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A
boneca eviscerada
Cláudio Levitan
- Não entra! Não entra!
Berta chegou a ver o piso inundado de sangue e só pôde levar
as mãos à cabeça e lançar-se nos braços do marido com um
suspiro que era um ronco.
Mazzini sentiu o corpo de Berta sacudi-lo. A sua cabeça
girava. Estava confuso com as emoções conflitantes que sentia.
O mundo desmoronava-se atrás daquela porta. A imagem não saía
de seus olhos, mesmo que ele estivesse mirando outra coisa.
Diante dele estava a pequena Bertita como uma galinha
degolada, inerte sobre a mesa e seus quatro irmãos idiotas com
as mãos em suas vísceras. Inocentemente preparando uma janta
para os pais.
A memória da imagem se repetia em câmara lenta infinitas
vezes. Só assim, ele percebeu, ao percorrer detalhes de cada
uma daquelas 5 criaturas inseridos na ceia macabra, que eles
lhe pertenciam. Neles, ele se via e também enxergava os traços
de Berta num detalhe da face, dos cabelos escorridos, no
formato dos narizes. Em cada um havia um pedaço deles dois
juntos. A deformação pela idiotez não conseguia, naquele
momento, esconder mais as suas heranças. O sangue que escorria
pelo chão e o que circulava em cada um daqueles seres
estúpidos era seu. E de Berta, agora tão frágil e tão próxima
de seu corpo, quase entrando dentro dele, querendo se
aconchegar em seu colo, em seu ventre. Sentiu uma onda de
ternura por todos. Uma força interior conseguia mantê-lo firme
como uma estaca, mesmo que por dentro estivesse demolido,
desestruturado. Desossado. O seu corpo, como de um fantasma,
permanecia firme abraçando e segurando Berta que se
convulsionava em um choro sem lágrimas, num ruído surdo e
profundo que vinha de um poço inconcebível. Irracional e
violento. Mas suas mãos, agarradas à roupa, apalpavam em busca
de um carinho que parecia nunca mais ter existido. Ressurgia
um fogo interior que abastecia uma paixão enterrada há anos.
Ele fechara a porta e deixara os pedaços de Bertita à mercê da
inocente estupidez dos seus outros quatro filhos. Até onde
fora possível chegar nesta busca incansável pela felicidade de
um matrimônio doente? A um banquete entre pedaços de um amor
sem palavras?
Talvez porque tudo em sua volta e dentro dele era morte,
repassou cada momento de sofrimento por cada perda, cada filho
que adoentava-se, cada pedaço de amor que se perdia até que as
palavras proibidas foram ditas e tudo já anunciava que eles
não podiam ter o que já tinham. Berta tísica e Mazzini bêbado
só poderiam ter filhos tolos. A pobre Bertita, que sobrevivera
a sua própria tragédia, morria agonizada pela falta de amor
entre eles. Mas a luz do final do dia iluminava os cabelos de
Berta e seu rosto deformado pela dor ressaltava os olhos
brilhantes que ele tanto e ainda amava.
O que fazer agora? Chamar a polícia? Recolher cada pedaço e
recolocá-los em ordem para refazer a molequice de sua pequena
Bertita? Arrancar os olhos de seus filhos doentes? Se já havia
arrancado tudo e não tinham percebido que ainda havia gente
dentro daquelas coisas inertes paradas há anos diante de um
muro sem sombras?
Berta se desmorona sob seu braço. Mazzini pensou em chamar
Maria. Desistiu. Deitou a esposa no sofá.
Retornou à cena do massacre como quem se dirige ao sacrifício.
Abriu a porta e os quatro idiotas estavam parados de costas
para a mesa e mirando o muro branco pela janela da cozinha.
Todos ensangüentados, as roupas, as mãos, os cabelos empapados
e babando como sempre fizeram. O corpo dilacerado de Bertita
sobre a mesa, como uma boneca estripada. Os braços, a cabeça e
as pernas separados do pequenino tronco. Mazzini se
impressionou com a precisão dos cortes. Foram capazes de um
gesto tão racional? O que acontecera dentro do seu lar? Onde e
quando começara a violência? A quem acusar? As perguntas
silenciaram-se em sua cabeça e ele se acalmou. Tudo estava no
seu devido lugar. Como sempre estivera.
Foi com a determinação de arrumar toda a sua casa, como
deveria ter feito há muito tempo. Seus gestos voltaram a ser
firmes e precisos. Cortes de um bisturi. Acendeu as luzes do
pátio e de todos os quartos. Sentou-se no sofá com Berta.
Acomodou sua cabeça, ainda desfalecida, em suas pernas. Olhou
pela janela da sala. O muro branco refletia a luz do interior
da casa e se mexia com as sombras das cortinas. A noite densa
e enluarada envolvia com uma brisa o silêncio. Tudo estava
calmo de novo. Ouviram-se dois estampidos por todo o
quarteirão. E os grilos voltaram a barulhar a escuridão do
jardim.
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