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Claudia Nocchi
Ivan Davinovich deixou o sobretudo na chapelaria e recebeu do
funcionário a ficha com o número do cabide. Guardou no bolso
da calça e, esfregando as mãos para espantar o frio, foi até o
bar. Pediu uma garrafa de champanhe. Gostava de beber
champanhe, em especial nos momentos de reflexão. Gostava de
ver as borbulhas subirem em direção a boca da taça, da cor
dourado pálido do líquido, e gostava de adivinhar, ao primeiro
gole, os sabores da bebida. Frutas, flores, levedura? Ia
colocando os pensamentos em ordem. Tinha deixado o envelope no
bolso do sobretudo. Queria tempo para abrí-lo. Queria
prolongar a esperança.
Ivan Davinovich não gostava de jogar. Mas gostava do cassino.
Do movimento nervoso dos jogadores, do barulho das fichas, de
ver como a sorte brincava em ser destino. Gostava de
observar... Por isso, escolhia sempre o mesmo ponto no balcão
do bar, de onde podia ver quem entrava e quem saia.
Por alguns segundos, desviou os olhos da taça de champanhe,
onde a espuma persistia indicando a qualidade do produto. Viu
o homem que deixava o sobretudo na chapelaria. E percebeu a
indecisão sobre levar ou deixar no bolso do casaco o envelope.
Breve instante, pegou apenas o maço de cigarros. O homem
pareceu familiar. Calvo, curvado, com uma pele amarelada. Era
como se olhar no espelho? A semelhança impressionou Ivan e, do
homem que seguia para a roleta, não tirou mais os olhos.
A primeira taça ajudou a esquentar o corpo, a relaxar o
espírito. Ao final da segunda, Ivan estava corajoso. Decidiu
beber a terceira ao lado de quem parecia ele refletido no
espelho. Um homem nervoso que bebia grandes goles de uísque e
apertava, com força, na mão esquerda, a ficha da chapelaria.
Como o tempo, nesta noite, era de incerteza e, amanhã, - ou
mesmo mais tarde, quando chegasse em casa e abrisse o envelope
- tudo poderia mudar, Ivan decidiu que o tempo de mudar era
agora e jogou na roleta, pela primeira vez.
Ivan Davinovich não sabia como se escolhiam números ou cores.
Mas, observou que o homem apostava sempre no vermelho, em
números pares. E riu, por dentro, quando viu que a ficha na
mão dele tinha o número 32. Seria uma pista para a primeira
aposta? O sobretudo de Ivan estava no cabide 23. O trinta e
dois invertido, como invertida ficava a imagem de Ivan olhando
o homem calvo e amarelado.
Naquela noite, a roleta parou treze vezes no vermelho vinte e
três. Não seguidas, mas suficientes para transformar o
funcionário público Ivan Davinovich em um homem rico. E
esperançoso. O destino dava sinais de felicidade.
Uma boa hora para a segunda garrafa de champanhe compartilhada
com outros jogadores que tentavam a mesma incrível sorte que
ele teve. No último gole, duplamente embriagado, recolheu o
dinheiro ganho, entregou a ficha na chapelaria, colocou o
sobretudo – que naquele momento lhe pareceu um pouco estranho
- e foi para casa.
No apartamento, o dinheiro espalhado pelo chão, o medo
adormecido, o envelope foi aberto. A palavra metástase,
escrita mais de uma vez, fez Ivan compreender que ele voltara.
Maior, mais forte, letal. Agora no pulmão. Um resultado que,
neste caso, não poderia ser revertido, avisara o médico. Então
era isso! A sorte trouxe o dinheiro, mas o destino tirou o
tempo de gastá-lo.
Ivan Davinovich não era homem de gestos impensados. Gostava de
refletir. Mas foi impetuoso ao jogar, pela primeira vez. E
seguiu sendo quando, pela primeira vez, engatilhou o revólver
herdado do pai. Antes de disparar, contra a própria cabeça,
pensou se já não teria visto na clínica aquele homem que
parecia ele refletido no espelho?.
No cassino, quase amanhecendo, um homem calvo, curvado, com
uma pele amarelada, reclamava com o funcionário da chapelaria.
Não, não era aquele o sobretudo! O cabide trazia o número
vinte e três, e, o dele, tinha certeza, estava no cabide
trinta e dois! Número que, gritava ele, não lhe trouxera sorte
naquela noite!
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