Quando tudo começou

Ieda Maria Magri

Hoje acordei estranhamente torta. É meu rosto, que parece, pende para o lado direito. Antes pendesse para o esquerdo, como a dona. Sempre me mantive à esquerda a julgar pela minha posição nas decisões políticas do país.

Mas a verdade é que tudo muda: levei o partido nas costas para faze-lo “de esquerda”. Todos os outros, de uma forma ou de outra sempre penderam um pouquinho para a direita, ainda que de forma não tão visível como o meu rosto, agora.

Pensando bem, sempre fui um pouco torta. Nos casos em que havia uma mínima chance de algo dar errado eu sempre previ o que para mim era o obvio (para eles era o pior): seguia acreditando e acreditando na famosa lei de Murphy.

De tanto me manter à esquerda, um fragmento, um sinal, uma pequena fatia do meu corpo, como os homens do meu partido, agora pende para a direita. Haverá alguma deformação um tanto maior, um núcleo podre, desalinhando a fachada pintada?

Será preciso um exame mais minucioso.

Quanto ao rosto, não me importo de tê-lo torto: o Carlos, do Drummond, teve um anjo torto. O João, de Noll, uma perna torta. Os tortos com memória, como um cachorro de perna manca, continuam podendo farejar os dejetos humanos. Aí está o problema: me preocupo com os farejadores machos que entortam as alianças políticas e embaçam a memória dos outros.

Realmente, é hora de fazer um exame mais minucioso.

(Tempo).

Sete dias depois de descobrir a coisa torta, a tortura que estava na face, começo a tomar umas pílulas miúdas. Tenho sono e deliro, mas quando jogo fora uma pilulazinha sem ninguém ver começo a desconfiar de que algo está errado com o meu país. Ele está sendo dopado aos poucos, e o pior! os homens não tem instinto ou sei lá que coisa lhes falta, não conseguem perceber o que está acontecendo. Da minha janela vejo a rua e posso perceber uns carros com placas que definitivamente, não são do meu país. Gentes estranhas estão entrando e saindo apressadas. Sei que não há motivo para pensar em guerras e golpes. Mas vejo que estão tentando esconder de mim alguma coisa torta.

(Suspende)

Viro à esquerda. Ligo a TV. Os homens só falam de amenidades: tratamento homeopático tem validade científica? Uma menina loira jura ter sido curada com umas pílulas brancas (parecidas com as minhas) só que feitas com extratos de ervas. Penso: pura farinha e pensamento positivo. “Odeio o pensamento positivo!!!”, grito. Mas amanhã vou falar com meu médico. Ele que não venha me dizer que “uma boa conversa é a cura para todos os males”, “as doenças estão nas nossas cabeças”. Dou uma boa risada: realmente. No meu caso, na parte da frente. No caso dos homens do meu partido acho que o problema está dentro. Desligo a TV. Me viro para a direita e durmo.

Acordo um pouco mais contente. Desisti de ir ao médico do tal tratamento homeopático. Liguei para a minha mãe pra saber se ela sabia de alguma coisa que eu não sei. Ela disse que estava rezando por mim.

Agora o meu rosto já está deformado, a boca torta. Não posso sair assim na rua. Pego o telefone: vou encomendar um binóculo. Quero saber quem são os caras lá embaixo. Percebo que o meu braço direito está ficando paralisado. Se pelo menos não incomodasse. Mas dói pra cachorro. Teclo com a mão esquerda e depois de uns poucos minutos e mais dinheiro do que eu pretendia gastar, convenci o rapaz de voz bonita a trazer o binóculo aqui em casa. Será que ele é bonito? Balanço a cabeça e decido não me interessar por esse tipo de coisa, afinal o que é a beleza diante da morte? Não a minha é claro, que pretendo viver bastante, mas aquela que pretendo desvendar.

Ah! Que bom ampliar o olhar. Olhar. É tudo o que precisamos para saber das coisas. Pra que as palavras se é possível um entendimento através do olhar? Pra que falar se basta indicar? As placas são brancas. Americanos. Um homem de preto usa crachá. Foco melhor o olhar. Fredric Oestroem. É da Nasa. O que eles fazem aqui?

Decido ligar para o Dirceu:

“Escuta aqui, quer me dizer o que está acontecendo?”

“Aninha, querida, não é nada não. Você está muito cansada. Descanse”. Á propósito, você descobriu alguma coisa?”

“Vi uns caras da Nasa. Agora será fácil descobrir o que vocês estão tramando”.

“O que? Você está delirando. Eu estou falando sobre a sua doença. Já sabe o que esta fazendo você ficar assim?”

“Não tenho nada. Estou ótima e vou desmarcarar você!”

Desliguei o telefone. Só o que me faltava! Olho pela janela e agora não vejo nada.

Pego um livro. Canoas e Marolas. Abro na página 75. Não gosto de ler os livros pelo começo. Odeio começar as coisas. “Sairiam todos satisfeitos da minha exemplar passagem: cobririam a crueza da minha morte com cachoeiras teóricas, enquanto eu, bonito!, estaria todo amputado de uma coisa que um dia fora convertida ao meu anônimo eu, essa máscara pesada que eu nunca soube de fato encarnar”. Não entendi nada. Volto para a 41: “eu sentia na minha boca a presença de uma incerteza tão viva como se inflamada, quem sabe parente disso que os crentes chamavam mistério (...) tudo o que me cercava sobrevivia agonicamente dessa incerteza (...) tudo era vaguidão mistério sem realeza divina ou força semelhante, não sei, pois não sei mesmo se realmente fecundei a mãe dessa Marta agora grávida, não sei se em algum encontro de luxúria, sossego, servidão, não lembro, não foram tantas mulheres, é verdade, mas não lembro, repito, repito sempre para que possam ouvir a minha pasmaceira indecorosa (...) eu que sabia trabalhar cada vez menos com a memória.”

Penso que é assim mesmo. Os homens perdem a memória. Perdem a memória quando fazem filhos e depois deixam que a pobre coitada crie. Perdem a memória quando votam no cara errado. Perdem a memória quando os caras não cumprem o que prometem. Perdem a memória quando ganham algumas migalhas que não passam de embustes para garantir os votos da próxima eleição. Perdem a memória quando os caras mudam de partido! Eu não acredito!

Tento me levantar e percebo que não posso mexer a perna direita. Nem o braço. Caralho! O que está acontecendo comigo? Nem uma cadeira aqui perto da cama. Puta que pariu, que ódio. Ainda se fosse o lado esquerdo. Não sei fazer nada com ele. É, percebo que as coisas estão mudando. Tento me arrastar até a borda da cama. Caio não chão. Me arrasto até a mesinha dos comprimidos. Tomo logo dois e apago.

(tempo)

Quando acordo vejo dois homens na minha frente. Não chamei ninguém. Abro a boca para pedir explicações. Cadê a minha voz? Não tem. Mal posso mexer a boca. Está travada. Não domino mais o meu braço esquerdo. Faço xixi.

Um dos homens se aproxima de mim. Injeta um líquido viscoso nas minhas veias. Sinto uma dor fina no braço. Eles ligam a Tv e vão embora.

Um homem loiro está falando. Não posso ouvir. Há uma multidão atenta e confiante. Ele parece apreensivo, se justificando. A Câmera vai para a esquerda: um pequeno grupo de mulheres está entoando um coro. Nas mãos trazem ovos e tomates. Um tomate maduro acerta o rosto do homem loiro.

Eu só sei que tudo começou quando pendemos para a direita.