Enxaqueca

Beatriz de Oliveira Abuchaim

Peitos. Adoro peitos. Aquele top bem decotado e justo, deixando todo o silicone a mostra. A barriguinha com um piercing. O shorts que anuncia a calcinha meio enfiada na bunda. Gostosa. Ela me encara na academia, pega minha mão, me leva para o vestiário. Com um só gesto a blusa some e a minha boca só enxerga os bicos escuros. Ela está faminta, baixa o meu calção e me chupa, como se quisesse absorver do meu pau o ar da sua sobrevivência. Que chupada! Agora ela está pelada, desfila, se exibindo. Eu a coloco contra a parede de costas para mim, pego no seu cabelo cheiroso, crespo, moreno, a outra mão nos peitões e estou pronto para enfiar por trás, ela pede para eu ir em frente. Sim, ela está pedindo...FÁBIO! "Fábio, o que tu estás fazendo?". Abro, lentamente os olhos e a vejo: loira, baixa, peitos pequenos. "Como assim? Estou tomando banho". Fábio só percebeu que ainda segurava o pau ensaboado, quando este começou a ficar mole. Isso se deu, no exato momento, em que Vera expelia pela boca o almoço, dentro da privada. Perturbada, lavou o rosto e deixou o banheiro, sem mais palavras. Atirou em cima da cama o cansaço, a cabeça latejante e toda a sua perplexidade. Não consigo acreditar no que vi. O Fábio não gosta mais de mim. Não se satisfaz comigo. O nosso casamento foi um erro. Bem que a mãe foi contra. Primeiro namorado, não podia dar certo. Depois de tantos anos juntos, ele não sente mais atração por mim. Chorou. Fábio também sentia o rosto molhado, mas pela água que vinha do chuveiro. O banho foi prolongado, até seus pés e mãos ficarem idosos. Se eu demorar, ela vai deixar o assunto de lado, vai esquecer. De repente ela nem se deu conta do que eu estava fazendo. Também, não podia ter batido na porta? Resolveu abandonar o banheiro e enfrentar os olhos de Vera. Ela estava com o rosto enfiado no travesseiro, tentando disfarçar a poça produzida por sua tristeza. Fábio colocou a roupa, mudo. Parecia haver uma muralha entre os dois, de modo que mesmo vendo um ao outro, não conseguiam se enxergar. Ele ligou a televisão, tentando dar à situação a mediocridade de todos os dias. Vera se indignou: "O que é isso, Fábio? Tu vais fazer de conta que nada está acontecendo?". "Como assim?", respondeu ele fingindo estar desatento. "O que eu vi tu fazendo no banheiro não é nada?", explodiu Vera. "Eu só estava tomando banho, o que quê há?", desempenhando o papel de desentendido. "Tu estavas te mast... masturbando", a palavra saiu cuspida de sua boca. "Claro que não. Só estava limpando bem ele", disse Fábio, sem muita convicção. "Nunca vi ninguém se lavar de olhos fechados e gemendo". O silêncio tomou conta do espaço entre os dois. Tipo de quietude onde nada é dito, mas tudo é sentido. Que guri cara-de-pau! Pensa que pode me enganar. Deve estar se sentindo culpado. Ele sabe que não está certo. Que traição! Fábio sentia um crescente desconforto com o posicionamento de Vera. Que idiota! Ela acha que eu fiz algo muito errado. Por quê? O que tem de mais o cara bater uma punheta de vez em quando? "Por que tu entraste no banheiro de uma hora para outra, hein? Logo tu, que não me deixa nem te ver mijando. Que história é essa de invadir a minha privacidade? Tu não deverias estar na faculdade?", o tom de voz já alterado. "Olha aqui ó, Fábio, eu estou explodindo de dor de cabeça, por isso não fui à aula e entrei no banheiro. Estava louca para vomitar, entendeu? Até onde eu sei, só tem uma patente nesse cubículo. Tu que erraste e quer jogar a culpa em mim. Típico". "Qual é, Vera? Também, não estava fazendo algo tão horrível assim". "Como não? Estava me traindo, pensando em outra. Pode dizer que tu te acostumaste comigo". "Não, não é isso. Eu estava pensando em ti. É que faz um tempo que a gente não transa". "Não fala assim, que é vulgar. E, eu acho que nós fazemos amor bem seguido". "Fazem duas semanas da última. Eu não agüento mais". Vera baixou os olhos, sabia que estava fugindo. Existe alguma coisa que me afasta dele. No começo da relação, eu tinha mais desejo. Agora parece que só fico junto com ele para satisfazê-lo. Não lembro o último dia que tive orgasmo. Ah, acho que foi naquela noite que voltamos de uma festa e eu estava bêbada. Até deixei ele me ver nua, caminhando na sua frente. A cabeça de Fábio tentava, também, resgatar lembranças. Qual foi a última vez que ela me chupou? Acho que ela não é muito chegada na coisa. Talvez ela finja um pouco, porque se ela quisesse transar mesmo, teria me procurado algum dia. Já perguntei do que ela gosta, o que ela quer que eu faça. Ela sempre me diz que está bom. Eu acreditava, mas estou começando a desconfiar. Meio sem jeito ele pergunta: "Tu não gostas de trans... fazer amor comigo?". Ela devolve com um ataque: "Acho que és tu que não gosta, senão não estarias fazendo aquilo que eu vi". "Não, nada a ver. Já disse que estava pensando em ti. Vem aqui, te quero tanto". Lançaram-se um nos braços do outro. Ambos sentiram que era momento de acabar com aquela conversa. Receio das revelações que poderiam ser feitas. Fábio começou a passar as mãos nos pequenos seios, beijar-lhe o pescoço. Ainda estou com um tesão louco. Vem cá, que eu vou te fazer sentir. Vera fechou os olhos, mas não conseguiu ficar cega ao quadro pintado em seu pensamento: Fábio se masturbando. Os gemidos dele faziam eco em seus ouvidos. Foi gostoso ver ele. Ele ficou sexy, segurando o próprio pau, parecia estar se deliciando. O que eu estou pensando? Foi nojento. Por que eu estou ficando excitada ao lembrar disso? Não, eu não quero transar. Não depois de tudo o que aconteceu. Foi repugnante. Como posso afastá-lo? Tenho medo que ele se encha de mim. "Amor, acho que hoje não vai dar. Lembra que eu estou com dor de cabeça?". Ainda que estivesse insatisfeito Fábio não contestou. Mulheres de família, como Vera, não se encontram com facilidade. Espichou-se na cama, enquanto ela providenciava seu jantar. Na TV, bundas e pares de silicone dançavam para ele. Vou passar a tomar banho na academia.