A droga de domingo

Carolina Rossi Wosiack


Sempre assim. Chega esse dia que pode ser cinzento ou ensolarado. Mas ele vem. De uma maneira traiçoeira, geralmente depois de um sábado bem aproveitado. Um dia muitas vezes de ressaca. De falta de fome, de dor de estômago. Sensível. De lamentações. Não deveria ter bebido tanto, poderia ter fumado menos, guardado ao menos um baseado. Mas qual! Tinha que ter tudo, engolir todos os fermentados, tragar todas as fumaças. 

Acordo depois do meio-dia, por certo. Cheguei na calada da noite. Três, quatro, cinco, seis às vezes até às sete horas. Sempre tarde. Um sábado que não saí é um dia que eu não conto. Vergonhoso ficar em casa durante a noite. Como se fosse a última das pessoas, a renegada, a esquecida. Assim me sinto. Mas, tudo bem. Geralmente consigo dar um jeito, bebo, vou ao teatro, saio para jantar ou na última das hipóteses, vou ao cinema. 

Por alguns meses, assistir filmes na tela gigante foi programa de se fazer com namorado. A época que eu ainda tinha. A última vez, acredito que chegou a três meses. O mesmo cara de anos. Uma reatada estúpida. Sexo e carência. Só isso. Não durou muito. Logo eu já estava apaixonada, de novo, por outra pessoa. Alguém mais interessante, intenso e imbecil. Claro! Creio que deve fazer parte de mim esses amores platônicos. Se não for assim, não acho graça. Não me sinto viva. 

Entendo o meu pai agora. Ele sempre precisou de paixão e intensidade. Minha mãe, morna, nunca conseguiu dar isso a ele. Sempre quieta, rezando pelos cantos. Era preciso sublimar o sexo. “Se fossemos mais evoluídos, não precisaríamos trocar energias básicas através dos órgãos genitais” – dizia ela. Como eu poderia ser uma adolescente saudável com uma esposa de Jesus em casa e um maníaco sexual? Não havia meio termo. Meu pai era sempre o culpado. Muitas mulheres, muitas bebidas, muito cigarro. Terminou por se destruir. Eu não podia segui-lo. Ficar com todos por aí. Chamariam-me de puta, de galinha. Mulher, na minha família, não pode ser dar o luxo de experimentar seguir o que sente, levar-se pelo tesão. Tem que fazer escolhas sensatas, homens que encaixem no padrão doméstico. 

Quando volto das minhas noites de festança, no dia seguinte, domingo, fico com nojo da vida. Vejo o que eu fiz e penso que estou trilhando o mesmo caminho de meu pai, mas, enquanto o encanto do álcool e da fumaça dura, isso não passa pela minha cabeça. Adoro falar da minha vida em mesa de bar. Diverte as pessoas. Tem um quê de romance, sempre. Com reviravoltas e direito a suspense. Depois, no outro dia, é óbvio me arrependo. Geralmente porque me expus-me demais. Era melhor ter calado a boca e não ter dito nada. Penso que tenho que aprender a engolir os meus pensamentos ao invés de externalizá-los. Provavelmente, é por isso que os outros me olham com cara estranha. Eu digo para as pessoas o que se passa dentro de mim, elas não. Cansei de viver uma vida medíocre de aparências. Decidi seguir meus ímpetos. Deixar o cosmos funcionar em meu favor. 

Não tenho trabalhado nem estudado muito ultimamente. Não preciso. Mas, no fundo, me incomoda porque sei que devo cumprir com os meus deveres, mas quando tenho de sentar para realizar o que é preciso, me vem uma pergunta: Pra quê? Com tanta coisa interessante no mundo para fazer! Nunca pensei que falaria uma coisa dessas, mas se olhar para trás, apenas algumas semanas, também não acreditaria no que estou vivendo. 

Sofrendo por amor. Agora de verdade. Como eu sonhei quando criança. Encontrar alguém a quem se queira bem. Sempre tive medo de amar e ser abandonada. Pronto. Aconteceu. Satisfeita? Dizem que tudo que tememos na vida acaba se realizando. 

Meu pai ficaria orgulhoso de mim. Não. Se eu fosse homem, sim. Mas... Ainda bem que ele já morreu, senão eu o mataria do coração novamente. 

Minha mãe, sorte que ela acha que eu estou atormentada pelo ex-namorado. O rompimento com o meu companheiro foi... providencial para que não percebam que sofro por causa de outro. 

- Não te entendo mais.

- Eu sei. Já percebi. O que queres fazer?

- Não sei, não consegui pensar ainda.

- Tu não queres mais ficar comigo. Tudo bem, eu compreendo.

- Não sei se é bem isso.

- É, sim. Eu estou sentindo. Vou te dizer, acho bom. Finalmente tu resolveste fazer alguma coisa nessa história. Eu comecei, dei um tempo, reatei. Agora tu acabaste. Acho que está pronto para começar a fazer terapia, querido. 

- Ah. .. 

- Então tá, Antônio. Tchau.

- Como a gente faz com as formas de bolo da minha mãe?

Meu Deus do céu. Eu queria ter uma delas na hora, para bater na cabeça dele. Que estupidez. Acabando comigo e perguntando isso. Típico dele. Totalmente out. 

- Eu te ligo para buscar quando tiver lavado. Ok?

- Vou indo, então.

- Até mais. 

Foi fácil para mim. Ele terminou o namoro que eu, em alguns dias, ia dar um fim. Não esperava realmente isso, vindo dele, mas no final das contas, fiquei aliviada. Não precisaria carregar a culpa romper duas vezes. 

Ficaria mais livre para curtir o amante. Nem sei o que falar dele no momento. Até porque ele também acabou comigo. Não sei se acabar é a melhor palavra, porque se subentenderia que eu tinha algo com ele. E não tive nenhum compromisso. Deixo a minha paixão aqui, por hora. Tenho sofrido e na verdade comecei a escrever para dizer que tenho que desistir dele. Que ele não vai me responder e-mail algum, que o celular não vai - nunca - identificar o número dele e que não vamos mais dividir a cama. Preterida. Tudo porque quando ele a conheceu, eu era apenas um zigoto – um projeto de gente. Ela veio primeiro e eu tive azar de aparecer depois. 

Falo, falo, falo demais. Meus amigos, não sei porque, hoje não me atendem no telefone. Talvez porque eles não agüentem mais ouvir falar no dito. Quase todo mundo já sabe, e ninguém poderia. Tenho medo que a mulher dele descubra, o casamento desabe e eu seja a culpada. Amo-o. Não o quero ver triste. Se ele escolheu permanecer com a esposa que seja feita a vontade dele. Não quero que ela saiba. A não ser que ele conte. Daí não é mais problema meu. Mas, o que eu não desejo, na verdade, é romper o elo de ligação que temos. De maneira alguma. Ele é alguém muito importante para mim em toda a minha vida. Mudou-me muito, fez-me sentir adulta e mulher. Diferente do namorado. Escolho o amante. Mas que merda. Eu não tenho controle da situação. Não tenho voto nessa questão. Ele decidiu ficar com a mulher, colocar em prática planos que eles têm juntos, e, bom, eu fiquei fora dessa. 

Esse sentimento de falta. De precisar ser abraçada e segurada. De ter a minha boca beijada, sofregamente. E saber que não vou ser. De ficar tentando conseguir migalhas de um ex-namorado, para tentar apartar a dor de não poder se ter quem se ama; e o idiota do ex, nem se digna para sair de casa. O outro; bom, o meu amor, nunca mais o terei aqui comigo. 

Droga de domingo. Será que ele acordou cedo para assar o churrasco? Será que à tarde ele dormiu com ela agarrado? Será que está o usando o gel de banho que dei para ele aquele dia em dividimos a ducha? Será que lembra de mim quando se ensaboa? Será? Ele me vem a memória, cada vez que passo por onde o esperei lendo Edgar Allan Poe. Quando chove, lembro daquela noite. É bom, fico assim, padecendo a cada pequena lembrança. Qualquer droga me recorda o dia do ocorrido. 

Não importa mais. É a droga de domingo, vou pegar o resto do baseado que sobrou da minha festa, a qual ele não veio e na qual eu rompi o meu namoro, e esquecer do mundo.