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Segunda Chance
Cláudia Guerreiro de Lemos
Soprava um vento gelado que encanava nos corredores. Ele
permanecia de frente para aquela colcha de retalhos formada
pelos tampos das câmaras mortuárias. Um xadrez confuso, que
mescla mármore preto, mármore branco, granito cinza, alguns
com flores, outros não, alguns com fotografias e nomes em
metal, imitando assinaturas. Algumas câmaras simplesmente
fechadas, como se fossem de ninguém, sendo o único detalhe
indicativo de ocupação uma rosa de plástico largada na borda,
e algumas ainda abertas. Ele pensava, naquele momento, que ela
estava ocupando, com seu corpo e com tudo o que morreu com
ela, uma daquelas que há algumas horas atrás ainda estava
vazia. Virou-se de costas e debruçou-se no muro vazado que
protege cada um dos andares. Seu pensamento fugiu por alguns
instantes, distraído pelos detalhes da decoração. Lembrou, sem
entender o motivo, que leu um dia em alguma publicação, que o
Cemitério São Miguel e Almas foi projetado por um engenheiro
italiano, por volta dos anos quarenta. O barulho de passos fez
com que se voltasse para o inicio do corredor. O funcionário
aproximou-se e avisou, com todo o respeito que a função lhe
exigia, que já estava na hora de fechar os portões. Ele
poderia voltar quantas vezes quisesse, em qualquer dia da
semana, dizia o rapaz. Agradeceu a informação e começou a
caminhar vagarosamente. No mesmo ritmo de seus passos e na
cadência dos sapatos batendo no piso, começou a martelar na
sua cabeça uma dorzinha funda. Na exata proporção em que a dor
aumentava, foi crescendo a idéia de acabar com sua vida.
Continuar por quê? Continuar com quem? Voltar para onde?
Estava com quase oitenta anos de idade, acabara de enterrar a
única mulher que amou na vida. Teve muitas paixões, teve
muitas aventuras, conheceu muitos prazeres e muitas decepções,
mas o grande amor de sua vida foi ela. Não viveu com ela seus
melhores dias nem suas poucas conquistas, mas a amou desde o
dia em que a conheceu e viveu com ela o que foi possível
viver. Estava com ela na velhice e considerava isto uma graça
dos céus. Ele, que tinha sido ao longo dos anos um cético, que
só acreditava no que podia ver ou no que tinha a mais lógica
das explicações, e que desdenhava de qualquer crença e de
qualquer mistério, ao receber a oportunidade de envelhecer ao
lado dela, sem mais nenhum impedimento, donos de suas vontades
e senhores absolutos de seus atos, passou a crer que os céus
existiam e que de algum lugar, algum deus que protege os
amores impossíveis, sentia piedade pelos dois. Apesar de toda
a falta de coragem, de toda a fraqueza, de todo o medo, apesar
da omissão e da submissão que sempre pautou as escolhas dos
dois, eles estavam tendo uma segunda chance. Mas ela morreu,
seu grande amor morreu e com ele a segunda chance. O
funcionário que o acompanhava, guardando a devida distância
que a circunstância exigia, assustou-se com sua repentina
gargalhada. A lembrança do aviso dado pelo gerente do seu
banco, ainda no velório, minutos antes da cerimônia final,
explodiu num acesso de riso alto, que soava quase como uma
afronta aos mortos do corredor por onde passava. A grande
ironia de estar sendo sorteado num plano de capitalização que
ele nem lembrava mais quando foi feito, e de estar recebendo
aquela quantia, que há seis meses atrás teria mudado o rumo da
doença e talvez, da morte, dava-lhe tanta raiva, que só o
deboche aliviava. Parou em frente ao elevador, aproximou-se do
muro e contou os andares. Olhou para baixo e calculou o
resultado de pular do quinto andar. A calçada de pedras podia
garantir o esfacelamento, desde que ele fizesse a sua parte:
mergulhasse de cabeça com toda a vontade. Voltou para perto do
elevador, apertou o botão indicando que queria descer, olhou
para o funcionário que acabara de parar a poucos metros e no
exato momento em que as portas se abriram, correu para o lado
contrário, jogou-se por cima da proteção e mergulhou no
espaço. Entre o grito de horror do rapaz e o barulho de sua
cabeça batendo contra as pedras, ainda teve um instante de
arrependimento, um último e mínimo instinto de preservação, o
único possível no curto espaço entre o quinto andar daquele
bloco do São Miguel e Almas e a calçada de basalto.
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