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Encontro com Francesca
Adriana
Androvandi
Sentou-se em uma cadeira do hall do hospital, jogando-se, como
se pudesse, nesse vão gesto, livrar-se um pouco do peso que
lhe caía sobre os ombros. Seis meses de vida. Ficou ali por
duas horas, tentando absorver a notícia. Não chorou. Nem se
desesperou, como convinha a um homem como ele. Manteve a face
impávida, o olhar longínquo, a expressão empedernida.
Voltou para casa, onde lhe esperavam as luzes apagadas e o
silêncio da viuvez. Decidiu não contar a ninguém. O filho
estava tão feliz agora que sua nora esperava seu primeiro
neto. Inácio não queria estragar tudo. Tinha ouvido falar que
mulheres grávidas não devem ser expostas a notícias trágicas,
pois isso não faz bem ao bebê. E não era ele que iria
prejudicar a formação do neto causando nervosismos e
apreensões. Ia agüentar sozinho, como tantas outras coisas que
já tinha feito na vida. Ia morrer de pé. Quando morresse,
estaria morto. Não precisariam sofrer por seis meses com ele.
Mas o que mais fazia Inácio ter a convicção de não contar a
ninguém era mesmo a auto-estima. Não suportaria que lhe
lançassem olhares de pena. Não queria sentir-se uma vítima.
Por algumas semanas ficou sentado na sua poltrona preferida,
olhando para o céu que via da sacada. A notícia não lhe saía
da cabeça. Mas ao mesmo tempo ele não a aceitava. A empregada,
que só ia à casa de Inácio por meio turno, o olhava e o achava
apático. Mas por dentro ele fervia, num embate entre a
aceitação da realidade e a vontade da fuga.
Não soube porque, naquele determinado dia, quando a empregada
lhe trouxe um café depois do almoço, Inácio soltou uma
lágrima.
Agora que estava com o pé na cova, permitiu-se olhar para trás
e fazer-se a célebre pergunta, que todo condenado se faz à
beira da morte: se tivesse podido fazer alguma coisa diferente
na vida, o que teria feito? E a resposta veio tão forte como
um soluço.
– Francesca!
Seu corpo dobrou-se para frente, como se tivesse sentido uma
grande dor no abdômem. A emprega o acudiu.
– O senhor quer alguma coisa, seu Inácio?
Mas ele a acalmou.
– Devo ter cochilado e sonhado em voz alta. Está tudo bem.
Foi então que seus pensamentos, na penumbra do apartamento,
não mais se afastavam de Francesca: a moça do cafezinho.
Suas formas voluptuosas tanto tinham provocado suas fantasias.
E ele, que, no início, nem reparava nela. Notou que tinha algo
diferente no ar quando, na sala de reuniões dos executivos,
começou a perceber que sua xícara, entregue por ela, sempre
tinha dois biscoitos, ao contrário dos demais, que só recebiam
um. Com o tempo aquilo o embaraçou, e ele virava a xícara de
maneira que os biscoitos ficassem escondidos pela louça, que
envolvia com as duas mãos viradas para si, para que seus
colegas não percebessem.
Quando ele resolvia mirá-la, parecia que ela percebia isso
milésimos de segundos antes dele, e o olhava sem pudor bem nos
olhos, esperando sem medo. Ela era uma descendente de
italianos da região da serra, uma colona que veio para a
cidade grande. Morena clara, com as maçãs do rosto rosadas
como se tivesse recém tomado vinho. Logo se percebia que ela
estava no andar, pois comandava a copa e a cozinha falando
alto e fazendo as demais funcionárias rirem de suas piadas.
Inácio supunha que a pouca escolaridade a tinha direcionado
para um trabalho serviçal, mas, observando-lhe a esperteza,
pensava que ela teria ido mais longe se tivesse tido
oportunidade de estudar. Seu espírito de iniciativa logo a fez
ser promovida a secretária. Quando entrava na sala de
reuniões, sempre sorria e parava numa pose como a de uma
modelo da década de 50. Se o ambiente estivesse tenso, ela
conseguia relaxar todo mundo com sua animada saudação:
– Bom dia, senhores! Aceitam um cafezinho?
Depois de algum tempo, suas investidas tornaram-se mais
focadas. Ela ia à sala de Inácio perguntar se ele queria um
suquinho, uma água, enfim o que precisasse, estava “à
disposição”. Ao chegar em casa, Inácio começou a beber doses
de uísque para ver se esquecia a italiana.
O auge de sua angústia foi quando ela sentou na sua mesa, num
fim de tarde, com as coxas apertadas sob a saia e fez o decote
tornar-se ainda mais provocante ao abaixar-se e apontar onde
ele deveria assinar um tal documento que ele nunca mais
lembraria do que era. Mas ele tinha sua mulher e o seu único
filho, que tanto amava, pequeno. Sua educação de princípios
rígidos não lhe permitiria uma traição. A culpa já o consumia
antes, imaginava o depois, caso se consumasse. Naquele dia,
saiu tão perturbado e absorto que colidiu com seu carro em
outro automóvel em uma esquina. Assumiu sem hesitar a culpa.
Não tinha visto o sinal de pare. Pelo menos no trânsito.
Não foi fácil resistir à Francesca. À noite, chegava a sonhar
com ela, quando, secretamente, dava vazão ao seu desejo. A
questão só se acalmou quando ele foi transferido para outro
prédio da empresa. Não a viu mais. Com exceção de uma única
vez, depois de alguns anos, em que a viu atravessar uma rua
grávida e, por um instante, sentiu inveja do pai daquela
criança.
Olhando para a sacada, disse a si mesmo: estou viúvo. O filho
tinha se casado. Nada o impedia agora. Estava próximo do fim.
Seria o tudo ou nada.
Mas como achar Francesca?
Tomou um banho e arrumou-se. Pegou o carro e foi rumo ao
Centro. Sabia que pela avenida Protásio Alves era preciso
manter à esquerda, porque na pista da direita sempre tinham
carros estacionados irregularmente que atrapalhavam o fluxo.
Conhecia o tempo das sinaleiras, os desvios, onde o trânsito
corria mais, onde trancava menos, e começou a pensar que esta
podia ser a última vez que passava por aquela avenida, por
aquela loja de colchões da esquina e pelo louquinho que ficava
sempre à beira do viaduto.
Ao chegar na garagem em que estacionou o carro por quase 30
anos durante o período em que trabalhou, segurou-se para não
deixar verter uma lágrima quando um dos manobristas, o único
remanescente de sua época, de longe avistou seu carro e disse,
como que de cor, o número da sua placa ao que ficava sentado
distribuindo os tíquetes.
- EKP 20 30! E aí, doutor, há quanto tempo não aparece por
aqui!
- Pois é, aposentando, sabe como é...
Inácio dirigiu-se à sua antiga empresa e pediu para ir ao
Departamento de Pessoal. Antes, conhecia os porteiros, que o
cumprimentavam com humildade, e a entrada era liberada pelo
crachá. Agora, tinha de se submeter a colocar um adesivo de
“visitante” e tirar uma foto tipo identidade.
Pelos corredores, só rostos estranhos. No departamento de
pessoal, foi recebido com desconfiança.
- O senhor quer o endereço de Francesca Mantiolli? Mas ela já
se aposentou faz tempo..., disse um mal-humorado balconista.
Com uma conversa mansa e desculpas mal forjadas, Inácio
insistiu.
- Olha, a gente não costuma fazer isso. Só vou ceder para o
senhor porque já foi funcionário da casa.
Bairro Restinga. Com o endereço na mão, seu coração começou a
pular como se estivesse com taquicardia. Correu até a garagem
e pediu pressa para o manobrista trazer seu carro. Pagou e
pediu que o caixa ficasse com o troco.
- Apareça, doutor!
Inácio deu um sorriso e baixou a cabeça, em sinal de
reverência ao seu contemporâneo. E saiu em alta velocidade.
Corria como se fosse pegar o último trem. Corria como se
aquele percurso fosse seu último vôo de liberdade. Corria para
realizar o seu desejo de 30 anos atrás. Corria como um
adolescente em rachas de trânsito, ouvindo gritos e
xingamentos de outros motoristas. Corria para livrar-se da
angústia, para fugir da morte.
Chegou na frente do condomínio de apartamentos simples do
bairro de periferia. Bloco C. Crianças brincavam pelo terreno.
Tocou no apartamento: 21.
- Quem é?
- Uma entrega para Dona Francesca.
- Ué, mas eu não pedi nada!
- Na verdade, é um velho amigo, das empresas R e R.
- Quem?
- Inácio.
- Inácio Duarte?
- É.
Houve um silêncio de alguns segundos no porteiro eletrônico. E
o sinal para abrir a porta soou.
Subiu um lance de escadas. Ela estava com a porta aberta,
esperando-o.
- Que surpresa. Não sabia que o senhor vinha. Não repare a
casa, está um pouco desarrumada. E eu também. Faz tantos anos
que não nos víamos.
- Me perdoe por aparecer assim, depois de tanto tempo.
- O que houve? Alguma coisa com a empresa? Soube que a
associação dos aposentados está se mobilizando para não acabar
com nossos benefícios.
- Não, eu vim te visitar mesmo.
A expressão de Francesca ficou desconcertada.
- Sente. Vou fazer um café.
Enquanto ela foi para o fogão, Inácio aproveitou para respirar
fundo. Suas mãos suavam frio. Buscou um lenço no terno para
limpar o suor que lhe escorria também pela cabeça. Francesca
estava aproximadamente 30 quilos mais gorda, com olheiras, os
cabelos brancos aparecendo até a parte pintada de tom caju.
Os barulhos da cozinha quebravam o silêncio que tomou conta do
ambiente.
Em seguida, apareceu uma menina com uma boneca nas mãos e se
assustou com Inácio.
- Vó, quem é esse homem?
- Ele trabalhou na mesma empresa da vovó há muitos anos.
E a menina voltou correndo para dentro.
- Minha filha trabalha e cuido da minha neta. Ela foi mãe
solteira. Tenho de ajudar. Não posso falar nada, comigo também
foi assim.
Ao trazer uma bandeja com o café, Inácio sentiu falta dos dois
biscoitos. Não havia nenhum. E as mãos de Francesca
apresentavam um tremor.
Não foi tanto o fato de estar mais gorda e envelhecida que o
impressionou. Mas seu olhar. Não tinha mais a faceirice de
antes. O tom sapeca tinha sumido, dando lugar a um ar
desiludido, opaco.
- Sei que faz muito anos que não nos vemos, Francesca. Mas
algumas circunstâncias na minha vida me levaram a tentar
realizar certas coisas que sempre quis fazer e nunca fiz
antes. Gostaria de convidá-la para jantar um dia desses, para
conversarmos...
- Olha, seu Inácio, vou sincera com o senhor. Estou evitando
sair porque tenho de cuidar da minha neta. Além do mais, estou
freqüentando o AA, aquele grupo para alcoólatras. O vinho
tinha tomado conta de mim. Mas agora, só suco de uva. Por
isso, tenho evitado sair, para não dar chance de cair. Nem é
tanto por mim, que já estou uma porca velha, mas pela menina.
Inácio permaneceu fitando-a. Para não deixar o clima muito
estranho, falou de casos semelhantes com outras pessoas que
ele conhecia. E então despediu-se. Buscou um último olhar como
aquele que ela lhe lançava nas antigas reuniões, mas, desta
vez, ela olhava para o chão.
Agora, na volta do percurso, dirigia muito devagar. E também
ouvia impropérios e palavrões. Parou na frente do edifício do
filho. Depois de ser anunciado pelo porteiro, subiu, jururu.
- Oi, pai! Não avisaste que vinhas! Mas que bom que
aparecestes, venha ver o quarto do bebê, que estamos montando.
Sem uma palavra, apenas cumprimentou o filho com a cabeça e
foi ao quarto do futuro neto. Saber que deixaria descendência
era seu único consolo.
Viu uma poltrona em meio aos móveis novos e o berço.
- Posso me sentar aqui?
- Claro, pai. O senhor está bem?
- Sim, só preciso me sentar um pouco.
O cheiro de pintura das paredes e dos móveis que tinham recém
chegado o inebriaram. Inexplicavelmente, sentiu um grande
bem-estar, como se fosse um sono profundo. E preparou um
suspiro para sentir o cheiro da madeira nova pela última vez.
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