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Parceiro e os elementos
Guido Kopittke
Assim de perto, o farol do clube até parecia imponente.
Contornei-o com uma certa reverência, afinal, nunca me
despedira dele antes. Segui para oeste, na direção do canal,
onde as ondas indicavam que o vento vinha de sul. Saco, pegar
o vento assim contra, logo de cara. Mas, era a rotina, ele
sempre fazia assim. Olhei para as casas que avançavam rio
adentro, espremidas entre a avenida e a margem. A parca luz do
amanhecer deu-lhes um tom acinzentado, meio triste. Estariam
elas me dando adeus? Coloquei o motor em ponto morto e esperei
o Parceiro diminuir a velocidade. Subi na cabine, soltei a
vela-mestra e comecei a levantá-la. O barco deu o lado para o
vento, a vela se abraçou na cruzeta e trancou. Desci, acertei
o rumo e amarrei o leme. Corri até o mastro e terminei de
levantá-la. Desci, desliguei o motor, cacei a vela e deixei
que o vento sujo da Vila Assunção fosse nos levando devagar,
enquanto desenrolava a vela de proa. Quando vencemos o morro,
o barco adernou levemente e seguimos em contravento o mais que
pudemos. Seria assim até a outra margem. Contornaríamos a Ilha
do Presídio e depois um bordo mais ou menos na direção da
Serraria nos daria algum tempo de desatenção, sem manobras.
O Parceiro me fazia feliz. Não era como terapia ocupacional. A
convivência de tantos anos nos proporcionara uma amizade
sincera e verdadeira. Aprendi a respeitar suas manias, suas
limitações. Ele retribuía. Enfrentava a intempérie com bravura
e docilidade, cortando as ondas e atirando borrifos para cima,
numa cadência ruidosa de água e de vento, adernado, que é o
jeito dos veleiros escorarem os elementos. Agora faríamos a
nossa grande viagem e eu sabia que ele me entenderia, me daria
conforto e abrigo. Já estávamos com a Ilha do Presídio pelo
través e eu vinha obrigando-o a se aproximar excessivamente da
zona morta do vento. Sabia que ele o fazia a contragosto, que
as velas vibravam inconformadas, que perdíamos velocidade, mas
era preciso aguardar, evitar os baixios e vencer a ilha antes
de virar de bordo. Calma, amigão, tem um navio vindo pelo
canal, não dá pra borboletear na frente dele, o cara não tem
freio e vem pra cima. Senti uma pontada, de leve. Vou esperar
mais um pouquinho, esses remédios são meio chatos, deixam a
gente meio pateta. Finalmente o navio me ultrapassou. Virei de
bordo. Mãos operando as velas e pernas o leme. Parceiro não é
bobo, sabe direitinho se manobro meio devagar ou fora de tempo
e responde à altura.
Deixei tudo por conta do piloto automático, desci para a
cabine, peguei o frasco do analgésico e mandei três pílulas.
Deitei para recuperar o fôlego, depois coloquei água na
chaleira e preparei um chimarrão. O enguiço do rádio veio bem
a calhar, assim não precisaria ouvir o papo furado entre
navios e chatas, além disso, deu-me a boa idéia de não trazer
o AM/FM.
A turma reclamou minha presença. Que barulheira é essa? Ora,
se não é o vento amigo rondando pra sudeste. Maravilha
pessoal, assim melhora, vamos virar de bordo e tomar um mate?
Dei o rumo da Ponta Grossa pro piloto, arrumei os cabos,
guardei a manicaca, liguei o GPS e acendi um cigarro. Ainda
fumo essa carteira e aí deu, não vai ter nenhum boteco pra
comprar mais... Desci pra cabine de novo, a água já chiava.
Entrou uma rajada forte, adernamos um pouco mais e o frasco
foi ao chão espalhando pílulas pra todo lado. Fiquei de quatro
ajuntando aquelas merdinhas e o cheiro me lembrou o
consultório do médico. Cara chato, “faz isso, faz aquilo, não
faz isso, não faz aquilo...” Saí para o cockpit lembrando dos
versos do Glaucus Saraiva.
Amargo doce que sorvo,
como um beijo em lábios de prata,
Fiquei pensando porque não fizera isso antes. Velejar sem
nenhum compromisso, sem aporrinhação, só os ruídos do barco, o
barulho da água e do vento. Lembrei do Gastão e senti
saudades. Teria sido uma boa companhia. Talvez estranhasse um
pouco no começo, mas depois entraria na rotina de miar por
ração e ronronar por colo.
Vencida a Ponta Grossa, dei um bordo longo em direção a Belém
Novo. Nosso amigo não tardaria a rondar para leste. Aí, seria
um tiro só até Itapuã. Uma alternativa interessante, caso o
vento resolvesse não ajudar, seria dormir no Arroio Araçá ou
ancorado no Canto das Mulatas. É isso, está decidido! Seria
uma deselegância não visitar o Arroio, dar notícias, quem sabe
pescar um jundiá, observar as tartarugas, escutar as capivaras
pularem n’água, ninguém tinha pressa... Passei o braço no
estai de popa, calcei o joelho no púlpito e abri o zíper. Nada
como mijar perigosamente. A sensação de liberdade e
auto-suficiência que um veleiro proporciona sempre me
fascinaram. O Parceiro e os elementos me bastavam.
Antes do meio dia entrávamos no Araçá, toureando o baixio da
boca e, à medida que a profundidade aumentava, éramos
envolvidos pela aura vietnamita do arroio, sensação que só
quem já esteve por aqui conhece. Encostamos no barranco perto
das ruínas. Desci do barco para amarrá-lo a um galho, o cabo
da âncora de popa já estava no comprimento certo.
Resolvi passear. Atravessei o campo que se estendia por
algumas centenas de metros desde a margem. Acabava num capão
cheio de trilhas abertas pelo gado. Observei montes de
bolinhas em forma de feijão que as capivaras deixavam. Sempre
foi assim: eu falava maravilhas do Arroio Araçá para os meus
amigos e dizia que até capivara havia, em plena zona
metropolitana, imaginem. Nunca as vi, só os montes de bosta
que apenas denunciavam a sua presença. Depois do capão havia
um lago ou uma imensa área alagada onde se vislumbravam
milhares de aves aquáticas das mais diversas espécies. Bandos
inteiros levantavam vôo ao mesmo tempo, circulavam e pousavam
de novo. Toda aquela efeméride social e a algazarra que
parecia uma festa das mais animadas, acabaram por me deixar
meio perplexo, deprimido e cheio de inveja. Dei meia volta e
retornei pelo caminho que viera, num ritual obsessivo como que
tentando reaver alguma coisa. Cheguei no barco ofegante, à
beira da exaustão. As pontadas se sucediam. Aquelas pílulas de
merda mal e mal proporcionavam uma hora e pouco de sossego,
apesar do aumento da dose. Pensei já estar me intoxicando com
aquela bosta. Desci para a cabine, tomei umas pílulas,
coloquei água para ferver e me atirei no beliche. Depois de
uns dez minutos, consegui recuperar o fôlego. Abri o alçapão
debaixo do beliche, peguei um pacote de massa e joguei metade
na água que já fervia no fogão. À aura vietnamita do arroio,
acrescentaríamos um aroma de alho e óleo. Subi para o cockpit
e fiquei observando um bando de canários da terra que me
acompanhava no almoço, comendo algum microcereal da grama. É
engraçado como em certas épocas andam em casaizinhos e são
territoriais e em outras, comem e voam em bandos.
Depois de uma sesta restauradora e mais quatro pílulas, o
Parceiro deslizava em direção ao Guaíba de novo. Seria melhor
dormir na Praia do Sítio, junto à entrada da Lagoa dos Patos,
como planejado inicialmente. Navegar é preciso. Pensar,
refletir, contemplar não é preciso. O vento continuava
sudeste. Atravessei o rio e observei a Ilha Chico Manoel. Deu
pena deixá-la assim, para trás, sem dar uma paradinha. Pelo
menos o caseiro estaria lá e não me agradava a idéia de
encontrar alguém. Dei um bordo até o Morro do Coco, cambei e
rumei pra Itapuã. Tudo em ordem, tudo arrumadinho nos seus
lugares. Pensei em esquentar mais uma água pro chimarrão. Não
valia a pena, depois dormiria mal. Acendi outro cigarro. A dor
ficou muito forte, minhas pernas amoleceram, caí no cockpit e
bati com a cabeça na quina da gaiúta. Caralho! Só me faltava
sangue, muito sangue. Arrastei-me até a pia da cozinha, meti a
cabeça debaixo da torneira e bombeei pequenos jatos d’água no
machucado. Tudo indicava que chegara a hora de começar com a
morfina. Aos pouquinhos, porque o estoque não era grande.
“Com cuidado e disciplina poderás alcançar até seis meses com
qualidade de vida razoável”, disse aquele idiota. O que é que
aquele animal entendia de qualidade de vida? Dizia isso
mecanicamente, como vinha fazendo há uns trinta anos.
“Precisas de repouso, quimioterapia e remédio contra a dor.
Esse é um tipo muito violento...”
Minha cabeça já não doía, só ardia um pouco ao contato com a
água que às vezes espremia com um pano. Parceiro seguia o rumo
com lealdade e competência, como que pedindo desculpas pelo
machucado da cabeça. Já enxergávamos claramente os contornos
da Ilha do Junco. Nunca tinha descido nela. Peguei os livros
do Geraldo Knippling e estudei a forma de chegar.
Passávamos pelo buraco de 64m de profundidade, no meio do
canal, entre o Morro da Fortaleza e a Ilha do Junco. Enrolei a
vela de proa e recolhi a mestra. Parceiro foi perdendo
velocidade e ficou ali, balançando nas marolinhas, em cima do
buracão. Um abismo. Dizem que tem um barco dos Farrapos
afundado aqui. Parceiro não entendeu e eu não senti nenhum
friozinho na barriga. Liguei o motor e rumei para a ilha,
contornei-a e depois de dar umas raspadas no fundo, ancorei no
lugar indicado. Pulei na água gelada e fui até a ilha. Ignorei
o frio e constatei a beleza que o Knippling apregoava. Árvores
majestosas, flores, vida exuberante num lugarzinho pequeno,
cheio de areia e pedras. O gogó começou a apertar e, pela
primeira vez, chorei, com joelhos e cotovelos cravados na
areia, parcamente coberta de folhas secas, solucei, praguejei
e derramei lágrimas de amargura e de revolta. Só dividiria
minha dor com meu barco e com os elementos...
Anoitecia quando retornei ao Parceiro, exausto, meio zonzo,
tiritando de frio. Ele me esperava, quente, seco e acolhedor:
-Vamos lá meu capitão, ânimo, hoje dormimos na enseada do
Sítio. Amanhã eu e o Nordestão te levamos pela Lagoa, até o
Oceano...
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