|
Um homem discreto
Gabriela Escobar
Vendo meu corpo estirado na calçada, me dou conta que toda a atenção que tentei evitar durante minha vida se realizou com minha morte. E o pior, por minha própria escolha. Todas estas pessoas se aglomerando em torno de meu cadáver; comentando meus motivos; como acabei assim. Tentando justificar para elas mesmas porque alguém escolheria a morte e não a mediocridade da vida.
Talvez seja melhor sair daqui, escapar mais uma vez do que me incomoda e buscar algum lugar onde passe despercebido, o que não é difícil dada minha condição. Subo as escadas do prédio e chego ao meu próprio apartamento.
Como sempre está arrumado, cama feita, sapatos organizados na prateleira atrás da porta. Fora do lugar apenas o copo e o envelope sobre a mesa. Sento-me na ponta da cama para não desarrumá-la – pelo visto será difícil perder velhos hábitos no pós-morte – e me pego pensando em como todos reagirão ao saber.
Tudo bem que todos não são muitos, mas este tipo de notícia sempre causa certo impacto. Além do mais, a morte consegue dividir os seres humanos em três classes: os que querem receber mais atenção que o morto, os que querem receber mais atenção do que qualquer um e meu pai, que nunca reagiu diante de nada.
Posso imaginar minha mãe: choro copioso seguido de exclamações do tipo “como ele pôde fazer isto comigo”... Nunca consegui convencê-la de que minha vida não se resumia a fazer da dela uma miséria. No trabalho antevejo estarrecimento e piedade. Todos riam de meu silêncio, mas posso apostar um braço do cadáver imóvel lá embaixo que poucos resistirão ao desejo de evocar conversas de elevador para tentar explicar minha atitude.
Só me custa imaginar como Ângela reagirá, não só à minha morte, mas também ao conteúdo do envelope. Ela, que sempre me acusou de não fazer tudo por ela, que sempre me pediu mais do que eu podia dar, vai se deparar com o que sempre quis. Mas será que vai se sentir culpada? Vai sentir minha falta? Vai chorar?
O barulho na porta me tira de meus devaneios sobre a grandiosidade do meu momento. Ângela, com seu vestido vermelho preferido, entra seguida por um homem grande usando terno mal cortado e cabelo mais mal cortado ainda.
- Ele morava aqui. Eu sempre tentei convencê-lo a se mudar para algo maior do que um quarto e sala, mas ele dizia que não queria perder o fio dos pensamentos ao trocar de cômodo.
- Ele tinha dinheiro para comprar outro imóvel? - perguntou ele.
- Na verdade não, mas para tudo a gente dá um jeito nesta vida, o senhor não acha? O problema é que ele não aproveitava os dons que tinha. Era como se gostasse de viver na mediocridade, sendo e tendo menos do que os outros.
As palavras da minha agora ex-namorada não me feriram. Uma qualidade que não posso negar a ela é sua honestidade. Sempre me falou isto, às vezes de forma muito mais pesada, na cara. O que me incomoda são os olhos secos, nem um vermelho denunciando lágrimas furtivas...
- Posso dar uma olhada pela casa?
- Claro, qual é mesmo o seu nome?
- Abreu. Detetive Abreu.
Enquanto o policial procurava por evidências do meu suicídio pela casa, ela se aproximou da mesa e puxou uma cadeira sem dar atenção para o pedaço de papel. Eu, antevendo que a falta do que fazer a levaria a mexer em algo, me acomodei melhor na cama e até me dei o direito de colocar os pés calçados sobre a colcha.
O detetive Abreu começou a mexer em minhas gavetas, nos armários, chegando até a abrir os livros que estavam na estante. Não conheço muito o método investigativo, mas um morador do 16º andar de um prédio do tipo Cabeça de Porco teria segredos escondidos em brochuras policiais?
- A senhora sabia que seu namorado saiu do país no último final de semana?
- Como?
- Há uma passagem aérea aqui. Destino: Uruguai.
- Ah! Eu dei a ele, mas ele disse que eu deveria usar melhor o meu dinheiro.
- Mas o ticket foi usado
- ....
É sempre bom ver Ângela sem palavras. Lembro de todos aqueles monólogos intermináveis sobre como eu deveria usar meus dons para mudar de vida e sorrio só de ver sua cara de espanto.
- Desculpe, o senhor poderia me deixar sozinha um minuto?
- Desde que a senhora prometa não mexer em nada.
- Claro, eu só preciso pensar um pouco.
Quando ele bateu a porta, ela se deixou ficar ali, com os olhos fixos na TV desligada. O que será que ela está pensando? Decididamente a morte traz algumas prerrogativas, mas a cabeça desta mulher seguirá sendo um mistério.
Lembro de quando nos conhecemos. Posso vê-la, muito miúda, pronta para atravessar a rua. Mesmo hoje, dois anos depois, ainda não sei porque a impedi. Eu segurei seu braço e, em seguida, um carro passou em alta velocidade. Ela me olhou entre espantada e interrogativa. Começavam ali 600 e tantos dias de cobranças.
Era o nosso primeiro encontro, arranjado por minha mãe, desesperada por um neto, e pela dela, desesperada por um genro. Nosso jantar havia beirado o desastre. Ela deixou claro que compartilhava com a mãe a idéia de que precisava se casar, mas tinha um adendo: jamais se uniria a um perdedor. Eu, sabendo que era um, deixei bem claro que não tinha a mínima intenção de me unir a ninguém.
Quatro chopes e muito silêncio depois, ela me pediu que a levasse até em casa. No meio do caminho deu-se o incidente do quase atropelamento
- Como você sabia que o carro iria dobrar a esquina?
- Ouvi o som dos pneus - despistei.
- Mas eu não ouvi nada!
- ...
Atravessamos a rua e caminhamos até seu apartamento. Em frente ao prédio, uma construção antiga em um bairro residencial, ela me encarou novamente e me comunicou que sairíamos juntos no dia seguinte. Sem ter como negar, concordei e fui embora, tentando adivinhar o que ela ainda queria comigo.
Na noite seguinte passei para pegá-la. Toquei o interfone e Ângela, como se fosse a coisa mais natural do mundo, mandou que eu subisse. Ao chegar à sua porta, no terceiro andar, encontrei-a aberta.
- Com licença?
- Entre, estou terminando o jantar.
- Ah! Não sabia que iríamos comer aqui.
- É melhor para conversarmos, mais quieto.
- Não sabia que o barulho havia nos impedido de conversar ontem....
- Isto foi grosseiro - disse ela me ralhando.
- Desculpe, não pretendia ofendê-la.
Depois do curto diálogo ela me indicou um lugar a mesa, nos serviu de vinho e lasanha, que comemos no mesmo silêncio da noite anterior. Sempre me olhando interrogativamente, ela recolheu os pratos, trouxe a sobremesa e sentou-se do outro lado da mesa.
- Agora podemos conversar. Você vai me contar exatamente o que aconteceu ontem. Eu e você sabemos que não tinha como você ter ouvido o carro se aproximando.
- Nossa, você ainda está pensando sobre isto?
- Claro, sou uma funcionária pública sem muito que fazer. Tenho tempo para ver detalhes onde os outros vêem coincidências.
- Tudo bem, eu tenho uma espécie de visão que não serve para nada. Consigo prever coisas.
- Como assim? Você quer dizer o futuro?
- Não, apenas coisas que irão acontecer nos próximos minutos. Não serve para saber os números da loteria ou sequer para ganhar a vida jogando búzios.
- Mas serviu para você me salvar....
E foi assim que Ângela se tornou a quarta pessoa a saber de meu segredo, guardado a sete chaves para que não me vissem como uma aberração. Eu obviamente era a primeira e nunca iria revelá-lo a ninguém. A segunda era minha mãe, que o mantinha com medo de que eu afastasse possíveis pretendentes. A terceira era meu pai, que não falava com ninguém há anos.
Daquele dia em diante ela se considerou minha namorada e fez de tentar achar um meio de “nos” enriquecer sua missão de vida. Ela acreditava que eu deveria usar minhas premonições para ganhar dinheiro e então fazer dela uma esposa e mãe no melhor estilo novela das oito. Segundo seus planos, que não levavam em conta o fato de eu não estar disposto a segui-los, eu cresceria na empresa adivinhando os pensamentos de meu chefe ou escolheria uma raspadinha premiada.
Enquanto agüentava suas sandices, encarava um trabalho enfadonho, uma mãe neurótica e um pai ausente. Além disto, nunca tivera grandes amigos e o fato de ser um ermitão nunca me ajudou a conquistar muitos fãs. Ângela acabou sendo a única pessoa com quem eu conversava, mesmo que só ela falasse.
Ia à (a) minha casa duas vezes por semana para me contar sobre suas novas idéias e sobre como seríamos não infelizes em nossa condição de classe média abastada. Ela tinha tudo acertado, a casa que compraríamos, onde nossos três filhos estudariam, os clubes que freqüentaríamos. Ângela sabia até mesmo o tipo de trabalho voluntário que a alçaria como o novo nome da sociedade.
Eu ouvia a tudo isto em silêncio, tentando imaginar como alguém tão prático podia não desistir diante da minha impassividade. Ela simplesmente fingia que eu não dizia não a todas as suas idéias mirabolantes ou realmente acreditava que um dia sua insistência me faria mudar de opinião?
E, a cada dia que passávamos juntos, mais eu me dava conta de que nada podia ser pior na minha vida, nada poderia fazê-la se calar, nada poderia fazer com que algo fosse diferente. Satisfazer seus desejos me transformariam em seu joguete. Eu estaria assumindo minha total incapacidade de viver em meus próprios termos e talvez até assumindo minha incapacidade de viver sem ela. Mas como continuar a ouvir sua voz?
É claro que eu sempre poderia terminar com ela. Mas para quê? Por mais que não a amasse não podia suportar a idéia do silêncio constante que afastar minha única companhia traria à (a) minha vida. Nenhuma das alternativas me seduzia, enquanto uma me traria uma paz temporária, outra me traria a solidão incondicional.
Um dia ela teve a idéia maravilhosa de trazer a fortuna para nossas vidas mandando sua galinha dos ovos de ouro para um cassino no Uruguai. Vendeu algumas jóias que ganhou da avó, me comprou uma passagem para Montevidéu e acreditou piamente que eu iria.
- Ângela, você sabe muito bem que eu não vou fazer isto. Se você quer tentar a sorte na roleta vá sozinha!
- Não entendo porque você insiste em ser um perdedor. Você não tem dinheiro, não tem amigos, não tem ninguém que não seja eu. Porque você não aceita que eu sou a única pessoa que se importa com você e me faz feliz? Porque ao menos uma vez você não pára de pensar como um pobre diabo e se dá conta que só com dinheiro o mundo vai olhar para você.
- E porque você não entende que não quero que olhem para mim. Eu não quero ser o centro das atenções.
- Como se isto fosse possível! O que você quer é ser reconhecido por ser discreto. Saiba que você se mimetiza com as paredes. Você e ninguém são a mesma coisa.
Esta foi nossa última conversa. Depois disto ela saiu batendo a porta e eu sabia que ela tinha razão. Sabia que não fazia diferença para ninguém e que ela acabaria desistindo de mim se eu não fizesse exatamente o que ela queria.
E foi o que eu fiz. No Uruguai, fui a um cassino, sentei ao lado da roleta e joguei até ganhar o suficiente para garantir muitas amizades: um milhão de dólares. A direção da casa me ofereceu uma suíte e ingressos para o show de uma atração internacional. Aumentaram meu crédito e me ofereceram várias outras facilidades para que eu desse a eles a chance de recuperar o dinheiro. Recusei minhas primeiras honrarias de milionário e voltei para casa.
Em meu apartamento, tirei a roupa com que viajara e a coloquei para lavar. Vesti uma calça social azul marinho e uma camisa vermelha que ganhara de meus pais no último aniversário e penteei os cabelos. Tirei a ordem de pagamento de dentro de minha carteira e a coloquei dentro de um envelope endereçado à ela sobre a mesa e fui até a janela.
Me atirei para o vazio e confirmei a teoria que sempre me intrigara: o coração do suicida pára de bater antes que ele atinja o chão.
|