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Os mudos ganham
Carolina Rossi Wosiack
Posso tomar banho, meu suor já misturou em meu corpo as marcas que ele deixou. No travesseiro, não consigo mais sentir seu cheiro. O mais precioso que ele me ensinou foi que não é preciso dizer nada para se conquistar alguém. O mais doloroso é que para a outra, as horas são contadas e é preciso não pensar que o relógio corre e aprender a viver o tempo que se tem intensamente. Se o que eu passei não fosse real, eu diria que seria apenas uma personagem de um romance meu. Feliz ou infelizmente. Começaria descrevendo os personagens. Homem, 42 anos, 1.87 m, olhos verdes, rosto redondo, corpo fortemente constituído, peito grande, pés relativamente pequenos, orelhas também, cabelos um pouco desajeitados e já com seus fios grisalhos. Mulher, ou dependendo do leitor, uma jovem, 18 anos, 1.70 m, olhos azuis, covinha de Vênus no queixo, rosto marcantemente agradável, boca levemente arqueada. Corpo de curvas e não ângulos. Não poderíamos chamá-la de magra nem de gorda. Cabelos claros levemente ondulados, de cor indefinida. Depois da caracterização inicial não sei como continuaria. Passaria para uma narrativa de como eles se conheceram a alguns anos atrás, quando a sincronicidade do mundo utilizou de suas engrenagens. Relataria como ela se sentiu nos dias que antecederam o encontro em que tudo aconteceu. Daria alguns capítulos, arriscando até um conto. Ah, com certeza o ponto alto da narrativa seria a noite que passaram juntos. Começaria falando do jantar que ela preparou, ou quem sabe do vinho. Não, essa parte não seria importante. Passaria para o leito, quando ela a puxou para cama e a envolveu com ardor. O ar da respiração quente, os rostos próximos. A boca que se uniu com a dela, desarmando suas defesas, por fim deixou-se ir para onde ele quisesse levá-la. Mereceria atenção o fato dele passar uma toalha quente nos pés da jovem e beijá-los. Delicioso. Bom, talvez não. Melhor era não descrever. Palavras não poderiam explicar para qualquer pessoa o que os dois sentiram. A mudez dos sentimentos era melhor. O silêncio da noite e os corpos entrelaçados funcionariam mais adequadamente. Esquece, nenhuma imagem também evocaria a energia trocada e os sentimentos daquela madrugada em claro. Ele foi embora e ela ficou. Boba. Com sonhos de alguém que acaba de sair da adolescência. Encantada. Maravilhada. Esperando ansiosa o dia em que voltaria a revê-lo. A falta de palavras era estúpida. Podia bem tentar convencê-lo. Mas parecia inútil. Há esposa e filhos.
- Se fosse em outra época. Se eu fosse mais livre.
- Eu sei - ela disse - Eu te entendo. Mas não queria te compreender, por que talvez eu conseguisse argumentar alguma coisa para tu ficares comigo.
- Que bom que tu me entendes. É melhor para mim. – disse ele.
- É uma pena que o que tu queres não seja o que eu quero – disse ela - Eu desejava viver isso.
- Se a gente continuasse a se relacionar eu certamente iria me encantar por ti. Uma guria bonita, inteligente, interessante.
Eu olhei para ele. Tá e daí? O que é que tem tudo isso, merda? Não serve para bosta nenhuma. Não me faz ficar contigo. Não basta. Não sou tua mulher e nem vou chegar a ser tua amante. Grande merda.
- Não quero te machucar, levar essa história adiante se não vai dar nada. Acho que meus cabelos brancos servem para alguma coisa.
- Os fios...
- Eu quero dormir daqui um pouco. Acho que nos entendemos, né? Vai ficar machucada?
- Não sei. Provavelmente sim.
- Mas, só um pouquinho, não é?
- Sei lá, tudo está muito intenso para mim ultimamente.
Saí de lá assim, calma demais, dirigindo a 60km/h, depois o desespero tomou conta de mim e fui para 140km/h. Merda. Quem sabe eu morro assim e acabo com esse sentimento? Merda de paixão. Merda de 32% de água no meu mapa astrológico. Merda de amor. Merda de 21 anos. Merda de toda merda. Merda de sentir. Merda de não poder aproveitar. Merda de desencantar. Merda. MERDAMERDAMERDAMAERDAMDREMAERMERDA de MEDO MEDO MEDO MEDO MEDO. Merda esse medo da solidão. Merda esse medo de amar. Merda esse medo de desejar. Merda esse travamento. Merda esse freio de mão. Merda. Merda ter que ir para a aula de estatística amanhã. Merda ter que falar da festa para ele quando eu queria falar de um nós que não existe. Merda não poder fazer nada e ter que deixar ele ir embora. Merda encontrar e perder. Merda achar que nenhuma palavra bastará. Merda, merda e mais merda. Merda acabar. Merda não poder fazer nada. Merda não poder dar a palavra final. Merda depender do outro. Merda amar e não poder. Merda. Merda.,Merda. Merda descobrir e ter que esquecer. Merda de paixão. Merda de apaixonamento. Merda de todas as merdas. Merda de merda. Merda de avoamento. Merda de falta de fome. Merda de dirigir à 140 km/h. Merda de não se carregar o celular consigo. Merda de o celular não tocar. Merda da mulher dele atender o telefone. Merda de a ligação que se espera nunca chega. Merda de diferença de idade. Merda de todo o que prende. Merda de medo de encantamento. De casamento. De filhos. Merda de medo de machucar. Sou viva, quero viver. Merda. Merda. Quero ficar aqui trancada no meu quarto morrendo de fome. Sou sim muito melodramática, não quis dizer para ti, mas sou muito. Sim, vou me afogar na piscina. Vou sim. Vou pendurar uma pedra nos pés e ir para o fundo. Ver tudo escurecer quando não conseguir mais respirar. Me jogar de um prédio de 25 andares. Cortar os pulsos, mas não parar de sentir. Viajar para a França. Mas não esquecer. Mandar tudo e todos a merda. A merda porque são todos uns hipócritas que não conseguem viver a vida como pregam. Ficam presos a um monte de merda e quando é hora de viver a vida, voltam para o casulo e se recolhem. Mandar a merda tudo e todos. Vou sim. Mandar a tartaruga se jogar no mar e se afogar. Mandar a minha compreensão por água abaixo, junto com a minha passividade. Vou sim. Dar um beijo naquela boca, vou sim. Não vou não. Eu sei que não. Ó merda. Merda, merda. Vou ficar aqui em meu quarto sozinha, quando queria que a minha cama estivesse cheia dele. Sei. Dormir gelada. Sei que vou ter que fingir que está tudo bem e que eu esqueci. As coisas não são assim tão fáceis como ele disse. Sei que também não são tão difíceis também. Não funcionaram do jeito que eu queria. Merda. A imagem dele não sai da minha cabeça. Ele estava bem mais bonito hoje. Deve ser a experiência de amor que tivemos. Que ódio. Aposto que ela não repara mais que as sobrancelhas dele se juntam no meio do rosto, que ela não dá mais valor para os músculos do braço dele – resquícios do handebol que ele jogava quando adolescente. Que ela não levanta para fazer café para ele. Que, arrisco dizer, gosta dele como eu gosto. Se fosse uma história escrita por mim, certamente, o amado da protagonista não diria para ela tomar o rumo da vida dela, quando ela dissesse para ele que se mudasse de idéia era só ligar. Era melhor não termos dito nada, nunca.
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