Literofagia

Gabriel Magadan

Todos os dias, no mesmo horário, às cinco horas da tarde, entrava na biblioteca e dirigia-se ao corredor em frente à janela, escolhia dois ou três livros e sentava-se em uma das mesas desocupadas do fundo da sala de leitura. E atrás de um dos pilares que dividiam a sala, em uma posição que não podia ser visto pelas bibliotecárias, retirava algumas páginas do livro de capa azul - sempre o mesmo - e as engolia impassivelmente. Repetia o gesto duas ou três vezes, era o limite compreensível de seu organismo, ainda que estivesse habituado a deglutir a matéria fibrosa e a degustar o gosto amargo das folhas de papel. Lia e relia os demais livros com tamanha avidez e impaciência que talvez justificassem a sua aparente personalidade de obsessivo compulsivo. Um comedor de livros, pode-se dizer, predisposto a incorporar em seus pensamentos fantasiosos a alma literária da obra
devorada. O livro vinha diminuindo de volume a cada página consumida sem que ninguém percebesse. A sua voracidade pela leitura confundia-se com a saciedade gastronômica das páginas engolidas. O sujeito era mesmo esquisito, tinha um ar sacerdotal, não se ouvia falar, costumava entrar no saguão lentamente e com um olhar taciturno parava em frente às estantes e quedava admirando como se estivesse em um santuário. A rotina era a mesma, alguns minutos parado, depois coçava com a mão direita a barba grisalha, que lhe dava a aparência de uns quarenta anos, e dirigia-se em busca dos seus livros. Apesar da habitualidade e da repetição contínua de certas atitudes, passava despercebido, sequer cumprimentava as pessoas que transitavam no recinto e que decerto não o levavam a sério. Continuou devorando o livro de capa azul por algum tempo até que foi surpreendido por uma funcionária da biblioteca que chamou a polícia. "Esse homem está a destruir o patrimônio
público, por certo é maluco!", exclamava em voz alta, de modo histriônico e exagerado. Arrestaram-lhe e levaram-no para um sanatório. Antes disso, porém, em sua defesa disse ser o autor do livro, o que lhe daria direito de comê-lo ou fazer dele o que quisesse. A verdade é que só restara a capa azulada e não hesitaram em levar para o manicômio o sujeito que dizia ser Borges. E realmente enlouqueceu cercado entre as quatro paredes sem janelas do quarto em que o colocaram e onde dizia ver palavras, e as recitava uma a uma, com as mesmas letras do livro engolido. Eram certamente os expurgos dos dejetos literários da sua ilusão literofágica.