A menina que não sabia sonhar

Ana Lúcia Habkost

Quisera ter cabelo loiro e ele era preto. Pensara em ser alta, mas não chegara à média.

Desejava inverter os papéis, mas vertia sangue todo mês.

Bem atrapalhada esta sua vida. Não dava conta de ser interessante. Seu espírito amornava na falta de sonhos.

Vivia assim parecendo amuada,mas, tinha eram dúvidas.

- Pare de sonha, Carmela. Venha lavar a louça.

- Oh mãe, não tô sonhando, nem sei sonhá. Tô aqui querendo entendê .

- Entendê o que, menina?

- A vida.

- A vida a gente não precisa entendê, só necessita é vivê.

- Vivê com este cabelo preto feito uma graúna, mas sem poder avoá? Com estas pernas curtas? Se não sento num mocho elas ficam soltas no ar. Tenho vergonha, mãe. E o pió de tudo é tê no ventre este ferimento aberto, teimoso, que sangra insistente no ciclo da lua.

- A natureza é sábia, Carmela. Te fez pássaro sem asas. Te deu pés, mas diminuiu teu passo. Só não entendo porque te fez sangrenta e capaz de um dia parir. Tu devia era ser homem para poder correr o mundo.

- Correr o mundo, mãe? Até deve ser bonito, mas não sei como é. Nem o mundo, nem correr por ele.

- O pió, filha, é que você pelo jeito nunca vai aprendê.

- Mas por que, mãe?

- Tu só pergunta e não busca a resposta. E agora chega. Vá lavar a roupa no riacho. Já falei demais.

Carmela precisava concordar.

- A mãe fala demais. Embaralha minhas idéia. Às vezes me manda pará de sonhá, noutras, manda buscá a resposta.

Busca a resposta? Sonhá? Porque não nasci graúna?

Quão duros foram os dias e as noites depois daquela conversa.

Carmela nunca mais foi a mesma. Esqueceu a cor do cabelo, a pequenez das pernas e nem deu tento de seu lençol molhado e manchado de vermelho.

- Quem sabe minha mãe tem razão. Vou atrás das respostas?

Estarão na terra?

Correu até o galpão, pegou a enxada, e tomada de um frenesi encontrou forças para fazer longos e profundos sulcos na terra dura, crestada pelo sol do verão.

Fora minhocas alheias a tudo, nada encontrou.

Quem sabe estão na água?

Correu até o riacho e exaustivamente mergulhou de olhos abertos. Viu apenas peixes indiferentes a sua angústia.

Não estão aqui as respostas.

Suas palavras eram cortadas pela falta de fôlego.

- A mãe tem razão. Acho que nunca vou apreendê. Se pelo menos soubesse sonhá.

- Essa menina tá definhando, dizia o pai. O que te falta, criatura?

- É que não sei encontrá respostas e muito menos sonhá, pai. Isto tá me tirando o viço.

Queria era ter nascido graúna.

O pai olhou para ela assustado.

-Te falta pouco prá isso. A cor das penas já estão no cabelo e as asas nas tuas idéias.

Carmela, seguia sofrendo.

Isto ainda vai me deixar louca. Preciso entendê. Até não quero entendê toda a vida assim de sopetão, pode ser devagarinho, tal como corre a água do riacho.

Os dias iam e vinham as noites e sempre as mesmas perguntas:

- Porque sou tão baixinha se é muito mais bonito sê alta? Onde encontrá as respostas? Como apreendê a sonhá? Por quê não sou graúna que pode avoá?

- A gente não escolhe estas coisas. Deus que determina. Te conforme, menina, dizia a mãe.

Carmela começou a se dar conta que este tal de Deus era um intrometido.

Naquela tarde, enquanto lavava a roupa no riacho, xingava mentalmente o irmão que sujava tanto as camisas.

- Ainda bem que tem bastante água e sabão. A camisa tava marron de tão suja. Agora tá alva como aquela nuvem lá no alto. Taí uma coisa que Deus quis e eu desfiz. Deixei a camisa branquinha, branquinha.

Não pode conter o riso. Imaginou o desconcerto de Deus ao ver que ela também podia mudar as coisas.

Seu olhar elevou-se desafiador para o céu. Mas não encontrou Deus e sim uma nuvem que parecia um pássaro, mas não um pássaro qualquer, era uma graúna sem tirar nem por, só não era preta. Seu olhar abraçou aquela nuvem branquinha, seu pensamento voou até ela e abraçadas rolaram céu abaixo, depois subiram novamente e assim divertiram-se por longo tempo.

Quando voltou para casa, a mãe comentou:

- Que cara é esta? Viu algum passarinho verde?

- Verde, não. Vi uma graúna alvinha, alvinha. Ela me convidou para avoá. Foi maravilhoso mãe. Acho que aprendi a voá.

- Filha pare com isto, estes sonhos vão te deixá louca.

- Então isto é sonho, mãe? Podê mudá as coisas é sonhá, mãe? Avoá com a nuvem é sonhá, mãe?

- Esta menina saiu às avessas, mas Deus quis assim.

Nesta noite, pela primeira vez, Carmela bem quis alguma coisa de sua vida.

Durante várias semanas degustou a sensação de voar agarrada na nuvem. Começava devagarinho, depois acelerava, então corria de forma tresloucada.

Ficava exausta de tanto sonhar.

Um dia deu-se conta que estava cansada de sonhar de voar. Entristeceu-se. Acabrunhou-se.

- E agora? Como vou fazê pra inventá outro sonho? É por certo aquele Deus novamente querendo que tudo seja do jeito dele.

Por quê não nasci graúna? Por quê meus passos não podem ser largos?

Pensava isto enquanto estendia as roupas ensaboadas por sobre as pedras quentes para quarar. Depois de um tempo, as roupas, aqueciam com o calor das pedras e quando novamente molhadas a sujeira saia com facilidade.

Carmela lembrou-se da primeira vez que dera-se conta que podia mudar as coisas a revelia de Deus.

Neste dia resolveu correr mundo mesmo não sendo homem.

Não avisou a mãe nem o pai. Saiu fugida. Levou na mochila apenas um pedaço de pão, uma alça de lingüiça, e uma muda de roupa.

O pai não se espantou muito.

- Era louquinha mesmo. Desde pequena sempre foi esquisita. É menos uma boca.

A mãe chorou muito. Mas depois se conformou.

- Deus te acompanhe, minha graúna.