|
A sorte do maestro Lissenko
Andreza Cunha
Esta não era para ser uma carta de despedida, Catarina. Tudo deu tão certo nas últimas semanas. Eu queria contar-lhe pessoalmente as boas notícias, mas você saberá pelo sr. Dimitri Kamarof. Ele será um bom amigo e cuidará de você. Eu rezarei pelos dois e por nossa pequena Anna. As coisas ficarão nos seus lugares agora. A casa está como você a deixou: limpa e arrumada. Mas não estarei aqui quando você e Anna voltarem. Esteja com Deus. Saiba que a amo muito.
Anatole Lissenko não tremia. Sua mão era firme e determinada, como a de um maestro. Não tinha dúvida. Estava escrita a carta. O envelope sobre a mesa, visível por quem entrasse no quarto. Antes de sair, olhou-se mais uma vez no espelho. Sentia-se bonito. Era seu melhor traje. Colocou o sobretudo e enfrentou a noite mais fria de Kalinin. Nenhuma outra época era melhor para partir do que o inverno russo.
O cassino Rostov, o único da cidade, estava relativamente vazio. Havia cinco homens em volta da roleta. Apenas um jogava. Outros três jogavam cartas em uma mesa. Anatole pediu uma vodca no bar. O funcionário o olhou com espanto. Não o reconhecia, nunca tinha visto antes aquele cavalheiro elegante. Observou o traje bem cortado, o semblante calmo, o olhar indiferente. Não era um jogador. Então o que fazia ali?
Anatole terminou a bebida e foi até a roleta. Ao perceberem sua aproximação, os homens se olharam. O jogador perdia, e o ar estava tenso, cheirando a cigarro e vod ca.
Caro Anatole, o inverno está ameno em Paris. Não se compara a nossa Kalinin. Tenho ido a bons concertos. Há muitos artistas interessantes por aqui. Os amigos que o Sr. Dimitri Kamarof me recomendou são muito simpáticos e atenciosos. Já me apresentei ao piano em uma pequena reunião, e todos adoraram aquela composição que fizemos na primavera. Também ficaram curiosos de conhecer você, depois do que eu e o sr. Kamarof tanto falamos do seu talento. Anna está apreciando muito a viagem e manda lembranças. Deve estar agora praticando francês com a Sra. Olga. Não se preocupe, voltaremos a tempo do concerto de inauguração do teatro. Espero que esteja bem. Saudade.
Catarina escrevia, trêmula. Nervosas, as mãos de pianista mal obedeciam sua razão. Tão enjoada estava que poderia colocar o coração pela boca. Por que mentia? Essa carta deveria ser enderaçada a Dimitri, seu pobre e apaixonado professor. Não, não poderia se deixar levar por essa fantasia. Anatole não deve saber de nada. Ainda está vulnerável. É quase certo que uma carta com palavras mais doces caísse em mãos erradas. Fechou o envelope e pediu a Sra. Olga que fosse aos Correios pela manhã bem cedo.
Vermelho, 21. A idade e a cor preferida de Catarina. Anatole apostou tudo o que tinha, e foi em uma única jogada que deixou pela primeira vez o destino decidir sua sorte. Se ganhasse, partiria para os braços do único amor de sua vida. Se perdesse, voltaria para casa e rasgaria a carta. Os homens em volta da mesa sorriram incrédulos. O perdedor recolheu-se, cabisbaixo. O funcionário terminou o cigarro e, soltando a fumaça, girou a roleta. Os olhos anuviados de Anatole se fixaram no número encarnado enquanto a bola de metal corria freneticamente em círculo. E foi reduzindo a velocidade e parando devagar. O cavalheiro que antes perdia levantou a cabeça e não acreditou. Ninguém mais estava sorrindo.
Com o pacote debaixo do braço, Anatole foi caminhando para casa. Assobiava uma nova e possível melodia. Já no escritório, nem tirou o sobretudo e sentou-se ao piano para tocá-la. Rabiscou no papel algumas notas e deixou-o junto das outras partituras que estavam sobre a mesa. No alto da página, lia-se “Concerto Nº 21. Para o sr. Dimitri Kamarof”. Antes de ir para o quarto, também depositou, no mesmo móvel, o pacote com um milhão de rublos. Era hora. Subindo as escadas, deu-se conta de sua sorte. A casa vazia em breve se encheria de música e frescor.
Já a encontrarei, minha amada. Deixo Catarina com seu amor e Anna em bons cuidados. Esses foram os últimos pensamentos de Anatole Lissenko, que caiu no chão com o retrato da mulher sobre o buraco que acabara de abrir em seu peito.
Os primeiros raios de sol começavam a aparecer na triste Kalinin, a poucos dias de ganhar encantamento com o novo teatro. Dimitri Kamarof não ouviu o tiro. Ansioso e ofegante, o professor voltara naquele instante dos Correios e trazia nas mãos uma carta de Catarina a seu pai. Ninguém atendia na casa do maestro Lissenko.
|