As mulheres são como as cidades. Depois de desvendadas perdem o encanto. Essa também passará”, dissera um amigo em uma tentativa desastrada para consolá-la.

Tudo era tão insensato, pensava. Como a vida pode mudar tão depressa? Por que o final dos casamentos não era simples, como bater a porta e sair? Por que todo fim precisava ser carregado de dor, de solidão, de culpa? Por que não conseguia reduzir a importância do ex-marido à dimensão das cinco letras que formavam seu nome: P-a-u-l-o... Pensando assim até que era fácil. Apenas um nome, bem comum, por sinal. Apenas mais um nome, como os milhares de anônimos que lia diariamente no jornal.

Mas havia a maldita audiência, que se aproximava como um animal selvagem a espreita da caça. Não havia como não ir. Nem procuração aceitavam. Engraçado, casar por procuração podia. Acabar por procuração não. Vá lá entender a lógica das leis, murmurava para si mesma.

Era um caminho sem retorno. E já que não dava para andar para trás. Teria que enfrentar. Não era fraca, tampouco covarde. Daquele dia em diante iria repetir minuto a minuto: acabou. E conjugar esse verbo em todos os tempos, os reais e os imaginários, até olhar a cara do juiz no dia 20 de março, coincidentemente um dia após o seu aniversário de casamento. Seria fácil entrar, responder sim, quando o juiz perguntasse se queriam mesmo efetivar a separação, assinar o papel, jogar fora a aliança e esperar a vingança. Ah! Essa viria, era só uma questão de tempo. Dias ou anos, mas viria.

-Aqui se faz aqui se paga, afirmavam a mãe e a avó -, cada vez que alguém contava ter visto o ex-marido com a outra, no restaurante x, no cinema, na praia. E a vingança seria sublime pensava. Seria como o prazer dos malucos islâmicos que detonam o próprio corpo em busca do paraíso. Queria que ele sofresse muito, mesmo sendo o pai dos seus filhos. Afinal era a possibilidade da vingança que a mantinha viva . Seus santos de devoção nunca a haviam deixado na mão. Santo Antonio, Santo Expedito, os santos das causas impossíveis e urgentes que realizavam todos os milagres, asseguravam Ana, sua mãe e suas tias. Já havia perdido a conta de quanto gastara em velas de Sete dias acesas em casa, na igreja e nas simpatias que fizera para azedar o namoro do ex-marido.

No trabalho agia quase automaticamente. Entrava, sentava no seu canto e lia páginas e páginas, marcando com laranja os erros de ortografia que encontrava no texto dos candidatos a escritor. E eram muitos. Ninguém se atrevia a lhe dirigir a palavra. Era como se o luto estivesse estampado na testa. O luto das mulheres abandonadas. Pior que a viuvez, pois contra a morte não se pode fazer nada, cumpriu-se a vontade de Deus, pensava.

Enquanto esperava a audiência com o juiz foi rezando, rezando muito e repetindo para si mesma “esse homem não existe. É só um nome, formado com cinco letras, sem rosto, sem lembranças”. Para ajudar na operação, fez uma limpeza geral. Queimou todas as cartas, retratos e flores secas guardadas em páginas dos livros para marcar momentos que julgara importantes. Só não jogara fora a aliança. Ainda não tivera coragem.

E março chegou. E o dia 20 também. Estava até bem quando acordou. Tomara um calmante tarja preta, é claro, pois ninguém é de ferro. Vestiu o melhor vestido – aquele vermelho, que ele gostava . Pintou os olhos, a boca, calçou o sapato de salto. E foi. Sozinha. Não queria testemunha nenhuma. Pelo caminho foi repetindo baixinho “você não existe, é só um nome com cinco letras e cinco letras não servem para nada, podem ser substituídas pelo alfabeto inteiro”. Entrou no Fórum, encontrou o advogado. Entrou na sala e encarou a ave de mau agouro, com a toga preta e os óculos de aro fino. Embora fosse jovem, correspondia ao perfil de ave de rapina que lhe tirara tantas noites de sono.

Olhou o juiz, e aquele sujeito estranho que estava postado a sua frente. E aí não soube mais o que aconteceu. Quando o juiz formulou a primeira pergunta, seus lábios falaram sozinhos: acho que há um engano meritíssimo. Nunca vi esse homem na minha vida, como ele pode estar querendo se divorciar de mim? Aliás, vou processá-lo por calúnia, perjúrio e difamação. Deu as costas para os dois sujeitos atônitos e nem entendeu o alvoroço dos advogados. Lá fora, o dia ensolarado era um convite a qualquer coisa que desse prazer. Fechou os olhos, aspirou a brisa e então viu o alfabeto inteiro desfilar na sua mente. Quantos nomes podiam ser formados com cada letra? Milhares de possibilidades, sorriu, acelerando o passo em direção à praça.