Caminho

Flávio Sant’Anna Xavier

“As almas jovens não conhecem o sofrimento”
Eurípedes, Medéia

Não sei quanto já caminhei. Não sei. É noite ainda, isto eu sei. As luzes estão acesas, impedem qualquer claridade de amanhecer. À noite se caminha mais e não se sabe quanto. Durante o dia o movimento solar permite que nos achemos, a distância percorrida. À noite não. A noite tem estrelas imóveis, cicatrizes do firmamento. Cicatrizes, olho as minhas, já escondidas na pele esbranquiçada. Será o sinal que estou morrendo? E quem não está, neste instante, com as luzes todas acesas, morrendo? As luzes todas acesas, neste momento, acho que só eu, mas morrendo, cada um um pouco. Dois um, a morte não cabe em pouco. Só com complemento. Cada um um. Um pouco. Este embaralho das idéias é sono, maldito, que me alcança próximo do amanhecer. Isto sim, é prenúncio de raiar o dia, não as luzes das lâmpadas, mortiças, que se avivam cada vez que entro numa peça do apartamento. E por que o sono? Bem sei que para se fugir dele há de encará-lo, não esperá-lo deitada, na cama. Assim é a vida. E principalmente a morte, e por quê, maldita, tão perto assim da vida? Tenho que pensar na vida, na vida que tenho, não importam estas cicatrizes esbranquiçadas. Minha pele é branca, muito branca. As cicatrizes não são sinais, estes sim, pretos, pardos, o câncer, escuro. O homem tem medo do escuro, é da cor que falo, não da raça. Acho que deveria dar estas panelas suspensas na armação, coisa mais antiga, e ainda por cima sujam por nada. Não sei, é sinal de casa asseada, o laminado brilha, reflete a luz. Casa asseada a minha. O aço virgem destas panelas não brilhavam tanto como agora. Sei porquê. É aço raspando aço, daí vem o brilho. Mas é brilho dependente, de luz, de luz. A vidraça do armário não brilha, que engraçado. Entro toda a noite nesta cozinha e nunca reparei. É o ângulo da luz. O vidro é traiçoeiro. Experimente apagar a luz e vê-lo. Não se vê. Estenda a mão para alcançar a caneca e ela, a mão, se depara com o vidro, mas aí é tarde. O vidro se vinga. Pra tudo nesta vida tem remédio. Eu não vou parar de andar. A morte busca quem descansa ou já não tem força de andar. Nunca vi alguém morrer andando. Nunca. Nunca. Nunca. Ando pra não morrer. Não morrer. Nunca. Acho que tá na hora de falar, lembrar que estou viva “todo dia” “todo dia”. Assim desperto. Parece que se apagam, um pouco, estes pensamentos, as imagens escondidas atrás do pano. O pano é um pouco a vida. A danada se aviva quando busco as lembranças de piá. O cheiro de pitanga. O cheiro de pitanga sempre vem. Perto da pereira e da balança. Embalo-me, agora, engraçado, tudo presente, o cheiro, o vento raspando as bochechas, os cabelos esvoaçantes. O trilho no chão dos pés descalços raspando a terra. Olha lá o passarinho, cabeceia uma minhoca no chão. Não esqueço. Nunca mais, mas este cheiro de pitanga veio de repente, acho que foi quando comecei a caminhar no apartamento. Quando foi? Meu Deus, não me lembro quando comecei a caminhar. Por quê, meu Deus? Por quê? Os passarinhos estão cantando. Lá fora, na rua. O outro está cabeceando com a pitanga, pobrezinho, não tem mãos, nem faca, nem garfo. Hum, imagina, que disparate. Um passarinho sentado na mesa, com garfo e faca, separando folha, minhoca, pitanga. Caroço. Humm, sua tolinha. Será que amanheceu? Vou dar duas voltas no apartamento, voltar onde estou e apagar a luz da sala. Meus passos me levarão. Não pensarei em nada. Não pensarei, basta que pense nisto. Não pensarei. Não pensarei. Não pensarei. Não amanheceu. Maldito sono. Quem tá cabeceando agora sou eu. Não amanheceu. Ainda não amanheceu. Maldito. O passarinho nunca comerá com garfo e faca assim como a morte nunca pegará quem anda. Quem anda de noite. Quem anda de dia engorda, ih, ih, nunca vi magro andando pelas estradas, como é que se diz? Fazendo jóking. Acho que caminhar na estrada engorda. Em apartamento tenho certeza que não. Cada dia que passa estou mais magra. Eu vou até o banheiro, me olhar no espelho. Estas olheiras me deixam ainda mais magra. Mais velha. Psiu! Não pense nisto. Não pense nisto! É olhar de sono, sono. Vou escovar os dentes, arrrrgh, que desbeiçada esta escova, nossa como estou escabelada. Melhor assim, esconde a calva. Mulher não é careca, é calva. Eu sei porque mulher fica com cabelo branco, é para esconder a calva. Eu não pinto os cabelos. O grisalho espanta a luz, impede chegue na calva. Eu sei tudo isto. Quando usava sabão minha escova era penteada, dura que só ela. A gengiva sangrava, eu corria pra mamãe e ela sempre dizia “É bom pra renovar o sangue”. “Desenferruja”. O dia que você perder os dentes, enferrujará toda, e será a morte. Droga. Vida. Vida. Vida. Viva a vida. Vida. Droga de morte. É só me estancar diante do espelho pra que ela não venha bulir comigo. Nossa, estou me mijando. Enquanto caminho não morro. Disto eu sei. Não me lembro, mas quando comecei a caminhar de noite acho que ouvia rádio, pra não dormir. Cada peça tinha um radinho. Mas, diabo, não conseguia me concentrar, e que sono me dava. Bah! Teve noite que dormi, é, acho que sim. Sonhei a noite toda com os malditos insones que telefonam pra jogar conversa fora. Por isso não vou pra asilo. Aquele bando de gente sentada, jogando conversa fora. Tudo desbeiçado, varicoso. Varizes que nada, é ferrugem entupindo tudo. Quando menos esperam a morte vem. A morte gosta de velho sentado. E deitado? Hum, é só ajuntar no caixão. A mim vão ter que me parar. Descalça, pelada, de óculos, não importa, não paro de caminhar enquanto for noite. Eu não, que esperança. Nunca ouvi história que o Diabo se aquieta. O Diabo é esperto não porque é velho, mas porque caminha. É velho que caminha. “Eita Diabo”. Isto eu posso. Vou tomar água pra lubrificar o corpo. Hidratar. Recuperar. Quem toma água não tem sono. Eu sei. Ih, acho que clareou, acho que sim. Vou ver. Não, primeiro tomo água. Depois balanço a cortina da cozinha, espanto os passarinhos. Atiro umas pitangas. Coisa boa caroço de pitanga. Os passarinhos deixavam os caroços. Nunca tive nojo, catar os caroços e depois chupá-los, enquanto atirava os pés ao céu no meu balanço. A terra não tem doença. Os filhos da empregada, lá fora, sempre comeram terra. Como era mesmo o nome. Gumercinda, isto, a Gumê. Morreu cedo. Também, passava a tarde mexendo a gamela de doce. Dormia a noite toda. Bah! Doce de goiaba, de leite. Embaixo de cinamomo. Por quê só se faz doce embaixo de cinamomo? Acho porque as raízes não são expostas. Já imaginou mexer doce embaixo de seringueira? Que tolice. Seringueira é pra cachorro dormir. Cusco velho morre de noite, pode ver. Cusco novo morre de dia, morte matada. Morrida é coisa de velho que desaba na cama. Ventre inchado de gases. Pestilento. Cheira morte já em vida. Essas cortinas não trespassam luz. Bonito isto, trespassa. Tenho que passar roupa. Não. Vou deixar pramanhã. Passar pra quê? E quem me visita? Família desgraçada. Melhor, assim tenho forças pra caminhar a noite toda, não penso em ninguém. Bando de egoístas. Logo amanhece. Os passarinhos já tão cantando. A morte vem à noite. A noite não tem relógio. Só acaba quando amanhece. O resto é noite. Este cheiro de pitanga que me acompanha em cada canto deste apartamento agita lembranças. Pra morte não me pegar. A morte gosta de velha deitada à noite.